PSICOLOGIA GERAL E APLICADA: 12 ANO
RAUL MESQUITA (PRIMEIRO FICHEIRO)


     TTULO         PSICOLOGIA GERAL E APLICADA - 12 ANO

     AUTORES        RAUL MESQUITA - FERNANDA DUARTE

ILUSTRAES         GABINETE GRFICO PLTANO

     CAPA           GABINETE GRFICO PLTANO

ARRANJO GRFICO          GABINETE GRFICO PLTANO

FOTOCOMPOSIO      SECO DE FOTOCOMPOSIO PLTANO

MONTAGEM            SECO DE MONTAGEM PLTANO

IMPRESSO           PERES - ARTES GRFICAS - Venda Nova - Amadora
                    Dep. legal n 87 24395

          DIREITOS  PLTANO EDITORA, S. a.     RESERVADOS       Av. Berna 31, 2 Esq. 
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45
               NORTE Alicerce Editora, Lda. R. G(jerra Junqueiro, 456 - 4150 Porto - 
Teief.: 609 99 79
  I 'Edio E-2241-95 - ISBN 972-621-867-5
RAUL MESQUITA       FERNANDA DUARTE

                  12 ANO

               PLTANO EDITORA

                 PREFCIo

     Ao leitor

     Foi inteno dos Autores deste livro abranger todos os pontos
do actual programa de Psicologia do 12 Ano do Ensino
Secundrio - Nova Reforma Curricular. Introduziram-se, sempre
que possvel, textos de psiclogos assim como gravuras ou esquemas, quer de carcter 
introdutrio s diferentes rubricas, quer
exemplificativos ou complemento das mesmas ou ainda, no fim
dos captulos, como complemento geral e sntese do tema estudado.

     Apesar da Concluso deste livro abordar questes de teor epistemolgico, os 
Autores entenderam incluir algumas dessas questes ao longo da elaborao dos 
captulos,  medida que os problemas iam surgindo. Tentou-se, deste modo, que ficasse 
bem claro ali e logo que nem tudo  to linear quanto o possa parecer - h, de facto, 
aspectos discutveis nesta cincia como alis em qualquer outra e que suscitam a 
nossa reflexo.


     Esperam os Autores ter contribudo para uma boa compreenso
da Psicologia Geral e Aplicada nos seus aspectos mais gerais e ter
facilitado o trabalho do Aluno e do Professor com a incluso de um
ndice onomstico e atravs de uma organizao dos contedos to
simples quanto possvel, dada a grande extenso do programa e a
relativa complexidade de algumas das suas rubricas.

                                        Os Autores

     Quase todos ns gostaramos de saber por
que  que agimos de um modo e no de outro.
Pensamos, e talvez com razo, que seramos
mais felizes se conhecssemos os motivos do
nosso comportamento; pensamos que seramos mais bem sucedidos no trato com os
outros se conhecssemos melhor o seu comportamento. Porm que tarefa difcil se nos 
apresenta e que respostas to dispares se tem
dado s perguntas relacionadas com o comportamento ao longo da histria do 
pensamento!

                  L. MORGAN

                 CAPTULO I

          A PSICOLOGIA COMO CINCIA


     1.   A PSICOLOGIA COMO CINCIA

     1.1.      INTRODUO
     1.2.      O OBJECTO EM PSICOLOGIA
     1.3.      A PSICOLOGIA DO SENSO COMUM
     1.4.      O DESENVOLVIMENTO DA PSICOLOGIA COMO CINCIA
          E    OS SEUS DIFERENTES RAMOS

     2. MTODOS E TCNICAS EM PSICOLOGIA

         2.1. O MTODO EXPERIMENTAL
     2.2.      MTODOS DE OBSERVAO
     2.3.      MTODO COMPARATIVO
     2.4.      MTODO ESTATSTICO

          A PSICOLOGIA COMO CINCIA

     1. 1. INTRODUO

     No sentido mais lato, a palavra Psicologia designa actualmente o estudo do 
comportamento dos homens e animais ou, numa perspectiva diferente, o estudo das 
sensaes, percepes, emoes, pensamentos e aces do homem.

     Etimologicamente, a palavra Psicologia deriva do grego psyche (alma) e lgos 
(palavra, razo, discurso acerca de).

          Na mitologia grega, psyche  a personificao da alma humana numa jovem 
extremamente bela. Em Homero, as almas dos mortos aparecem no Hades (mundo dos 
mortos) tal e qual como tinham habitado o mundo dos vivos e  s sob a influncia do 
Orfismo que a alma  concebida substancialmente diferente do corpo. Em Apuleio, autor 
latino do sculo ii, ErosCupido (o Amor) apaixona-se por psyche. Neste mito, psyche
     proibida de olhar para Eros no resiste e, depois de vrias peripcias 
sobre-humanas que tem de realizar como castigo pela sua desobedincia, quase morre, 
no fora pela interveno

     de Cupido que consegue que Jpiter tenha pena dos jovens apaixonados e consinta 
no seu casamento. A partir de ento, psyche torna-se imortal e vive no cu com 
Cupido.


     1. 2. O OBJECTO EM PSICOLOGIA

     Para que uma cincia se constitua como tal, necessita de ter um objecto geral de 
estudo e mtodos de pesquisa. , de facto, o objecto que delimita o campo de estudo 
de uma dada cincia e lhe confere, desse modo, validade. Consideraes, de carcter 
epistemolgico, como esta, ganharam especial relevo nos finais do sculo xix.


Breve histria da Psicologia

     O objecto em Psicologia no foi, obviamente, sempre o mesmo, tendo variado ao 
longo dos tempos. Durante muitos sculos, a Psicologia foi estudada por filsofos, s 
vindo a tornar-se autnoma como cincia no sculo xix. Filsofos estudaram "estados 
de esprito", a "conscincia", "faculdades da mente"; Santo Agostinho, que viveu no 
sculo v da nossa era, relata nas suas Confisses os estados de alma e conflitos por 
que passou ao longo da sua vida at  sua converso. No sculo xvii, Descartes 
identifica razo e alma, explcita as suas faculdades e escreve um Tratado das 
Paixes da Alma. Empiristas anglo-saxes, tais como John Locke e David Hume, nos 
sculos xvii e xviii explicam o conhecimento com base na experincia sensorial, logo 
com base em dados subjectivos, sendo estes responsveis pela produo de ideias. 
George Berkely, na primeira metade do sculo xviii,  autor dum idealismo subjectivo. 
A sua clebre frmula esse est percipi' (ser  ser percebido) manifesta tal 
subjectivismo. Pode assim dizer-se de um modo geral que a conscincia foi objecto de 
estudo em psicologia at ao sculo xix e que muitas vezes foi utilizada a 
introspeco como mtodo de anlise, constituindo o que pode chamar-se uma Psicologia 
Clssica por oposio a uma Psicologia Cientfica.
                     

A Psicologia Experimental

     Nos finais do sculo xix, William James, filsofo americano e um dos pioneiros 
da Psicologia, definiu-a como sendo "a cincia que estuda os pensamentos, as 
percepes e as emoes", que formam, segundo ele, a corrente da conscincia. Na 
Alemanha, Wilhelm Wundt, fisiologista deformao, definiu o objecto da Psicologia 
como sendo o estudo da experincia ou sensao imediatas. Wundt criou em 1879, na 
Universidade de Leipzig, o primeiro laboratrio de Psicologia, separando assim esta 
disciplina da Filosofia e contribuindo para a sua consolidao como cincia 
experimental. Wundt e os seus alunos, baseando-se na introspeco que o paciente 
fazia  sua frente, tentaram descrever sensaes, percepes e emoes o mais 
pormenorizadamente possvel. Trata-se de facto duma introspeco na 2 pessoa, uma 
vez que no  o indivduo que procede  introspeco o mesmo a analisar os seus 
resultados, ao contrrio do que sucedera nos tempos da Psicologia Clssica. O 
primeiro grande Tratado de Psicologia, os Princpios de Psicologia Fisiolgica, 
deve-se tambm a Wundt. Gustav Fechner, no entanto, estabelecera j em 1860 mtodos 
de medio psicofsica podendo pois ser chamado "o pai da Psicologia Experimental""'.


     Fechner, seguindo experincias realizadas por Ernst Weber no domnio do limiar 
de sensaes, provou que relativamente  percepo de um pequeno aumento de volume de 
som, pequeno aumento de peso ou de qualquer outro estmulo, este cresce em proporo 
geomtrica.

     Hermann von Helmholtz foi tambm um grande psiclogo do sculo xix no domnio da 
experimentao. Estabeleceu teorias sobre a viso, incluindo o desenvolvimento da 
teoria das trs cores de Young, mdico e fsico que em 1800 publicou o artigo "The 
Mechanism of the Eye" (0 Mecanismo Ocular) que explica os mecanismos da acomodao, 
do estigmatismo e da viso das cores. Esta teoria da viso das cores ficou conhecida 
como a "Teoria de Young-Helmholtz". No campo da acstica, efectuou uma anlise dos 
sons musicais com ressoadores, criou uma teoria da percepo com base emprica e 
relacionou a capacidade dedutiva com o inconsciente.

 tambm de referir o contributo de Hermann Ebbinghaus para o estabelecimento da 
Psicologia Experimental. Este cientista fez experincias sobre a aprendizagem e sobre 
a memria. A sua contribuio principal nesta rea foi, no entanto, a criao de 
princpios de memorizao e               de esquecimento.

No  de admirar que os primeiros psiclogos, tais como Wundt, Bir)et, Pavlov, tenham 
sido fisiologistas de formao ou mesmo fsicos como Fechner, fundador da 
Psicofsica. Na verdade, estes homens abordaram os problemas psicolgicos do ponto de 
vista naturalista das suas disciplinas de estudo, tendo por hbito a submisso aos 
factos, para eles mais importantes do que qualquer construo mental. Esta atitude, 
alis ainda comum nos finais do sculo XIX e no incio do sculo XX, foi, no entanto, 
por assim dizer, responsvel pelo arranque da Psicologia e da Cincia actuais. 
(Relativamente a Binet e Pavlov, vejam-se respectivamente os captulos dedicados  
Inteligncia e  Aprendizagem.).

A Psicologia Behaviorista ou Behaviorismo)

A psicologia humana, tal como a concebe o "behaviorista", deve elaborar-se  
imitao da A psicologia animal objectiva e experimental, tomar o seu objecto, o seu 
mtodo, o seu fim, de tal modo que haja no duas psicologias, a humana e a animal, 
separadas por um tabique estanque, ignorando-se mutuamente, com objectos, mtodos, 
fins radicalmente diferentes, mas uma nica psicologia que tome lugar entre as 
cincias da Natureza.

   Assim compreendida, a psicologia no trata da alma, da conscincia, do esprito, 
mas do comportamento, isto , do conjunto das reaces adaptativas, objectivamente 
observveis, que o organismo, considerado como um todo, executa em resposta a 
estmulos, tambm objectivamente observveis, provenientes do meio fsico ou social 
em que o organismo vive. O seu mtodo j no  introspeco ou as suas               
                                     John B. Watson formas larvais mas a observao 
vulgar, o seu fim no  a descrio analtica e estril da conscincia mas a 
formulao de leis de comportamento susceptveis de permitir previses e de 
eventualmente fundamentar uma aco eficaz do homem sobre a natureza humana.


     (... ) John B. Watson (1878 - 1958) est convencido de que podemos definir a 
psicologia humana como "a cincia do comportamento", que podemos elaborar uma 
psicologia que se mantenha estritamente nos limites desta definio, sem nunca mais 
voltar a usar os conceitos condenados de conscincia, de contedos de conscincia, de 
esprito, de estados mentais, de sensaes, de imagens, etc. E a sua definio de 
comportamento mostra que , na verdade, a psicologia animal com as suas preocupaes 
biolgicas que leva.a esta concepo. Uma psicologia humana capaz de satisfazer 
sbios deve, diz ele, ter como ponto de partida "o facto observvel de que todos os 
organismos, humanos e animais, se adaptam ao seu meio mediante disposies inatas ou 
adquiridas, quer tais disposies sejam perfeitas ou, ao contrrio, to defeituosas 
que o ser dificilmente consiga manter a sua existncia".  este carcter adaptativo 
das aces humanas e animais que se revela a Watson como o facto fundamental. Insiste 
muitas vezes nesta ideia. Constitui mesmo o tema do prefcio da sua Psychology from 
the Standpoint of a Behaviorist. Em Behavorsm, considera como tarefa da psicologia 
enquanto cincia natural "o estudo da totalidade das adaptaes humanas". A concepo 
do Watson , portanto, de inspirao nitidamente biolgica, visto que acentua as 
interaces do organismo com o seu meio.      Tais disposies - e esse  para Watson 
o segundo ponto de partida de uma psicologia cientfica - so encadeados por 
estmulos. Os estmulos so fenmenos objectivamente observveis e no estados 
mentais, ideias, intenes, desejos, etc., que incitam os organismos a executar 
respostas adaptativas. O comportamento pode definir-se como o conjunto das respostas 
ajustadas aos estmulos que as desencadeiam. A psicologia , portanto, essencialmente 
o estudo da relao estmulo-resposta.  esta frmula que se aplica tanto aos 
comportamentos mais elevados e complexos como s reaces inferiores e simples,  um 
"esquema mecnico" porque, por um lado, a relao estmulo-resposta  uma relao de 
causa-efeito e, por outro lado, a adaptao  concebida por Watson como o regresso a 
um equilbrio destrudo ou comprometido pela estimulao.

     "Le Behaviorisme", Paris, Vrin, 1942,
in Panorama des Ides Contemporaines,
                                   Paris, N.R.F., 1957, pp. 123 e 124


Tambm chamada condutista ou comportamentalista.

     O Behaviorismo  uma corrente da Psicologia criada pelo americano John B. 
Watson, no segundo decnio do sculo xx, segundo a qual os psiclogos deveriam 
unicamente estudar o comportamento dos organismos dos homens e dos animais e da o 
nome de Behavlorism, do ingls Behaviour (ou Behavior na ortografia americana) que 
significa comportamento. Para Watson, o objecto da Psicologia no dever de futuro 
incluir o estudo da mente ou da actividade mental, conceitos vazios de sentido, 
segundo ele. O que interessa, no domnio desta cincia, ter de ser aquilo que  
directamente observvel, reduzindo-a pois ao estudo do comportamento, ou seja, ao 
estudo do que os homens fazem e dizem, considerando para tal efeito apenas o 
organismo do ser a estudar, deixando de lado a conscincia por esta no ser 
directamente observvel. Pretende assim tornar esta cincia totalmente objectiva.

     A Psicologia para Watson tem como objectivo a previso e o controlo do 
comportamento humano. O comportamento pode ser analisado a partir de respostas 
glandulares ou musculares directamente observveis. Tais respostas devem ser 
examinadas  luz da variao de estmulos externos ou internos. Esta atitude era nova 
na Histria da Cultura Universal, razo por que se falou, no tempo de Watson, de uma 
Revoluo Behaviorista.


     Em 1914, Watson escreveu na sua obra Behavior:            " Ningum acredita 
mais do que eu na natureza inteiramente fsico-qumica de      qualquer resposta, 
desde a mais simples at  mais complexa."         E em 1925, em Behaviorism:        
    "Dem-me uma dzia de crianas saudveis, bem constitudas e o meio      ambiente 
propcio para educ-las que eu comprometo-me, fazendo uma escolha      ao acaso, a 
form-las de modo a fazer delas peritos nos ramos que eu bem      entender, um 
mdico, um comerciante, um jurista e at um mendigo ou um      ladro, 
independentemente do seu talento, das suas inclinaes, tendncias ou      aptides, 
bem como da profisso ou da raa dos seus antepassados."

     Pode pois ver-se o desprezo que Watson vota  hereditariedade, porque se no 
nega explicitamente inclinaes, aptides, a verdade  que confia cegamente no poder 
da educao aliado ao do meio ambiente. (No se esquea que educar significa conduzir 
a - do latim e(x)-ducere).

     Skinner, um behaviorista mais recente, afirma que a Psicologia deve descrever 
comportamentos, em vez de tentar explic-los. Elaborou importantes estudos sobre a 
aprendizagem. (Veja-se mais adiante o captulo dedicado a este assunto.)

      curioso verificar que se o Behaviorismo continua com adeptos nos nossos dias 
salientando desse modo o poder do educador, psiclogo ou homem poltico, a verdade  
que nos EUA tambm se tem dado muita importncia ao estudo da hereditariedade e da 
gentica - aspectos que, como j vimos, so desprezado pelos behavioristas mas cujo 
estudo corresponde  mesma vontade da parte do cientista: o controlo do comportamento 
dos homens. Quer dizer, tanto behavioristas como os estudiosos da gentica visam 
afinal de contas o mesmo fim. Pode mesmo perguntar-se se esta cincia, a Psicologia 
do sculo xx, no visa afinal o mesmo objectivo que a "engenharia gentica", embora, 
 claro, seguindo caminhos diferentes, os estabelecidos pelo objecto de estudo 
definido por cada uma.

     Antecedentes da psicologia Behaviorista

     A Reflexologia

     Watson baseou os seus estudos nos trabalhos sobre o reflexo condicionado, 
realizados por Pavlov, fisiologista russo, no princpio do sculo xx.       O reflexo 
condicionado (ou condicional)  a resposta do organismo de um indivduo a um estmulo 
artificial (condicionado ou neutro) que foi apresentado vrias vezes associado a um 
estmulo natural (incondicional). A experincia realizada por Pavlov com ces em 
laboratrio obedeceu aos seguintes passos:

     1 Depois de ter feito uma fstula que permitisse a sada de salivao do co 
para um recipiente a fim de se medir a quantidade da mesma, tocou uma campainha 
(estmulo neutro ou condicionado) mas  claro, no houve uma resposta de salivao.

     2 Apresentou ento comida ao co (estmulo incondicional) e o co naturalmente 
salivou (resposta ou reflexo incondicional).

     3 De seguida associou repetidas vezes o toque da campainha (estmulo 
condicionado)  apresentao da comida (estmulo incondicional) e o co continuava a 
salivar (reflexo incondicional).

     4     Finalmente, bastava o som da campainha (estmulo condicionado) para o co 
salivar (reflexo condicionado).


     Pavlov verificou que se apresentasse durante muito tempo apenas o estmulo 
condicionado, o co acabaria por no responder salivando. Tornou-se pois necessrio 
voltar a associar os dois estmulos mas verificou que desta vez podia retirar o 
estmulo incondicional mais rapidamente, que o co dava a resposta esperada, a 
condicionada. Era uma lio que Pavlov dava acerca da aprendizagem, ao querer 
conhecer em profundidade o funcionamento do sistema nervoso. Com esta sua 
experincia, abriu as portas ao condicionamento no s de animais mas tambm de 
homens.

     O esquema do comportamento para os Behavioristas

      precisamente o facto acima apontado que vai interessar Watson na sua ambio 
de controlar comportamentos, desprezando a conscli ela e a hereditariedade, a fim de 
justificar a existncia de uma Psicologia limitada ao estudo dos comportamentos 
observveis para torn-la o mais objectiva possvel. Por este motivo, uma das 
crticas feitas ao behaviorismo watsoniano foi a de querer reduzir a Psicologia a uma 
fisiologia. , para Watson, uma cincia da natureza como outra qualquer e o seu 
mtodo  o mtodo experimental.


     O comportamento para Watson  pois apenas uma resposta em funo de um estmulo 
ou de uma situao (conjunto de estmulos):

          R= f (S)

          S , a situao ou o estmulo (Stimulus)       O comportamento , como j 
se referiu, um conjunto de respostas observveis, por exemplo chorar perante uma 
situao em que uma picada violenta (estmulo externo) provoca dor (estmulo interno) 
- resposta glandular ou ainda respostas musculares como andar, fechar os olhos 
perante um claro e falar, no caso do homem.

     Porm, nem todos os seguidores de Watson foram to radicais como ele. Por 
exemplo, Woodworth em 1929 verificou que deveria acrescentar-se um novo elemento ao 
esquema watsoniano de comportamento - o ORGANISMO, e assim teramos:

          S->O->R ou R=f(S+O)

     Esta noo de organismo refere-se, no entanto, apenas s determinaes 
biolgicas do comportamento. Serve,  boa maneira behaviorista, para englobar tanto 
comportamentos animais como humanos mas no que toca a estes ltimos (e mesmo at no 
caso dos animais) revela-se incompleta. Foi o que concluram Lewin e Cattell. Para 
estes psiclogos, a noo de organismo devia ser substituda pela de PERSONALIDADE:

          R = f (P + S)

     No seu Tratado de Psicologia Experimental, de 1963, Paul Fraisse e Jean Piaget 
propuseram uma alterao ao esquema de Lewin e Cattell, preferindo considerar o 
comportamento como uma resposta resultante de uma INTERACO entre os estmulos 
(situao) e a Personalidade do indivduo:

          R=f(S<- P)

     Ainda na sua mesma obra, Fraisse e Piaget afirmam que na explicao dos 
comportamentos h que ter em conta que a varivel situao engloba tanto o meio 
fsico como a presena de objectos naturais ou fabricados, a presena de animais e de 
outras pessoas.


     A^ behaviorista considera que o domnio real da psicologia consiste apenas em   
   movimentos observveis. No se podem formular leis, no se podem praticar medies 
     seno a propsito de coisas observveis, directa ou indirectamente. Ora, podemos 
     observar o comportamento, isto , o que o organismo faz e diz. Notemos que para 
Watson a      palavra  uma aco como qualquer outra: "Dizer  fazer, quer dizer, 
comportar-se. Falar em voz      alta ou para si mesmo (pensar)  um tipo de 
comportamento to objectivo como jogar basebol."           O comportamento dos seres 
humanos pode ser sempre descrito em termos de "estmulos e      respostas" quando 
observamos um fragmento, um segmento determinado. O que so afinal      estmulo e 
resposta? Na terminologia Watsoniana  mais ou menos o equivalente daquilo a que     
 chamamos excitao e reaco, com um sentido um pouco mais lato. Por estmulo 
devemos       entender "todo o objecto do meio em geral e toda a modificao dos 
tecidos devida  condio      fisiolgica do animal, tal como a modificao que 
surge se o privarmos de actividade sexual ou de      comida ou se o impedimos de 
fazer um ninho". Por resposta entendemos tudo o que o animal faz,      como 
aproximar-se ou afastar-se de uma luz, estremecer com um barulho ou ento actividades 
     mais altamente organizadas, tais como a construo de um arranha-cus, o 
estabelecimento de      planos, a procriao dos filhos, a redaco de livros, etc.( 
... ).           O behaviorismo , portanto, um sector das cincias naturais que toma 
"como domnio prprio o      campo total das adaptaes humanas." S quer recorrer 
aos mtodos das cincias objectivas, aos      da medida, portanto da observao 
exterior. Como vemos, no  apenas uma psicologia de      reaco mas uma cincia do 
comportamento. O comportamento supe adaptaes ou      ajustamentos constantes. 
Estas adaptaes tm uma srie de aspectos: dizem respeito tanto ao      meio interno 
(o prprio corpo) como ao meio externo, revestindo-se este, por sua vez, de um      
carcter fisiolgico, tecnolgico e social.           O behaviorismo pretende que 
estas diferentes formas de adaptao - isto , de respostas a      estmulos dados - 
so todas solidrias, implicam o homem total e no algumas das suas partes.      
Notemos este primeiro ponto. H um segundo igualmente importante: o behaviorista no 
pretende      ser um puro espectador da actividade humana. Quer control-la e 
orient-la, como se esforam por      fazer todas as outras cincias naturais. As 
reaces humanas devem poder ser manipuladas como      as outras reaces naturais. 
Agrupando os factos, experimentando, o behaviorista quer aprender a      controlar e 
a prever; f-lo- segundo uma frmula que ser o "leitmotiv" de todos os trabalhos de 
     Watson e que  apenas o postulado comum a toda a cincia, expresso mesma do 
causalismo:      prever, sendo dado o estmulo, a reaco que se seguir; ou ento, 
sendo dada a reaco,      reconhecer qual a situao ou o estmulo que a suscitou.

                         Pierre Naville, La Psychologie du Comportement,
                                Paris, Gallimard, 1963, pp. 23,24 e 29, 30

SINTESES Vimos pois que a Psicologia esteve ligada  Filosofia durante sculos a     
            INTROSPECO foi o mtodo utilizado para analisar estados de esprito ou 
a                conscincia; mais tarde, e por influncia de filsofos da escola 
anglo-saxnica, mais                pragmticos - os empiristas dos sculos xvii e 
xviii, os fisiologistas dos                sculos XVIII e XIX interessaram-se pelo 
estudo do sistema nervoso, dos                mecanismos da viso e da audio.

                    Wundt fundou ento em Leipzig, em 1879, o primeiro laboratrio de 
               Psicologia. A se analisaram estados de esprito, mas a Introspeco 
que o                paciente fazia era analisada com mais objectividade pelos 
observadores -                chamou--se a este mtodo o da PSICOLOGIA na 2' PESSOA. 
 o incio da                Psicologia Experimental. Para Wundt, a Psicologia era a 
cincia da sensao                ou experincia imediata e, segundo ele, a 
Psicologia cientfica devia tomar                como ponto de partida a Fisiologia.


                    Watson, querendo que a Psicologia fosse uma cincia objectiva, 
equiparou-a s                cincias naturais. Baseou-se nos estudos de Pavlov 
sobre a reflexologia. Utilizou o                mtodo experimental. Para ele  o 
comportamento observvel que interessa ao                psiclogo. Foi o fundador do 
Behaviorismo. Alguns dos seus continuadores                introduziram novos 
elementos no esquema Watsoniano explicativo do                comportamento, o 
clebre esquema: S - R.

     Ainda a propsito do objecto em Psicologia, convm sublinhar que actualmente no 
 s o comportamento como tal que  estudado em Psicologia - pode na realidade 
estudar-se o comportamento das crianas, Psicologia Infantil, o comportamento de 
indivduos inseridos em grupos, Psicologia de Grupo e Psicologia Social, problemas de 
Cultura, bem como outros aspectos da vida do homem: o inconsciente, estudado por 
FREUD na Psicanlise ou os processos patolgicos, estudados em Psicologia Clnica. O 
desenvolvimento da sociedade em que vivemos levou  criao de outros ramos desta 
cincia, a Psicologia Aplicada, Organizacional, por exemplo, aplicada a locais de 
trabalho, tais como fbricas ou outros.


     1. 3. A PSICOLOGIA DO SENSO COMUM

     Como prprio nome indica, uma psicologia do senso comum no  uma cincia, , 
isso sim, uma realidade cultural cada vez mais generalizada no mundo moderno. E 
frequente ouvir-se pessoas, falando em nome da sua intuio ou at de dedues que 
teriam feito, afirmarem: "Ela no  inteligente, tenho a certeza..."  claro que 
podem acertar, o senso comum pode acertar mas no  cientfico. Uma deduo vulgar, 
isto , no cientfica bem feita pode levar a bons resultados. A palavra intuio  
muitas vezes o nome da o a um insight - compreenso global, s vezes repentina, e uma 
e uao comparativa muito rpida. s ensinamentos e igmun                  reu (1856 
1939), mdico austraco que marcou toda uma poca e continua a marcar, so, muitas 
vezes, citados por leigos. Assim,  frequente ouvir-se na rua, em transportes 
pblicos : " um frustrado, como  que h-de de ser feliz?!"

     Esta forma de fazer Psicologia assenta em coisas que se ouviu dizer sobre 
teorias de psiclogos, melhor ou pior assimiladas e que se tornaram esteretipos, 
como a j citada "frustrao". O conceito de "fobia", to utilizado nos nossos dias, 
tantas vezes to mal,  outro exemplo que pode citar-se, "tem a    ia o su , quando 
na realidade o que se quer dizer  mania, ao referir-se a algum que gosta de 
praticar aquele desporto (fobia significa medo, do grego fbos - meter medo, 
espantar). Para alm destes esteretipos, intervm tambm na chamada Psicologia do 
senso comum, preconceitos, atitudes, tradies, crenas, "no  boa rs, no vai  
Igreja..."

     Na realidade, todos ns sentimos que somos qualificados para emitir pareceres de 
ndole psicolgica sobre os outros ou sobre ns prprios. Na realidade, emitimos 
alguns pareceres de carcter mais ou menos psicolgico. Pode ser divertido como um 
jogo mas pode tambm ser perigoso. Como j se disse, podemos acertar e contudo a 
nossa atitude no  cientfica. Para s-lo, teria de ter um objecto assim como um 
mtodo bem definidos que permitissem uma comprovao cientfica (por exemplo 
laboratorial) das nossas concluses e a medio das mesmas.

 1. 4. O DESENVOLVIMENTO DA PSICOLOGIA COMO
     CINCIA E OS SEUS DIFERENTES RAMOS


     Como se viu no final do ponto 1.2., o desenvolvimento da sociedade durante o 
sculo xx e a sua, cada vez maior, complexidade levaram a uma mais rigorosa 
especializao da Psicologia em vrias disciplinas. As duas guerras em que o mundo 
esteve envolvido neste sculo, bem como a existncia de diferentes regimes polticos, 
a guerra fria com o seu auge na dcada de '50, o desejo,  por parte de governos, em 
neutralizar o inimigo, a "guerra" pela expanso de valores culturais e a conquista de 
mercados comerciais (umas vezes auxiliada pela publicidade, outras, provocando uma 
verdadeira guerra), todos estes motivos levaram a que a Psicologia se desenvolvesse 
muitssimo nos nossos dias e que seja, actualmente, uma das cincias mais 
importantes.


     A Psicologia Social

     Para estudar as relaes de um indivduo com um grupo, nomeadamente os efeitos 
de um grupo em que se esteja inserido, permanente ou temporariamente, sobre o 
comportamento do indivduo, para estudar as interaces ou relaes interpessoais - 
comportamento de grupos ou ainda para control-lo surge a Psicologia Social, podendo 
ainda aplicar-se a multides; neste caso fala-se de uma Psicologia de Massas.


     A Psicologia Animal

     Lloyd Morgan (1852 - 1936) foi o fundador da Psicologia Animal. Baseou-se nos 
trabalhos efectuados pelo francs Lamarck nos sculos xviii e xix sobre a evoluo 
das espcies e nos trabalhos do ingls Darwin no sculo xix sobre a seleco natural. 
LAMARCK afirmara que o meio ambiente era responsvel por modificaes nos seres 
vivos; para sobreviverem, tinham de modificar algumas das suas caractersticas ou at 
criar novas, caractersticas estas que acabavam por ser transmitidas aos descendentes 
- teoria transformista de Lamarck ou, simplesmente, Lamarckismo. DARWIN afirmou que a 
luta pela sobrevivncia era o principal motor do comportamento dos seres vivos, 
levando  sobrevivncia dos mais fortes. As caractersticas adquiridas que tornaram 
possvel a sua sobrevivncia so transmitidas aos descendentes. Assim, a evoluo das 
espcies  explicado por uma seleco natural (em tudo semelhante  seleco 
artificial feita pelos criadores de animais e pelos cultivadores de plantas). A 
teoria da seleco natural aplica-se pois aos reinos vegetal e animal - Teoria 
evolucionista de Darwin ou, simplesmente, Darwinismo. Na sua obra The Origln of 
Species ("A Origem das Espcies") faz-se, no entanto, apenas uma breve referncia ao 
homem mas Darwin afirma que os seus trabalhos podero estar na base do estudo da 
origem e da evoluo da espcie humana. Darwin afirma que a fuso gentica das mais 
altas espcies proporciona certas mutaes desejveis que levam  aquisio de novas 
caractersticas e ao aparecimento de novas espcies. O ltimo elo neste processo, 
aparentemente vagaroso mas constante,  a espcie humana. O ser humano civilizado  
apenas um descendente recente do homo sapiens. Da, englobar-se no Darwinisrjao, em 
sentido lato, o estudo da evoluo da espcie humana. Morgan fez estudos sobre o 
instinto, afirmando que este baseia-se em aces reflexas de grande complexidade e 
definindo-o como sendo comum a todos os membros de uma espcie uniforme e como sendo 
uma resposta a estmulos especficos.  tambm especfico da estrutura anatmica e do 
funcionamento fisiolgico do animal. Para Morgan, as respostas herdadas no so to 
rgidas corno se pensava anteriormente.

     A Etologia  o estudo do comportamento dos animais, normalmente no seu habitat. 
 uma cincia recente. As mais importantes obras, neste domnio, foram escritas nas 
dcadas de '50 e de '60 pelos pioneiros da Etologia: os austracos Karl von Frisch e 
Konrad Lorenz e o holands Nikolaas Tinbergen."'


De Frisch  de salientar os seus estudos sobre as abelhas em Bees: Their Vision, 
Chemical senses and Language (1950) e em The Dancing Bees (l955); de Lorenz, King 
Solomon,,; Ring (1952) e On Agression (1966); de Tinbergen, Social Behaviour in 
Animals (1953) e The Herring Gull's World (1960).

                     l 8

     A Etologia estuda o comportamento social nos animais e a aplicao  espcie 
humana de princpios vlidos para o comportamento animal. Os etcilogistas fazem uma 
distino entre instinto e actividade instintiva, sendo esta o encadeamento de uma 
srie de comportamentos dos quais o ltimo  o instinto. Assim, por exemplo, na 
construo do ninho todas as actividades motoras que possibilitam a sua construo, 
como escolher a rvore, arrancar e utilizar folhas, etc., constituem a actividade 
instintiva, sendo a construo do ninho como trabalho finalizado, o instinto.


     A Psicologia Comparada

     Como j foi referido, a Etologia permite a aplicao  espcie humana de 
princpios vlidos para o comportamento animal. A Psicologia Comparada consiste na 
associao dos comportamentos animais ao humano. No seu livro On Agression (Sobre a 
Agresso), Lorenz discute precisamente a aplicao de princpios de comportamento 
animal ao homem. Quando se elaboram experincias com uma classe de observados e se 
aplicam as concluses a outra, faz-se Psicologia comparada. Em Psicologia social 
faz-se uso do mtodo comparativo, que consiste em classificar por categorias dados 
referentes a mltiplos fenmenos sociais com o objectivo de se compararem diferenas 
ou de se descobrirem caracteres comuns no comportamento de determinados grupos. O 
mtodo comparativo tambm  usado em Psicologia animal.


     A Psicofisiologia

     A Psicofisiologa  o estudo da relao do comportamento com a sua base 
fisiolgica. Para se efectuar tal estudo  necessrio recorrer  neurofisiologia. A 
Teoria das Localizaes Cerebrais, segundo a qual existem estruturas cerebrais 
especficas "responsveis" pela memria, necessidade sexual, prazer, etc.  um 
exemplo deste ramo da Psicologia. Embora haja actualmente uma tendncia generalizada 
para rejeitar aquela teoria, a verdade  que experincias feitas com ratos revelaram 
que se obtm reaces de agrado quando se colocam elctrodos no crebro destes 
animais a fim de estimular determinadas zonas daquele orgo. O neurofisiologista 
Wilder Penfield descobriu que se se estimularem electricamente determinadas zonas do 
crebro, consegue-se fazer relembrar em pormenor experincias h muito esquecidas. No 
campo da farmacologia aplicada ao comportamento, alguns estudiosos calculam que a 
esquizofrenia (que  uma das psicoses) se deve a um excesso de dopamina, que  um 
intermedirio no metabolismo da tirosina e o precursor da noradrenalina e da 
adrenalina. Por consequencial a estar certa esta teoria, a esquizofrenia no 
dependeria directamente de urna zona cerebral mas sim de uma transmisso deficiente 
de informaes atravs dos canais neuroqumicos cerebrais. A esquizofrenia poderia 
ento ser controlada se se bloqueasse o excesso de dopamina.


A Psicologia do Desenvolvimento


     A psicologia do desenvolvimento estuda o ciclo da vida, desde a infncia at  
velhice. Divide-se em Psicologia Infantil, Psicologia do Adolescente e Gerontologia. 
Podem estudar-se aspectos especficos do desenvolvimento tais como o desenvolvimento 
da linguagem, da moral, da sociabilidade ou dos processos cognitivos. O suo Jean 
Piaget (1896 - 1980)  o autor da teoria mais conhecida sobre o desenvolvimento 
cognitivo. Para ele, a mente infantil estrutura-se de uma maneira completamente 
diferente da do adulto. Por exemplo, uma criana ao ver um objecto mexer-se julga que 
tem vida e que o nome de um objecto est dentro desse objecto. Quando uma criana 
pergunta "porqu"  porque pensa que cada coisa tem uma finalidade particular. Quando 
uma criana pergunta "Por que  que as estrelas brilham?" ser errado dar-lhe a 
explicao da  astronomia. As conversas de crianas no so socialmente orientadas - 
elas falam umas para as outras mais do que umas com as outras. As crianas tm uma 
capacidade muito limitada de se porem na "pele" dos outros e de assumirem o ponto de 
vista de outrem. (Para mais referncias sobre Piaget e a Psicologia do 
Desenvolvimento veja-se o Captulo 111 onde se estudar a Psicologia do 
Desenvolvimento.)


     A Psicopatologia


     A Psicopatologia  o estudo dos comportamentos que saem fora da normalidade. 
Porm, normal  um conceito pouco claro em Psicologia cientfica. O que  ser normal? 
Qual  a norma que permite dizer que somos normais? Tradicionalmente a distino 
normalanormal fazia-se segundo os preconceitos vigentes numa determinada cultura mas 
esta distino no pode satisfazer uma disciplina cientfica. Actualmente, h 
cientistas que negam a existncia de casos anormais. Freud, pelo contrrio, afirmou 
que no h ningum normal. Uma experincia realizada com oito indivduos 
diagnosticados por psiquiatras como saudveis , de facto, preocupante. Estes 
indivduos comportaram-se como se sofressem de uma psicose, a fim de serem admitidos 
num hospital psiquitrico. Uma vez l dentro, comportaram-se normalmente. Porm, o 
pessoal hospitalar nunca ps em dvida o diagnstico e continuou a trat-los como 
doentes. Devido a casos como este, h psiquiatras que tomam uma atitude cptica: 
"Ser realmente possvel diagnosticar doenas mentais?" ou ainda, numa atitude mais 
radical: "Ser que existem doenas mentais?"

     Porque se torna necessrio em cincia definir o campo da normalidade para que se 
possa atingir um grau satisfatrio de objectividade, hoje em dia os cientistas 
consideram normal o que  praticado pela maioria, embora conscientes das deficincias 
do critrio escolhido. Note-se, no entanto, e devido a factos como os j apontados, 
que a cultura cientfica actual respeita os gostos, preferncias e atitudes das 
minorias. A cultura dos povos de pases democrticos desenvolvidos tem vindo a 
aceitar cada vez melhor aquele ponto de vista, respeitando-se as atitudes das 
minorias desde que no ponham em perigo a segurana dos cidados.


     A Psicologia Experimental


     Como se viu mais atrs, nos diferentes ramos da Psicologia recorre-se, muitas 
vezes, a experincias com o objectivo de quantificar: surge assim a Psicologia 
Experimental. Para concluir esta introduo aos diferentes ramos da Psicologia, 
far-se- um breve apanhado do que se entende por Psicologia Experimental.


     J desde o sculo passado que os psiclogos afirmam que a Psicologia  uma 
cincia experimental (recorde-se Wundt e o seu laboratrio criado em 1879 em 
Leipzig). Fala-se de uma Psicologia Experimental devido ao uso do mtodo experimental 
pelos psiclogos.

     Paul Fraisse no Trait de Psychologie Exprimentale define assim a Psicologia 
Experimental:            "Diz-se que a Psicologia  experimental devido ao mtodo que 
se escolheu com      o objectivo de lhe dar o estatuto de cincia. Se por cincia se 
entende o      conhecimento das leis da Natureza, a Psicologia Cientfica esfora-se 
por alargar      o seu campo de investigao aos animais e aos homens, considerados 
como fazendo parte da Natureza.  claro que a experimentao no  o nico mtodo    
  usado por esta cincia e que a Psicologia Cientfica no assenta nem assentar     
 nunca num conjunto de conhecimentos extrados exclusivamente da      experimentao. 
A observao, em todas as suas formas, ter sempre um lugar      importante no 
domnio da Psicologia mas ser tanto mais slida quanto mais se      considerar que 
constitui um dos momentos do mtodo experimental, devendo      apenas limitar-nos  
observao quando a especificidade dos factos ou exigncias      de ordem moral nos 
impeam de recorrer  experimentao. Esta continuar a      ser o ideal do cientista 
j que  verdade que nunca conhecemos um facto      adequada e exaustivamente a no 
ser que possamos reproduzi-lo. Cumprido este      requisito, a cincia estar apta 
no s prever fenmenos mas tambm a chegar a      aplicaes verdadeiramente 
cientficas."  Morgan em Introduo  Psicologia define deste modo a Psicologia 
Experimental:            "Muitos psiclogos (aproximadamente 10%) no se dedicam em 
primeiro lugar      a trabalhos que visem directamente a resoluo de problemas 
prticos"'. Em vez      disso, ocupam-se da Psicologia Experimental cujo objectivo  
compreender as      causas principais do comportamento"'. Os principais problemas da 
Psicologia      Experimental so a sensao e a percepo, a aprendizagem e a 
memria, a      motivao e as bases fisiolgicas do comportamento."











2 MTODOS E TCNICAS EM PSICOLOGIA                   'F@x-rc> 3                 A 
SIGNIFICAO       psiclogo encontra-se perante condutas cuja significao integral 
 dada pela      personalidade do sujeito mas onde os aspectos subjectivos e 
objectivos, as      significaes conscientes e as que so simplesmente vividas, se 
misturam. com este      material poder ele fazer obra cientfica e o facto de ter de 
levar em conta essencialmente      significaes ir conden-lo a no poder fazer 
obra objectiva? A situao, se  mais complexa, no       diferente da do cientista 
nas cincias da Natureza. Ele tambm d s coisas e s suas relaes      uma 
significao, porque toda a cincia  sempre uma obra do esprito. Como diz Wailon: 
Toda a      cincia no  mais que a tomada de conscincia pelo homem do universo 
(...               ) Mas o contrle      experimental  a condio dessa cincia em 
todos os instantes.,> O mtodo determina      efectivamente o modo de conhecimento. 
Todas as formas de conhecimento so uma tomada de      conscincia, mas no so da 
mesma natureza. O poeta d uma significao ao Mundo ou aos      seres, mas a sua 
actividade significante  propriamente subjectiva e no precisa de nenhum      
contrle. O cientista procura extrair significaes objectivas de modo que cada 
observador, nas      mesmas condies, chegue s mesmas concluses. Procura que a sua 
interpretao seja o      menos marcada possvel pela equao pessoal e transforme os 
fenmenos para que o observador      tenha um trabalho o menos ambguo possvel (... 
        ).   Como  o caso da Psicologia Clnica, que adiante se estudar. Ou 
explicar o comportamento.            A boa experincia deve ser tal que s possa ter 
uma significao, de modo que nenhum erro,      mesmo dos sentidos, possa intervir. O 
psiclogo segue a mesma via e o seu esforo  o de      precisar os mtodos que lhe 
permitam extrair a significao integral de cada conduta que no se      resuma nem 
ao que o sujeito diz de si nem a uma interpretao do observador, que correria o 
risco      de no projectar mais do que os seus prprios problemas nessa conduta.    
       A cincia psicolgica constitui-se  medida que os mtodos permitem estudar o 
dinamismo das      condutas, e que o conjunto dos conceitos se organiza num corpo de 
doutrina que de certo modo se      separa da pessoa cientfica, no deixando de ser 
obra sua.           Assim, podem aparecer significaes novas de condutas que no 
eram dadas no sentido      imediato que o sujeito ou o observador lhes atribua. 
Assim, por exemplo, quanto ao lapso, que      no  um erro mas um acto falhado. 
Deste modo, o homem no  transformado em coisa, ele       estudado como sujeito. 
No h, com efeito, relao inversa entre a objectividade da cincia e o      facto 
de cada conduta ser assumida por um sujeito (...          ).           Fica a 
objeco de que o observador modifica, unicamente pela sua presena, a situao na   
   qual se encontra o sujeito estudado. Uma vez mais temos em Psicologia uma 
dificuldade clssica      na cincia, mas aqui aumentada. O astrnomo deve ter em 
conta o sistema no qual ele e os seus      instrumentos de medida esto inseridos. Em 
microfsica o facto de se examinar o objecto introduz      modificao no 
comportamento desse mesmo objecto (...              ).           Se  possvel 
estabelecer uma psicologia cientfica, que tenha em conta o que h de singular e     
 de subjectivo em toda a conduta humana,  pelo contrrio impossvel ter um 
conhecimento      cientfico de um indivduo, no em teoria, mas por uma 
impossibilidade de facto. Em nome do      prprio esprito cientfico temos de 
reconhecer a impossibilidade de explicar ou compreender      exaustivamente um homem, 
porque nunca podemos ter conhecimento de todos os dados da sua      vida biolgica, 
social e sobretudo psicolgica.                 Paul Fraisse, Manuel Pratique de 
Psychologie Experimentale,                                              Paris, PUF, 
1956, p.34-37           2. 1. o mToDo ExpERimENTAL            " A Psicologia 
experimental  o conjunto dos conhecimentos adquiridos em      Psicologia graas ao 
uso do mtodo experimental. (... ) O mtodo mantm-se      invarivel seja qual for o 
objecto especfico de cada pesquisa experimental. Se,      por um lado, a primeira 
tarefa do experimentador  a submisso aos factos, a      verdade  que ele no se 
satisfaz com essa limitao. O seu ideal seria construir      o prprio facto; esse 
momento s poder chegar quando estiver na posse de      todas as condies 
necessrias para que tal facto se d.  Nessa altura estar apto      a prever.       
         O mtodo experimental no passa, no entanto, de um modo de      conhecer. A 
sua caracterstica principal consiste em contribuir para a coerncia      de um 
sistema de relaes controladas pela experincia.                                 No 
caso da cincias,      o controlo  assegurado por verificaes empricas."          
                           P.   Fraisse, Trait de Psychologie Exprimentale, 
pp.73,74   A importncia do mtodo experimental  to grande nos nossos dias que os 
outros mtodos usados em Psicologia tm de recorrer a este mtodo, sempre que a 
objectividade e a verificao rigorosa dos resultados estejam em causa. Certas reas 
da Psicologia no dispensam o recurso a este mtodo como, por exemplo, a 
Psicofisiologia.                       22       2.1.1. Caractersticas do Mtodo 
Experimental       A partir das leituras j efectuadas sobre o mtodo experimental, 
pode concluir-se que as suas caractersticas so as seguintes:       -    
Objectividade - O experimentador submete-se aos factos e tenta pr de lado quaisquer 
          aspectos de ordem pessoal, tais como preferncias ou gostos. Lembremos que, 
no entanto,           so as preferncias que funcionam como motor da pesquisa. Para 
que haja objectividade,            necessrio quantificar os resultados.      -    
Sistematicidade - O mtodo mantm-se inaltervel seja qual for o objecto de cada     
      pesquisa experimental e o trabalho do psiclogo  guiado por projectos precisos 
que o           orientam para o estudo de objectos especficos (caracterstica tambm 
de objectividade). Em           psicologia cientfica, pretende-se sistematizar as 
observaes de uma forma sinttica.      -    Repetio - Ao usar o mtodo 
experimental, o experimentador dever estar consciente da           possibilidade de 
repetir uma mesma experincia e de chegar s mesmas concluses. S           assim 
poder efectuar previses.      -    Controlo - Ao prever comportamentos, o psiclogo 
estar apto a control-los.  O controlo,           como j se viu, deve ser 
experimental, assegurado por verificaes empricas.       Todas estas 
caractersticas, com particular nfase nas duas primeiras, podem reduzir-se  
caracterstica de objectividade.       ela, em ltima anlise, que confere o 
carcter cientfico a uma disciplina. No entanto, do ponto de vista epistemolgico, a 
objectividade, constitui-se como problema.@"          2.1.2. O Mtodo Experimental - 
Conceitos e etapas metodolgicas                                                    
como seja a percepo        11   Formulao de hipteses sobre as relaes que podem 
existir entre os factos, ou seja, o           experimentador pensa a relao que 
eventualmente possa existir entre dois factos. A           formulao das hipteses 
surge da observao dos factos - hiptese induzida, ou pode ser           deduzida de 
relaes j conhecidas ou das teorias que as generalizam - hiptese           
deduzida. (Fraisse, op. cit.)       Fases do Mtodo Experimental       Observao de 
factos relevantes a fim de conhec-los com rigor        de um acontecimento ou de um 
comportamento. (Fraisse, op. cit)         Convm aqui relembrar que a epistemologia  
a reflexo crtica sobre os princpios, mtodos, valor e limites de uma cincia. Na 
realidade, actualmente os cientistas quando se referem ao problema epistemolgico do 
valor e dos limites da cincia, so cautelosos quanto  possibilidade de se alcanar 
uma objectividade absoluta. Assuntos como este sero tratados na concluso, altura em 
que sero abordados problemas relativos  epistemologia aplicada  psicologia. Fica 
aqui para j, no entanto, um alerta para este problema.  Ill  Experimentao 
(propriamente dita) que tem por objectivo a verificao da hiptese.      Pode ser 
feita em laboratrio (onde o local e o material foram preparados para esse fim)      
(Fraisse. op. cit.) ou no meio natural (oferece a vantagem de o observado - 
indivduo,      grupo ou animal - estarem mais  vontade).  W    Elaborao dos 
resultados e interpretao dos mesmos.  A sua ordenao pode ser feita      atravs 
de quadros, de grficos ou estatisticamente. (Fraisse, op. cit.)                     
      4       OS MOMENTOS DO MTODO EXPERIMENTAL  De um modo geral o processo 
experimental comporta quatro fases:      A)   A observao que permite descobrir 
factos notveis e conhec-los com preciso;      B)   A formulao de hipteses sobre 
as relaes que podem existir entre os factos;      C)   A experimentao 
propriamente dita que tem como objectivo verificar as hipteses;      D)   A 
elaborao dos resultados e a sua interpretao.       Observao e experincia      
 Haver qualquer diferena de natureza entre estes dois momentos da investigao? 
Depois de Claude Bernard respondemos pela negativa, precisando no entanto o que 
distingue as duas fases.      (... ) Em qualquer observao como em qualquer 
experincia, o investigador constata um facto. Este  sempre a resposta a uma 
interrogao. Banalidade esquecida por muita gente: s se encontra aquilo que se 
procurou (... ). Dito isto, a diferena entre a observao e a experincia liga- -se 
 natureza da questo. Na observao a questo  de certo modo aberta. O investigador 
no conhece a resposta ou dela apenas tem uma ideia vaga. Pelo contrrio, na 
experincia, a questo tornou-se hiptese, quer dizer, supe a existncia de uma 
relao entre os factos que a experincia tem como finalidade verificar.      Mas h 
tambm aquilo a que se chama <experincias para ver>, onde justamente o 
experimentador no tem resposta para a sua pergunta e em que se prope observar as 
condutas do sul . eito em resposta s situaes que o primeiro criou. Neste caso a 
diferena que se nota entreobservao e experincia liga-se a uma diferena de grau 
entre os dois processos. Na observao as situaes so definidas de um modo menos 
rigoroso do que na experincia.      H ainda uma terceira diferena de grau entre a 
observao e a experincia que se liga no ao controlo das situaes mas sim  
preciso com que se podem registar as condutas do sujeito. Muitas vezes a observao 
ter que se contentar com processos menos rigorosos do que a experincia.       
Circunstncias da observao       Distinguimos a observao ocasional da observao 
sistemtica.      A observao ocasional no obedece a nenhuma regra.  uma 
observao que qualquer psiclogo pode realizar na sua vida de todos os dias, sobre 
ele prprio ou sobre os que o rodeiam. O seu papel no desenvolvimento geral de uma 
cincia diminui  medida que esta se constitui como um corpo de conhecimentos, mas 
continua a influenciar todos os psiclogos, quer nas suas atitudes como nos seus 
pensamentos. (... )      A observao sistemtica intervm num processo determinado 
que reduz por isso mesmo o campo estudado. Esta observao diz-se naturalista se 
estuda o comportamento de indivduos nas circunstncias da sua vida quotidiana (... 
). Tambm podemos chamar clnica  observao. Neste caso as condies ambientais so 
fixadas pelo investigador.                       24            Formulao das 
hipteses            Esta  a fase mais importante da investigao, mas  tambm a de 
mais difcil explicitao e      normalizao. A hiptese  a fase criativa do 
raciocnio experimental, aquela em que o      investigador imagina a relao que 
possa haver entre dois factos. A elaborao da hiptese  obra      do pensamento. 
Contrariamente  fase da observao activa e  da experincia, o investigador      
aparentemente nada faz, mas  este momento que d ao seu trabalho um \lqlnr cp 
novidade.             A experincia            A experincia tem por objectivo 
verificar a existncia de uma relao entre duas ordens de      fenmenos. O 
princpio geral  sempre o mesmo. Fazer variar um dado e observar numa conduta      
as consequncias dessa variao.           O factor manipulado pelo experimentador 
designa-se por varivel independente, ao factor que      ela modifica d-se o nome de 
varivel dependente.             A elaborao e a generalizao dos resultados       
     A parte mais fascinante da experimentao , sem dvida, aquela em que os dados 
brutos se      transformam em resultados significativos pela aplicao de processos 
em que a imaginao e a      cultura cientficas desempenham um papel importante. 
Esta fase da experincia compreende trs      momentos essenciais: a elaborao dos 
resultados, as explicaes e a generalizao.            Paul Fraisse e Jean Piaget, 
Trait de Psychologie Exprimentale,                                    vol. I, 
Paris, PUF, 1970, pp. 87 a 124              Da leitura deste texto, verifica-se que: 
 a)     Existem semelhanas entre os momentos observao e experincia (ou 
experimentao) so essencialmente empricas; so qualitativamente iguais. As 
diferenas so, sobretudo, de ordem quantitativa - h menos rigor na observao do 
que na experincia. Deve acrescentar-se que na observao h um registo do estado do 
fenmeno sem se lhe provocar qualquer mudana, enquanto que, na experimentao, o 
investigador altera as circunstncias em que o fenmeno se apresenta de modo a 
obterem-se condies mais propcias ao seu estudo.       h)     A observao 
realizada pelo psiclogo s  sistemtica (por oposio a ocasional) quando o 
observador realiza a sua observao segundo projectos muito precisos, que, por 
conseguinte, limitam o campo de estudo a objectos especficos.       A observao 
ocasional no obedece a regras,  por assim dizer espontnea, no sendo pois 
verdadeiramente cientfica. Os psiclogos continuam, no entanto, a servir-se dela 
devido ao interesse que devotam ao comportamento dos seres que os rodeiam. Tem ainda 
a grande utilidade de poder estar na base de pesquisas posteriores.       A 
observao pode ser ocasional (como acima se referiu) e sistemtica naturalista - 
observao no meio ambiente natural ou no contexto ecolgico do indivduo ou dos 
grupos a observar (que podem ser homens ou animais); pode ainda ser sistemtica 
clnica - as condies da                       25  experincia so fixadas pelo 
experimentador quer no meio habitual do observado, que deixa por isso de ser o seu 
meio natural, quer em laboratrio. Os participantes podem ser observados sem disso 
terem conhecimento ou, pelo contrrio, estando conscientes da situao.       
(Note-se que a observao, enquanto recolha sistemtica de dados,  urina das tarefas 
mais importantes do experimentador.  de assinalar que a observao constitui tambm 
um mtodo especfico em Psicologia; mais adiante far-se-lhe- referncia.)       c)  
   A hiptese  a fase mais importante do processo, por ser a fase criativa, momento 
em que o cientista pensa a experincia e os seus resultados.  aqui que tudo se 
decide realmente j que o resto do trabalho depende essencialmente da formulao da 
hiptese que, confirmada ou no pela experimentao,  responsvel por ela. Isto , a 
realizao da experincia depende daquilo que o cientista procura e espera encontrar. 
A hiptese  uma interpretao antecipada da Natureza.       d)     A experincia (ou 
experimentao) verifica a existncia, ou no, da relao entre dois factos, pensada 
na hiptese. Pode dizer-se que a experimentao no  mais do que uma observa- o 
provocara.       e)     A elaborao dos resultados  a concluso dos trabalhos e 
consiste na interpretao dos dados (anlise comparativa dos mesmos), ria sua 
ordenao, na explicao dos resultados verifica- dos e na generalizao destes - nas 
cincias da natureza a generalizao leva  formulao de leis fsicas; nas cincias 
sociais pretende-se elaborar leis sociais.                      O HOMEM EM SITUAO  
          Pode-se dizer que a psicologia experimental encontrou a sua unidade. Apesar 
de ter      partido de ramos de origem diferente, do estudo dos factos de 
conscincia, reuniu-se ao ponto de      vista comum a Piron, Janet e Watson: a 
psicologia tem por objecto o homem vivo, manifestando-      -se em todas as suas 
actividades. Enquanto que Watson e os primeiros behavioristas, mais      preocupados 
em fundar uma cincia do que em construir uma disciplina adequada ao seu objecto,    
  tinham achado necessrio esvaziar o homem, antes de mais, e de consider-lo como 
simples n      em que se entrelaam todas as relaes situao-resposta. Todos os 
psiclogos, sejam quais      forem as diferentes palavras que empregam, reconhecem 
hoje que para dar conhecimento de um      comportamento  preciso admitir, alm das 
variveis de situao, variveis intermedirias, isto ,      variveis ligadas  
personalidade e que so, de qualquer modo, modalidades de reaco latentes,      
estruturadas e hierarquizadas. Fazendo isso, permanecem fiis ao seu objectivo 
fundamental:      estudar o homem em situao, isto , nas suas relaes com o 
ambiente fsico e social. Estas      variveis intermedirias no constituem, com 
efeito, um retorno ao homnculo interior, que      manusearia consciente ou 
inconscientemente os cordelinhos. Estas variveis intermedirias no      so mais do 
que um subterfgio para reintroduzir na psicologia do comportamento fenmenos de     
 conscincia. Deu-se um passo fundamental graas a Janet e Freud, por um lado, a 
Binet e       escola de Wrzburg, por outro lado.           (...      ) Se o acordo 
est praticamente realizado quanto ao objecto da psicologia e aos seus      mtodos 
fundamentais, verifica-se tambm que os grandes sistemas de interpretao, 
associacionismo, Gestalt, funcionalismo, no se chocam j com a mesma violncia. A 
histria da psicologia  agora a dos seus grandes problemas: percepo, aprendizagem, 
processos intelectuais,      etc.                       26            A psicologia 
experimental provou a sua aptido em estudar as condutas humanas ou animais,      
cada vez mais complexas. Estamos muito longe da psicologia fisiolgica de Wundt, que 
limitava o      campo da psicologia experimental ao horizonte estreito do estudo das 
sensaes, das percepes      e das reaces motrizes. Hoje, as questes mais 
difceis, tal como a motivao, so objecto de      estudos completos e complexos 
(... ) e a obra de Piaget fez progredir muito os nossos      conhecimentos sobre os 
processos intelectuais. Por outro lado, vimos desabrochar uma psicologia      animal 
cujo xito facilitou de novo a discusso dos mtodos da psicologia humana. O      
evolucionismo, que estudou as pesquisas sobre o animal, est tambm na origem das 
primeiras      observaes sistemticas da criana, sob a forma de monografias 
(Darwin, 1877; Preyer, 1877). O      mtodo dos questionrios (Gaiton, 1876; Staniey 
Hall, 1891) amplia o campo das pesquisas.      Depois vem o tempo dos estudos 
sistemticos de uma psicologia descritiva e interpretativa das      condutas da 
criana, que se constitui com os trabalhos de Binet, Thorndike, Claparde, Geseli,   
   Piaget, Koffka, Waiion, Terman e Charlotte Bhler.           A poca de recorrer 
apenas  observao directa ou preparada est ultrapassada. A      experimentao, 
para fixar os factores determinantes do desenvolvimento da criana,  de pratica     
 corrente e s conhece os limites impostos pelo respeito  criana. Vimos tambm como 
uma      psicologia gentica se desenvolveu com os estudos sobre a criana.          
 Por seu lado, a psicologia patolgica foi cedo chamada de experimental          
Finalmente, como      j o indicmos, o mtodo experimental foi mesmo introduzido na 
psicologia social.  Durante muito      tempo, as diferenas individuais pareciam 
objecto de verificao mais do que de experimentao.      A anlise factorial 
permitiu analisar e sintetizar essas verificaes, fornecendo hipteses      
estruturais. Desde Galton que os psiclogos se preocupam tambm em explicar a origem 
das      diferenas individuais e em calcular em particular os respectivos domnios 
da natureza e da      educao. Este problema delicado foi abordado por diferentes 
mtodos (gmeos, psicologia      comparada das etnias, etc.) e permanece sempre 
actual.           Chega-se, deste modo, a uma psicologia completa que sabe levar em 
conta as leis gerais e as      diferenas individuais.                               
                      P. Fraisse, J. Piaget,                          Trait de 
Psychologie Exprimentale, t. I, Paris, PUF, 1970, p.72-74               O MTODO 
EXPERIMENTAL BASEIA-SE EM IDEIAS PRECONCEBIDAS          E OBSERVAES PREMEDITADAS   
         mtodo experimental, considerado em si mesmo, nada mais  que um raciocnio 
com a           ajuda do qual submetemos metodicamente as nossas ideias  experincia 
dos factos.                        o           (...      ) Uma ideia preconcebida 
sempre foi, e sempre ser, o primeiro movimento de um esprito      investigador. 
(... )           (...      ) O metafsico, o escolstico e o experimentador procedem 
todos por uma ideia a priori. A      diferena consiste em que o escolstico impe a 
sua ideia como uma verdade absoluta que      encontrou e a partir da qual deduz, 
somente com a ajuda da lgica, todas as consequncias. O      experimentador  mais 
modesto, considera a sua ideia, pelo contrrio, como uma questo, como      uma 
interpretao antecipada da natureza, mais ou menos provvel, donde deduz logicamente 
     consequncias que confronta, a cada instante, com a realidade, por meio da 
experincia. (... )           A ideia experimental , tambm, portanto, uma ideia a 
priori, mas  uma ideia que se apresenta      sob a forma de uma hiptese cujas 
consequncias devem estar submetidas ao critrio      experimental, a fim de se poder 
ajuizar do seu valor. (... )            O experimentador no deve apegar-se  sua 
ideia seno como a um meio de solicitar uma      resposta da natureza. Deve 
submeter-lhe a ideia e estar pronto para a abandonar, modificar ou      transformar, 
segundo o que a observao dos fenmenos que provocou lhe tiver mostrado.           
H, assim, duas operaes a considerar numa experincia. A primeira consiste em 
premeditar      e realizar as condies da experincia; a segunda, em verificar-lhe 
os resultados. No  possvel      instituir uma experincia sem ideia preconcebida; 
instituir uma experincia, j dissemos,  fazer      uma pergunta; nunca se concebe 
uma pergunta sem a ideia de que solicita a resposta. Considero,      pois, em 
princpio absoluto, que a experincia deve ser sempre instituda em funo de uma 
ideia      preconcebida, pouco importando que esta seja mais ou menos vaga, mais ou 
menos definida.      Quanto  verificao dos resultados da experincia, que no  
seno uma observao provocado,      ponho igualmente, como princpio, que deve ser 
realizada como qualquer observao, quer dizer,      sem ideia preconcebida. (... )  
         Os que condenaram o emprego das hipteses e das ideias preconcebidas no 
mtodo      experimental erraram ao confundir a inveno da experincia com a 
constataro dos seus      resultados.  correcto dizer ser necessrio constatar os 
resultados da experincia com um esprito      despojado das hipteses e de ideias 
preconcebidas. Mas no  possvel proscrever o uso das      hipteses e das ideias 
quando se trata de instituir a experincia ou de imaginar meios de      observao. 
Deve-se, pelo contrrio, dar livre curso  imaginao;  a ideia que  o princpio de 
     todo o raciocnio e de toda a inveno,  a ela que pertence toda a iniciativa. 
No se poderia      abaf-la, nem expuls-la, com o pretexto de que pode ser 
prejudicial; no h seno que regul-la e      fornecer-lhe um critrio, o que  bem 
diferente.           (...      ) A ideia em virtude da qual a experincia  
instituda pode estar mais ou menos bem      definida, segundo a natureza do assunto 
investigado e o estado de adiantamento da cincia no      seio da qual se 
experimenta. Efectivamente, a ideia directriz da experincia deve incluir tudo o que 
     j se conhece sobre o assunto, a fim de guiar mais seguramente a pesquisa para 
os problemas      cuja soluo pode ser fecunda para o avano da cincia.           
(...      ) H casos em que se experimenta sem propriamente se ter uma ideia provvel 
para      verificar. No entanto, a experimentao, nestes casos, nem por isso se 
destina menos a provocar      uma observao; mas provoca-a com o objectivo de 
encontrar nela uma ideia que lhe indicar o      caminho a seguir, ulteriormente, na 
investigao. Pode-se dizer que uma experincia desta      natureza  uma observao 
provocado com o objectivo de fazer nascer uma ideia. (... )           Dissemos 
anteriormente que o raciocnio experimental se exerce sobre fenmenos observados,    
  quer dizer, sobre observaes; mas, na realidade, s se aplica s ideias que o 
aspecto de tais      fenmenos despertou no nosso esprito. O princpio do raciocnio 
experimental ser sempre,      portanto, uma ideia que se torna necessrio introduzir 
no raciocnio experimental para a submeter      ao critrio dos factos, ou seja, a 
experincia.             Claude Bernard, Introduction  l'tude de la Mdecine 
Exprimentale (l."ed., 1865); trad. portuguesa:      "Introduo  Medicina 
Experimental", Lisboa, Guimares Ed., 1959, pp. 13, 41-43, 46-47, 51-52, 76 (texto   
   revisto, de acordo com o original francs, por A. Sedas Nunes, in Sobre o Problema 
do Conhecimento nas      Cincias Sociais, Cadernos, G.I.S.I.S.E., Lisboa)           
Variveis independentes e dependentes        Como acima se referiu, o objectivo da 
experimentao  verificar a existncia de uma relao entre dois factos, pensada 
previamente na hiptese. Para tal, o psiclogo introduz uma variao num dos dados e 
observa as consequncias dessa variao no comportamento.       Chama-se varivel 
independente ao dado manipulado pelo experimentador e varivel dependente ao dado 
modificado por aquela varivel. Esta distino deve-se a Claude Bernard.             
          28       Experincia provocado e experincia invocada        J se teve a 
ocasio de referir que a experimentao no  mais do que uma observao provo- cada; 
pode tambm usar-se a expresso experincia provocado porque o experimentador 
introduz uma modificao na varivel dita independente e observa os resultados dessa 
modificao. Fala-se de experincia invocada quando a modificao da varivel 
independente aconteceu sem a interveno do experimentador.           Mtodos de 
anlise quantitativa e de anlise qualitativa             "Todos os debates 
epistemolgicos acontecem em situaes histricas,      econmicas e sociais 
concretas".                               Michel Deseauvais, Universidade de Paris 
VIII       Desde a dcada de '50 que a cincia  objecto de uma crtica severa. A 
Psicologia no escapou a esta crtica. O uso da metodologia experimental nesta 
cincia, tal como vinha sendo aplicada desde o incio do sculo xx por influncia do 
Behaviorismo, passou a ser objecto de controvrsia. As causas desta nova crise das 
cincias podem encontrar-se em acontecimentos tais como a Segunda Guerra Mundial e o 
maior desencanto que deixou na humanidade, a guerra fria EUA
URSS e o consequente desejo de ambas as partes em acompanhar, seno em ultrapassar os
avanos cientficos do inimigo, bem como, evidentemente, no grande avano cientfico 
recente mas
que, nem por isso, resolveu os grandes problemas da humanidade. Todos estes factores 
levaram a
que a excessiva confiana na cincia comeasse a esbater-se, pelo menos entre muitos 
intelectuais
e cientistas. Os homens mais lcidos tornam a pr em primeiro plano os valores 
efectivos, sociais
e estticos.

     Actualmente discute-se a validade de um paradigma nico para todas as cincias 
(caso em
que se aplicaria ento uma mesma metodologia em todas as elas). Acerca da validade de 
um
paradigma nico, pergunta-se se no sero as cincias sociais ou as cincias humanas
essencialmente diferentes das cincias da natureza e das cincias exactas?

     Segundo G.H. Wright existem duas grandes tradies cientficas. A primeira 
remonta a
Aristteles e privilegia as explicaes dadas em termos de finalidade, de intenes, 
de motivos e
de razes -  a tradio hermenutica que consiste em compreender. A outra tradio, 
a que
Wright chama galilaica, identifica a explicao cientfica com a explicao causal, 
dando pouco
relevo  finalidade -  a tradio positiva que consiste em explicar.

     O neopositivismo segue a segunda tradio afirmando a unidade da cincia, 
defendendo
uma metodologia nica - a das cincia exactas (matemtica e fsica) e a explicao de
natureza causal em cincia.

     No entanto, douard Claparde (1873-1940) constatou, no princpio do sculo xx, 
que o
problema da causalidade psquica  muito menos objectivo que o da causalidade fsica, 
sendo
necessrio, em Psicologia, dar muitas vezes lugar  explicao teleolgica, ou seja, 

compreenso (tendo em vista a finalidade). A explicao causal visa os processos 
psquicos do
exterior enquanto que a compreenso visa-os do interior mas ambas completam-se.

EW





Claparde exemplificou, do seguinte modo, problema compreender versus explicar:

                         "Por que  que corres? A explicao seria: certos processos 
fsico-qumicos
                    activam os centros motores de que dependem os msculos das minhas 
pernas.
                    A compreenso seria trazida pela resposta: Para no perder o 
comboio."

                         Claparde, La Psychologie est-elle une science explicative?
                    i n A investigao experimental em pedagogia, de G. Landsheere


                    O positivismo contemporneo, como se viu, toma uma posio 
monista (e no dualista como a
               de Claparde) j que considera que, tanto num caso como no outro, 
intervm a causalidade,
               distinguindo apenas causa primeiras e segundas. O positivismo quer 
encontrar explicaes gerais,
               leis.

                    A questo em debate  pois a de uma anlise quantitativa 
(explicao) Versus uma anlise
               qualitativa (compreenso).

                    Laurence Bardin explica assim o problema: a primeira baseia-se em 
medies, por exemplo na
               frequncia da apario de certos elementos enquanto que a segunda 
recorre a indicadores no
               frequenciais como a presena ou a ausncia desses elementos, o que 
poder constituir um ndice
               tanto ou mais frutfero que a frequncia da sua apario. Tomemos um 
exemplo: "Qual ser a
               evoluo da frequncia da palavra Pctria nos manuais de Histria de 
h cinquenta anos para c?
               Estar a palavra Ptria ausente ou presente dos manuais de Histria de 
1975?

                    A abordagem quantitativa obtm os dados atravs de um mtodo 
estatstico. A abordagem qualitativa  mais intuitiva. A primeira  mais objectiva, 
sendo muito til na fase de
               verificao da hiptese, mas a segunda  mais malevel e adaptvel, 
sendo til na fase da
               elaborao da hiptese.

                    Hoje em dia, muitos investigadores do frequentemente preferncia 
 abordagem qualitativa
               uma vez que a compreenso que tm dos fenmenos naturais , apesar de 
todo o avano recente,
               muito superficial.


               Quine escreveu em From a logical point of vew:

                         "A totalidade dos nossos pretensos conhecimentos ou 
convices das relaes
                    mais causais em geografia ou em histria, das leis mais profundas 
da fsica

                    nuclear ou mesmo da matemtica pura ou da lgica,  um tecido 
feito pelo
                    homem e que no repousa sobre a experimentao seno na sua 
periferia."" @

                    Para alm destas consideraes sobre os limites actuais da 
cincia clssica, muitos investiga-
               dores interrogam-se tambm sobre as estruturas ideolgicas e sobre o 
enraizamento sociocultural
               da suas disciplinas.






               Para alm do nome de W. Quine, so de assinalar j neste captulo 
introdutrio os nomes de K. Popper e de T. Kuhn,
               importantes epistemlogos contemporneos.

                     30

     Ningum actualmente pensa que a cincia possa continuar a progredir a no ser 
que o
observador aprenda a incluir-se na sua observao, isto , a introduzir-se "de 
maneira crtica e
auto-reflexiva no seu conhecimento dos objectos", como diz Edgar Morln num artigo 
para o
jornal Le Monde de 7 de Janeiro de 1982. Ainda que se possa discutir posies como 
esta, ela
anuncia ao menos uma nova tomada de conscincia da "natureza tcnica, social e 
poltica da
cincia, da natureza ao mesmo tempo fsica, biolgica, cultural, social, histrica de
tudo o que  humano" (afirmao de E. Morin extrada do mesmo artigo).

     Convm no entanto referir que a anlise qualitativa no est completamente 
dissociada da
quantitativa. A diferena reside no facto de que os ndices so retidos de um modo 
no frequencial. O analista pode, no entanto, recorrer a testes quantitativos por 
exemplo quando da apario
de ndices semelhantes em discursos semelhantes.


     Concluindo, pode dizer-se que a controvrsia qualitativoquantitativo marcou uma 
nova era
na concepo da anlise de contedo"'. Durante a primeira metade do sculo           
             procurava-se
quantificar este tipo de ancll'se, tal era a obsesso pelo rigor. Os debates da 
dcada de '50
mostraram que o que  caracterstico deste tipo de anlise  a ingerncia C, mesmo 
que as suas
modalidades se baseiem em indicadores quantitativos, passou a preferir-se, nestes 
casos, a
anlise qualitativa. A favor desta abordagem pode argumentar-se que, no domnio da 
anlise de
contedo, no  s a regularidade que tem significado mas que o que  acidental ou 
raro pode ter

um significado importantssimo.




     s Amostragem em Psicologia


     AMOSTRAGEM  uma tcnica usada em Psicologia -  a operao que consiste em
     tomar uma amostra de uma populao.

     AMOSTRA  o conjunto de elementos relativamente aos quais se recolhem dados, 
     um subconjunto representativo da populao.

     POPULAO  conjunto de pessoas ou de outros objectos de estudo sobre os quais o
     investigador pretende tirar concluses, possuindo todos eles caractersticas
     comuns que se pretendem estudar.

     Fala-se de uma amostra representativa (ou significativa) de uma populao, 
relativamente
a uma caracterstica, se no houver razo para pensar que o valor dessa 
caracterstica possa
diferir da amostra para a populao.





"'A anlise de contedo  uma tcnica de explorao de mensagens,  um mtodo que 
visa apreender sentidos menos
evidentes nas mensagens (em inquritos - entrevistas e questionrios, ou em testes); 
 ainda o estudo do sentido e da
significao dos textos e da comunicao. Segundo Berelson, ci               de 
contedo " uma tcnica de
investigao para a descrio objectiva, sistemtica e quantitativa do contedo 
manifesto da comunicao"
(perspectiva quantitativa). Para Moscovici " uma tcnica para fazer inferncias por 
meio da identificao
sistemtica e objectiva das caractersticas especficas de uma mensagem" (perspectiva 
qualitativa).

     2.2. MTODOS DE OBSERVAO

     Como j se teve ocasio de referir, a observao  um mtodo por si s em 
Psicologia. A
observao  directa porque, como o prprio nome indica, observam-se directamente os 
participantes, podendo as condies da observao ser fixadas ou no pelo 
experimentador, como alis
foi referido quando se descreveram as etapas do mtodo experimental.

     A observao cientfica consiste na orientao do pensamento e dos sentidos para 
o fenmeno observvel com vista  descoberta das suas qualidades e caractersticas. 
, resumindo, a
procura da resposta para uma questo.

     Para se realizar uma observao cientfica dever-se-:

         descrever o fenmeno
         verificar todas as caractersticas que ajudem a compreend-lo
          verificar as circunstncias a que deve a sua existncia
          verificar os resultados que poder produzir.

     O observador tem pois  sua frente uma tarefa semelhante  do experimentador, 
pois a
questo posta de incio nada mais  que uma hiptese,  qual se seguir um controlo 
de
variveis durante a observao, sendo o objectivo a generalizao dos resultados.

     A observao pode ser participante ou no participante consoante o observador se 
integre
ou no no grupo que pretende observar.

     a) Observao participante

     Nos casos em que o observador, embora presente, assuma o papel de espectador 
annimo so
os casos intitulados em Psicologia de observao-participao; noutros, o observador, 
para
alm de estar visivelmente presente, participa activamente na situao que pretende 
observar,
por exemplo numa aula fingindo ser aluno e comportando-se como tal. De qualquer modo, 
o grupo
estudado ter dificuldade em aceitar o observador como sendo um deles, pelo que a 
observao fica
de certo modo condicionada. Esta forma de observao, mais comum que a referida 
anteriormente,
tem o nome de participao-observao.

     h) Observao no participante

     A observao pode ser oculta quando se observam grupos pequenos. O observador 
no se
mostra, recorrendo, por exemplo, a painis transparentes apenas num sentido (one way 
screens)
ou a circuitos fechados de televiso com um sistema de teleobjectivas colocadas em 
lugares
estratgicos e bem camufladas. Esta forma de observar  um exemplo da observao no
participante.  muito til, por exemplo, em casos de escolha de candidatos para 
lugares-chave
em empresas pois o observador pode estudar em pormenor cada atitude dos elementos a 
observar.

     Para alm da j assinalada observao oculta, so tambm formas de observao 
no participante o inqurito, que  uma maneira de obter dados por meio de 
entrevistas e de questionrios.

     O inqurito extensivo usa-se quando, para se obter uma amostra representativa, 
se estudam
grandes grupos de indivduos, sendo, no entanto, os dados colhidos limitados e 
superficiais -
para este efeito pode usar-se o questionrio.

                     32

para o psiclogo pois pode observar os comportamentos dos indivduos nesse armazm ou
supermercado. Outras vezes, e em qualquer dos casos apresentados, o observador est 
mesmo
presente e  visvel, pelo que dever usar de todo o seu tacto.

     So pois estas as principais dificuldades presentes numa observao:

     -    A percepo - erros de percepo
     -    A motivao do observador
     -    As observaes simultneas
     -    A prpria presena do observador.






     2.2.1.    Mtodo clnico



     a) A observao

     Fala-se de observao clnica sempre que se analisam aprofundadamente casos 
individuais
(normais ou patolgicos) ou se analisa a dinmica de pequenos grupos e, mesmo que se 
pretenda
que haja o mnimo de directividade, as condies ambientais so estabelecidos pelo
observador, seja ele mdico ou psiclogo. A importncia deste exame em profundidade 
maior que a da medio: o mtodo clnico  um mtodo essencialmente qualitativo. Uma 
consulta
mdica ou com um psiclogo so casos de observao clnica. No que se refere a 
pequenos grupos,
a observao pode ser oculta ou, mais frequentemente, participante. Para alm de 
estabelecer as
condies ambientais, o observador pode definir tarefas que devero ser realizadas 
pelo ou pelos
observados - contudo, numa observao pretende-se que haja o mximo de liberdade. 
Porque se
trata de um estudo aprofundado, de um diagnstico, considera-se o mtodo de 
observao clnica
como uma anlise de contedo. De facto, o observador procura significaes, tentando 
compreender ao mximo o comportamento do observado. Neste mtodo o papel da 
inter-subjectividade
e da intuio  muito importante. H realmente uma relao interpessoal em que a 
intuio do
observador pode jogar um papel relevante.



     b) A terapia


     O mtodo clnico, para alm de ser o estudo de casos,  tambm um mtodo de 
interveno
uma vez que tem como objectivo a resoluo de casos de indivduos que vivem com 
conflitos, ou,
por exemplo, com dificuldades de insero social -  tambm um mtodo teraputica.



     c) Vantagens e desvantagens da entrevista e do uso dos testes

     Duas das tcnicas usadas pelo mtodo clnico so a entrevista clnica que tem um 
carcter
qualitativo e os testes psicomtricos que tm, evidentemente, um carcter 
quantitativo. O
mtodo psicomtrico permite alcanar uma maior objectividade que a entrevista clnica
embora esta atinja um maior grau de profundidade.

                     34

     d) O teste e o experimentalismo

     A elaborao de um teste  resultado de um trabalho experimental que permitir 
uma escolha
adequada de questes.

     Um teste consiste num conjunto de questes atravs das quais se pretende 
explorar,
indirectamente, os conhecimentos, aptides, inteligncia ou mesmo a personalidade do
sujeito testado."' As questes no so postas de forma directa ao indivduo submetido 
ao teste.
Ao psiclogo cabe interpretar apenas os sinais ou indicaes que o sujeito "deixa 
escapar" nas
suas respostas e nas suas reaces. Se a interpretao dos referidos dados se basear 
na intuio e
na experincia do investigador,  porque se est a fazer uma abordagem qualitativa, 
se, por
outro lado, os sinais ou indicaes que o sujeito "deixa escapar"j esto previstos 
na elaborao do
teste, ento as respostas podero ser objecto de medies - so os testes 
psicomtricos e a
abordagem feita  a quantitativa. O uso de testes, seja qual for o tipo de abordagem 
realizada,
, por conseguinte, muito til para a aplicao do mtodo clnico.




                'T@x-r<--> 7'

                  OS TESTES

     chama-se teste mental a uma situao experimental estandardizada que serve de
     estmulo a uma conduta. Esta conduta  avaliada por uma comparao estatstica 
com

     a de outros indivduos colocados na mesma situao, permitindo assim classificar 
o
     sujeito examinado, quer quantitativa quer tipologicamente.
          Esta definio implica que:
     l .2 -A situao experimental (quer dizer os seguintes elementos: meio no qual 
se desenrola a
     experincia, material do teste, atitude e orientaes dadas pelo examinador para 
a utilizao do
     material) seja perfeitamente definida e reproduzido de um modo idntico em todos 
os casos.
          2.2          - O registo do comportamento desencadeado pelo sujeito seja 
to preciso e objectivo
     quanto      possvel. Este comportamento  muito diferente consoante os casos: 
pode consistir em
     escrever uma resposta, executar uma determinada tarefa manual, desenhar, falar. 
De qualquer
     modo as condies de registo devem ser definidas e observadas rigorosamente.






Os testes de inteligncia, muito usados desde o princpio do sculo xx, foram 
progressivamente abandonados a partir da
dcada de '50, por se verificar que no revelam de facto o quociente de inteligncia 
(Q.I.) dos indivduos a eles sujeitos.
Realmente se um teste se baseia na destreza manual e matemtica, no se poder 
avaliar, por exemplo, um tipo de
inteligncia crtica; existem ainda questes de personalidade que podero influir na 
realizao dos testes e que no
afectam em nada a inteligncia do indivduo, razo por que alguns psiclogos 
questionam a validade de da medio da
inteligncia enquanto que outros chegam mesmo a perguntar: "Mas o que  a 
inteligncia afinal?"
Actualmente h uma querela acerca da utilidade dos testes de inteligncia, sobretudo 
nos EUA. Enquanto que alguns
autores e cientistas mais conservadores defendem o seu uso, ligando a inteligncia  
hereditariedade e at  "raa", como
 o caso, que se pode ler na revista Time de 31 de Outubro de 1994, de Murray e de 
Richard Herrnstein, este, psiclogo de
Harvard e recentemente falecido. Outros, mais liberais, continuam cpticos em relao 
aos resultados obtidos por tais
testes. Pode mais uma vez verificar-se que a cincia, embora se mostre ao mundo como 
apangio de objectividade e s
vezes realmente pretendida pelos cientistas, est muitas vezes ao servio de crenas, 
preconceitos e ideologias. No caso
apresentado, os mais conservadores defendem o racismo enquanto que os mais liberais, 
em termos culturais, o
condenam.

     3.2     - O comportamento assim registado deve ser avaliado estatisticamente em 
relao ao
comportamento de um grupo de indivduos. Esta comparao  indispensvel, e qualquer 
prova
que a ela no recorra no  um teste mental. Para ilustrar este ponto, suponhamos que 
damos a

um indivduo uma diviso que ele dever executar em cinco minutos. Decorrido esse 
tempo, o
sujeito fornecer um resultado, que pode ou no estar correcto. Esta operao s 
poder ser um
teste se soubermos que num grupo de n indivduos cujas caractersticas conhecemos 
(idade, nvel
sociocultural, etc.) a operao foi conseguido em x% de casos.

     4.9     - A classificao do indivduo examinado relativamente ao grupo de 
referncia  o
objectivo final do teste. No exemplo precedente, se o indivduo respondeu 
correctamente  sua
diviso, diremos que, para a prova considerada (a diviso) ele se classifica no 
subgrupo que
compreende x% dos n indivduos em referncia.

     Esta definio permite-nos ver a diferena entre um teste mental e por exemplo 
um exame
clnico ou um exame escolar.

     No exame clnico tal como se pratica em medicina, acontece que muitas vezes o 
mdico faz
aos seus doentes perguntas no muito diferentes das que o psiclogo formula nalguns 
testes.
Mas, por um lado, de um modo geral as condies de administrao no so 
rigorosamente
estandardizadas, e, por outro lado, a resposta no  comparada estatisticamente com 
as respostas
dadas por um grupo de outros indivduos (... ). Um exame escolar aproxima-se muitas 
vezes mais
das condies de um teste mental. No entanto o sistema de notao no tem geralmente 
a rigidez
dos testes.

                    Pierre Pichot, Les Tests Mentaux, Paris, PUF, 1965, pp. 5-7








            A PSICOLOGIA CLNICA

considerar a conduta na sua perspectiva prpria, salientar to fielmente quanto 
possvel
as maneiras de ser e de reagir de um ser humano concreto e total mergulhado numa
situao, procurar estabelecer o sentido, a estrutura e a gnese, descobrir os 
conflitos
que motivam essa conduta e os passos que tendem a resolver esses conflitos, tal , em 
resumo, o
programa da psicologia clnica. A diferena caracterstica entre a atitude clnica e 
a atitude
experimental pode ser formulada assim: o experimentador cria uma situao e controla

artificialmente todos os seus factores, modificando s um factor de cada vez, de 
maneira a estudar
as variaes relativas das respostas, fazendo abstraco do conjunto. (... ) O 
clnico, no podendo
nem criar nem, sobretudo, controlar a situao de maneira a abstrair-se de parte das 
suas
condies, esfora-se por remediar esse facto, colocando de novo os factores que o 
interessam no
conjunto das suas condies: daqui a procura de uma explorao exaustiva. O 
experimentador e o
clnico procuram, de duas maneiras diferentes, atingir o mesmo fim: controlar as 
condies da
conduta, o primeiro pondo fora do jogo o conjunto das condies e manipulando uma 
varivel
independente, o segundo reconstituindo o conjunto das condies, e concebe-se que a 
primeira
atitude possa conduzir a tendncia atomstica ou molecular, a segunda a uma 
psicologia
totalizante ou molar, uma a relaes universais e, neste sentido, intemporais, a 
outra  histria de
um caso. (... ) Pelo estudo dos casos, o psiclogo aprende a abordar os seres 
humanos, a levmos
a expressar-se, a representar a sua vida e a sua conduta a favor da observao e da 
interpretao
compreensiva dos comportamentos considerados como significativos e expressivos. O 
psiclogo
encontra no estudo dos casos um contacto directo com os problemas humanos; o que 
interessa
 o ser humano como portador de um problema, e de um problema mal resolvido.

                              D.   Lagache, L'Unit de la Psychologie, Paris, PUF, 
1969, pp. 32-33


                     36

     e) Os perigos da vulgarizao dos testes e da sua manipulao abusiva

     Convm notar que, nas ltimas dcadas, tem havido uma vulgarizao de testes mal 
elabora-
dos em revistas com questionrios do gnero "Responda para conhecer o seusua 
parceiroa ideal".
Estes, juntamente com alguns inquritos, no so evidentemente dignos de 
credibilidade e so
responsveis por uma onda de cepticismo por parte de alguns em relao ao uso de 
inquritos e de
testes. Acrescente-se que o cepticismo entre intelectuais se deve tambm a que alguns 
questionrios e inquritos apresentados a significativas amostras da populao contm 
perguntas
fechadas que influenciam de certo modo a resposta.


     2.2.2. Mtodos naturalistas

     Quando se falou da observao como fase do mtodo experimental (ponto 2.1.2) j 
se teve oca-
sio de referir que a observao pode ser naturalista quando se realiza no ambiente 
natural

ou ecolgico do ou dos observados. As maneiras de registar comportamentos assim 
observados
podem ser o uso de simples grelhas de anlise de contedos nas quais se codificam os 
dados da
observao (modificao de contedos), bem como o recurso a meios audiovisuais.

     Estas tcnicas j foram referidas quando se descreveu de um modo global o mtodo 
de observa-
o (ponto 2.2). A indicaram-se casos de observaes laboratoriais e de entrevistas. 
Tcnicas
semelhantes de registo podero ser usadas no meio natural ou em contexto ecolgico, 
como a foto-
grafia, o gravador, a cmara de vdeo e, no caso do meio natural no ser o contexto 
ecolgico (por
exemplo o de um operrio que viva a sua vida quotidiana entre a fbrica e a sua casa 
- estes so
o seu meio natural) poder tambm usar-se o circuito fechado de televises (no local 
de trabalho, 
claro, pois o seu uso nas residncias das pessoas traz problemas tico-polticos 
gravssimos, j que
desrespeita todo a intimidade dos cidados, interferindo pois no domnio da 
Liberdade).


     2.2.3. Mtodo de observao em campo alargado

     A observao de grandes grupos de indivduos ou de uma grande comunidade 
(observao em
campo alargado) faz parte do mbito da Psicologia Social e efectua-se atravs de 
amostras que
permitam a generalizao dos resultados (amostras representativas). Este estudo de 
grandes
grupos de indivduos realiza-se por meio de inquritos extensivos que, como j se 
referiu, consistem na apresentao de questionrios  amostra da populao observada. 
A elaborao de
qualquer questionrio deve ser muito cuidadosa e requer preparao psicolgica do seu 
autor.



2.3. mToDo compARATivo

     No uso do mtodo comparativo podem manipular-se variveis tais como a idade, o 
sexo
a origem social ou a etnia. Em Psicologia Social pode comparar-se, por exemplo, o 
comporta-
mento de grupos de indivduos sos e doentes, de indivduos de idades ou de sexos 
diferentes,
tendo em vista a comparao de diferenas ou a descoberta de caracteres comuns no 
comporta-
mento dos diversos grupos. Pode, por exemplo, comparar-se as reaces de homens e de 
mulheres
da mesma idade perante um problema tico e social como  o do aborto. Um outro 
exemplo, pode

          Tomemos os seguintes valores

                         5    7     12    15     18    20    22

          de mdia aritmtica igual a 14,14 e mediana 15.

          A mediana no  influenciada pelos valores extremos da srie.

          Substituindo o ltimo valor da srie, 22, por outro valor, digamos 32, a 
mdia
          aritmtica passa a ser 15,57 mas a mediana continua a ser 15.


         Moda (Mo) -  o valor que ocorre com maior frequncia, ou seja,  o valor 
prevalecente
          de uma distribuio.


         Percentil - os percentis so teis para fazer comparaes, prescindindo do 
valor
          absoluto do resultado. Situam o indivduo em relao ao seu grupo.

          Tm, no entanto, como maior inconveniente o facto de no haver uma 
distncia uniforme
          de percentil a percentil e no se poder tomar como unidade que se possa 
tratar
          automaticamente.

          O percentil (ou quantil de ordem 100)  o valor da varivel que divide em 
100
          intervalos uma srie ordenada de valores dessa varivel, todos eles com o
          mesmo nmero de elementos.

          Por exemplo, num inqurito sob a forma de questionrio em que se pea aos 
inquiridos
          para atriburem um valor numa escala de O - 20 a uma afirmao de um 
poltico, o
          percentil indica a percentagem de inquiridos que ultrapassou uma 
determinada
          classificao (lO, por exemplo), ou seja, o Percentil 80 (P8O) indica que 
SO% dos inquiridos
          ultrapassaram essa classificao.


     Mtodos de correlao - Coeficiente de correlao

     Os mtodos de correlao so muito utilizados em Psicologia. A correlao 
exprime a
relao concomitante entre duas ou mais variveis. Se duas variveis evoluem
concomitantemente, diz-se que esto correlacionadas. Os coeficientes de correlao 
medem
a "qualidade da correlao", isto , avaliam a concomitncia entre as variveis 
correlacionadas.
De um modo geral, para coeficientes de correlao iguais a l a correlao  perfeita. 
A medida
que a correlao se afasta de l vai piorando.

     Nos estudos clssicos sobre a influncia da hereditariedade no desenvolvimento, 
correlacionam-se muitas vezes as "classificaes" obtidas por gmeos homozigticos em 
diversas

provas de inteligncia, procurando demonstrar-se, a partir das correlaes mais 
elevadas obtidas
com os gmeos, o papel da hereditariedade no desenvolvimento das funes mentais. Na
investigao de aptides humanas  importantssimo usar tcnicas de anlise 
factorial, que se
baseiam essencialmente no clculo de correlaes.




                     39

I

CAPITULO

    PSICOFISIOLOGIA, EVOLUO E GENTICA

     1.   IMPORTANCIA E CAMPOS DE ACO DA PSICOFISIOLOGIA
     2.   A FILOGNESE
     3.   O SISTEMA NERVOSO
     4.   O SISTEMA ENDOCRINO
     5.   A EVOLUO
     6.   A ETOLOGIA
     7.   A GENTICA

          IMPORTANCIA E CAMPOS DE ACO
          DA PSICOFISIOLOGIA

     O objectivo da psicologia fisiolgica ou biopsicologia  encontrar as relaes 
entre os fenmenos corporais - especialmente o sistema nervoso - o comportamento e a 
experincia.      Os mtodos para estudar as funes neuronais que se usam com maior 
frequncia para estabelecer relaes entre o comportamento e a experincia so:

         o estudo das alteraes qumicas ou estruturais que ocorrem no crebro aps 
determinadas manipulaes psicolgicas; o estudo do comportamento depois de destruir 
uma parte do sistema nervoso;     o registo electromagntico da actividade do 
sistema nervoso enquanto ocorre um determinado comportamento; a estimulao elctrica 
e algumas vezes qumica de certas regies do sistema nervoso para investigar as 
funes comportamentais das regies estimuladas.
        A psicofisiologia no  do uso exclusivo dos psiclogos. Outras reas 
cientficas como a neurologia, psiquiatria, fisiologia, anatomia, farmacologia, 
bioqumica e Etologia tambm se ocupam do estudo das relaes entre os fenmenos que 
ocorrem no sistema nervoso e o comportamento.              2. A FILOGNEkc3.z"7      
  interaco MoCrebro
     Complexificao do Crebro


     O homem, nas suas caractersticas biolgicas, distingue-se dos outros primatas 
mais desenvolvidos, os macacos antropides, pela posio erecta, marcha vertical e 
maior volume do crebro.
     Graas aos contributos da Paleontologia, Antropologia e Arqueologia podemos 
afirmar que esta diferenciao se verificou para responder a modificaes ecolgicas 
operadas no meio. Ao aprender

a deslocar-se no solo, o homem integrou-se num modo de vida em que a sua oportunidade 
de sobrevivncia se relacionava com o desenvolvimento do crebro.
          Meelhor informado do que os outros sobre o mundo ambiente, o Homo Sapiens 
tem tambm o meio de melhor registar, arquivar, tratar todas as informaes que 
recebe. O homem conhece melhor, mas tambm compreende melhor.           A libertao 
da mo  uma consequncia da posio erecta permanente. De rgo locomotor,      a 
mo torna-se membro prensil, capaz de executar os gestos voluntrios mais complexos 
e os      trabalhos mais minuciosos, substitui a mandbula como rgo de trabalho ou 
de defesa.           (...      ) Em suma, graas  mo liberta, o crebro dispe de 
um rgo de execuo eficaz. Em contrapartida, a mo que apalpa, ensaia, executa, 
envia ao crebro as informaes que ela recolhe, os resultados das experincias que 
tenta" o crebro arquiva-os, compara-os e pode assim,      progressivamente, melhorar 
as ordens que envia  mo, e afinar os seus programas. A srie de aces e 
retroaces permanentes crebro-mo-crebro fazem deste conjunto um sistema      
notavelmente integrado.           No fim de contas,  a posio erecta que aparece 
como primum movens da hominizao, pois,      sem ela, nenhum dos outros caracteres 
poderia ter sido adquirido.
          Jacques Ruffi, De Ia Biologie  Ia Culture, Flammarion, Paris, 1983

     Podemos concluir que a filognese  um processo determinado por uma 
multiplicidade de factores (genticos, ecolgicos, tcnicos e culturais), numa 
interaco permanente. Este processo realizou-se por etapas. A posio erecta 
libertando a mo, diminuiu o tamanho dos maxilares, permitindo o alargamento da caixa 
craniana. A descoberta do fogo e a consequente cozedura dos alimentos acelerou o 
desenvolvimento do crebro, que passa a submeter as mos a um controlo cada vez mais 
rigoroso.

      nesta dialctica mocrebro que se devem procurar as caractersticas do homem: 
o uso de utenslios e a linguagem. Enquanto os restantes animais se limitaram  
manipulao passiva dos objectos naturais, o homem aprendeu a modific-los, 
transformando-os em utenslios; esta actividade implica simultaneamente aptido 
manual e inteligncia, sendo esta ltima inseparvel da linguagem.

     O funcionamento do crebro humano  um processo psicofisiolgico, de todos o 
mais complexo.

     O poder coordenador do crebro depende da complexidade das suas estruturas. 
Complexidade essa que deriva de um maior desenvolvimento do crtex que controla as 
funes superiores do sistema nervoso central, incluindo a linguagem e o pensamento.


              O SISTEMA NERVOSO

          Imaginemos um homem descansando tranquilamente, num jardim, numa tarde de 
vero. O seu olhar  atrado por um enxame de abelhas que assaltam um canteiro de 
madressilvas.           Ele diverte-se por alguns instantes na observao da 
trajectria destes insectos, mas os voos de vai e vem - pousando numa ou noutra flor, 
para depois desaparecerem e voltarem      novamente - levam a que este homem depressa 
desista da ideia empreendida. Conclui que o mundo das abelhas deve ser bem catico. 

Na verdade, hoje em dia, sabe-se que o mundo das abelhas no , de modo algum, 
aleatrio. Graas a sistemas neuronais especializados, elas tm uma memria de odores 
que lhes permite reconhecer, atravs de uma infinidade de molculas libertadas pelas 
plantas, as misturas que lhes so teis para a sua actividade. As abelhas no vivem, 
assim, num mundo desordenado, elas tm      uma representao olfactiva do mundo 
construda pelo seu crebro.                   Mas no homem as coisas acontecem noutra 
escala - a sua organizao  muito superior. O crebro humano, com os seus 20 a 30 
mil milhes de neurnios,  uma mquina que produz a todo o instante representaes 
estveis da realidade, conhecimentos que permitem a aco. 
Voltemos ao homem que observava as abelhas: eis que uma abelha se aproxima dele. 
     Apercebendo-se do rudo, abre os olhos, volta-se para ela e, num s gesto, 
apanha-a.           Este comportamento aparentemente banal de percepes e aces , 
de facto, um pequeno milagre de complexidade quanto ao mecanismo cerebral que o 
produziu. Constantemente,      pequenos milagres se produzem quando nos pomos de p, 
quando nos orientamos nos espaos ou, ainda, quando identificamos o movimento e o 
antecipamos. Como funciona o crebro em tais circunstncias? Os neurofisiologistas 
ainda esto longe de poder descrever a totalidade do processo mas sabe-se algo sobre 
o que  ver... Quando o nosso homem viu a abelha, numerosas estruturas neuronais 
disseminadas nas diferentes reas de viso, situadas nos seus lobos      occipitais, 
foram simultaneamente activadas. Cada uma  especializada num determinado tipo de 
informao: a forma do objecto, a cor, o movimento; estas informaes foram em 
seguida integradas para produzir uma imagem enriquecida por uma palavra, abelha, que 
tomou um significado na zona de tratamento semntico, situada no seu lobo frontal 
esquerdo.
                    Jean-Pierre Icikovics, Le Cerveau et L'Intelligence, Science & 
Vie,
                                             Hors Srie, Dez.91 (adaptao)


                     44

     3. 1. ORGANIZAO DO SISTEMA NERVOSO


     O sistema nervoso tem como principais funes: o controlo do comportamento e a 
regulao fisiolgica do organismo. Do ponto de vista estrutural divide-se em duas 
partes:

     SNC - Sistema Nervoso Central (encfalo e medula espinal).

     SNP - Sistema Nervoso Perifrico (pares de nervos que transmitem informao 
entre o sistema nervoso central e todo o corpo, em ambos os sentidos).

     O sistema nervoso central inclui:
     encfalo: crebro, cerebelo e tronco cerebral;
     medula espinal.

     O sistema nervoso central pode ser descrito como um longo tubo (medula espinal) 
que se torna bastante grosso na sua extremidade superior (encfalo). O encfalo 
situa-se na cavidade craniana e a medula espinal prolonga-se pela coluna vertebral 
atravs dos buracos das vrtebras at  regio lombar.

     No encfalo destacam-se trs estruturas: o crebro, o cerebelo e o tronco 
cerebral. No tronco cerebral distinguem-se ainda: o bulbo raquidiano, a protuberncia 
e os pednculos./

     3.2. NEURNIOS-- UNIDADE FUNDAMENTAL DO SISTEMA NERVOSO


     O sistema nervoso  constitudo por dois grupos de clulas distintas: os 
neurnios ou clulas nervosas, que constituem a unidade fundamental de todo o sistema 
nervoso, e as clulas, que ocupam os espaos interneurnios, que nutrem e modulam a 
sua funo.

     De formas e dimenses muito variveis (podendo atingir mais de um metro) os 
neurnios caracterizam-se por possurem a capacidade de conduzir impulsos elctricos, 
estando ligados a outras clulas por zonas (pontos) especficas - as sinapses 
(qumicas ou elctricas), atravs das quais os sinais so transmitidos.

     Os neurnios so constitudos por trs elementos fundamentais:      Corpo 
celular ou soma, pequena massa de citoplasma na qual se situa o ncleo;      
Dendrites, mltiplos prolongamentos ramificados que convergem para o soma (em mdia, 
     um neurnio possui cerca de 10 000 dendrites, o que garante uma enorme rea e 
capacidade de comunicao com outros neurnios);      Axnio com as suas terminaes, 
tambm chamado fibra nervosa, prolongamento nico      geralmente alongado que emerge 
do soma que pode ter ou no ramificaes (quanto maior o      nmero de ramificaes 
maior  a sua esfera de influncia). As terminaes dos axnios -      axnio 
terminal - so responsveis pela libertao de mensageiros qumicos.                 
      Distinguem-se trs classes funcionais de neurnios:      Neurnios aderentes 
receptores ou sensoriais - transmitem informao dos diferentes tecidos e rgos do 
corpo para o SNC. Possuem receptores que respondem a variaes fsicas e qumicas no 
ambiente, produzindo impulsos elctricos. Este neurnios caracterizam-se por no 
terem dendrites;      Neurnios eferentes, efectores ou motores - transmitem sinais 
elctricos do SNC para clulas efectoras (msculos ou glndulas);       
interneurnios, conectores - responsveis pela conexo dos neurnios aderentes e 
eferentes no SNC - constituem 99% de todos os neurnios e so eles os processadores 
da informao no SNC.     

a)   interneurnios com dendrites muito ramificadas que formam sinapses com centenas 
de outros neurnios-,
      b)   neurnio eferente (motor) que enerva clulas musculares com axnio de 
apenas um ramo;
      c)   neurnio aferente (sensorial) com axnio apresentando dois ramos, que no 
possui dendrites./                      

*4 -@       Refiram-se trs pontos importantes relativos ao crescimento e regenerao 
neuronal:
           Os neurnios desenvolvem-se a partir de clulas precursoras, migram para 
o local final e expandem-se para as suas "clulas alvo" durante a evoluo 
embrionria;
           A diviso celular para formar um novo neurnio completa-se com o 
nascimento;
           No SNP, se houver degenerao de um axnio, este pode regenerar-se para a 
sua "clula alvo". Leses em neurnios do SNC no regeneram nem repem a sua funo.
        Apesar da grande complexidade do sistema nervoso no seu conjunto, a estrutura 
e funo das clulas nervosas  conhecida com grande detalhe, talvez com maior 
detalhe do que qualquer outra clula. Sabe-se, por exemplo, que os impulsos 
elctricos conduzidos ao longo dos neurnios podem explicar-se em termos de protenas 
especficas da membrana citoplasmtica que regulam o fluxo de ies para dentro e fora 
da clula. Conhecem-se em pormenor as protenas especficas - receptoras da membrana 
citoplasmtica dos neurnios fotossensveis que transformam os sinais exteriores em 
impulsos elctricos. At alguns aspectos da memria e aprendizagem podem agora j ser 
explicados em termos de modificaes de neurnios especficos.            


3.3. SISTEMA NERVOSO CENTRAL - sNc                      Crebro        

*O crebro constitui a maior parte do encfalo humano e apresenta dois hemisfrios 
(direito e esquerdo) com as suas circunvolues e fissuras. Entre os dois hemisfrios 
desenvolve-se um extenso feixe de fibras que os liga - o corpo caloso - que 
desempenha um papel importante na integrao das respectivas funes.
       O crebro  o responsvel pelas actividades ditas superiores atribudas ao 
Homem. De facto, a superfcie dos hemisfrios cerebrais est coberta pelo crtex 
cerebral: pequena camada de tecido (3 mm) composta por milhares de milhes de clulas 
nervosas - que se supe representar o ponto mais elevado da integraro neuronal.  
aqui que a percepo tem lugar, a memria  armazenada, os planos so formulados e 
executados.
       O grande nmero de circunvolues aumenta significativamente a superfcie do 
crtex cerebral - animais com o crebro maior e mais complexo apresentam crebros com 
muitas circunvolues.
       Sabe-se hoje que actividades distintas como a audio, a viso e a fala esto 
associadas a diferentes zonas ou lobos cerebrais (lobos: frontais, parietais, 
temporais e occipitais - um em cada hemisfrio)./                         
*Duas estruturas localizadas na parte superior do tronco cerebral - o tlamo e o 
hipotlamo - merecem referncia. O tlamo  um sistema amplo com vrios centros que 
funcionam como uma rea de recepo para os hemisfrios cerebrais. As fibras com 
origem nos olhos, nos ouvidos, na pele e em alguns outros centros motores enviam a 
sua informao ao tlamo que, por sua vez, a transmite para cima, para o crtex 
cerebral. O hipotlamo est implicado no controlo de padres de comportamento 
desencadeados pelas necessidades biolgicas bsicas (p.ex. comer, beber, manter a 
temperatura adequada, actividade sexual e outras)./                                 
                   H. Gleitmann, 1986                                          AREA 
MOTRIZ 

*O crtex divide-se em quatro lobos: o lobo occipital que se ocupa de todos os 
processos visuais; o lobo parietal que trata as informaes sensitivas; o lobo 
temporal que contm as reas auditivas e da compreenso da linguagem (rea de 
Wernicke); e o lobo frontal que dirige a aco e  tambm o centro das funes mais 
elaboradas, como a capacidade de abstraco.
      Em cada um dos hemisfrios, o crtex encerra trs tipos de reas (motoras, 
sensitivas e associativas) que agem em conjunto a fim de produzir um comportamento 
consciente.  o centro da percepo sensorial e da regularo motora voluntria que 
age sobre o lado oposto do corpo./

                       *Cerebelo -- O cerebelo tem o aspecto de uma miniatura do 
prprio crebro e situa-se inferoposteriomente em relao a este. Tem como principal 
funo o controlo de movimentos voluntrios e involuntrios. Embora o cerebelo no 
inicie movimentos, voluntrios,  um centro importante na coordenao e aprendizagem 
dos movimentos bem como no controlo da postura e equilbrio. Para desempenhar estas 
funes, o cerebelo recebe informao dos msculos e articulaes, da pele, dos olhos 
e ouvidos, das vsceras e de zonas do crebro que se relacionam com o movimento./

          *Tronco Cerebral -- O tronco cerebral assegura a comunicao entre a medula 
espinal, o crebro e o cerebelo. , portanto, de vital importncia. A informao  
transmitida entre o tronco cerebral e o cerebelo por trs largos feixes de fibras 
nervosas - os pednculos.

       No tronco cerebral desenvolve-se a formao-reticular: estrutura bastante 
difusa de feixes nervosos que se estende por todo o tronco cerebral, desde o bulbo 
at ao tlamo, abrangendo uma vasta rea de influncia sobre outras zonas do SNC. 
Esta estrutura vital funciona como um activador geral cuja excitao activa outras 
partes do crebro, em particular os hemisfrios cerebrais (a sua desactivao parece 
relacionada com o sono). As fibras descendentes que se estendem at  medula espinal 
influenciam a actividade dos neurnios tanto aderentes como eferentes; verifica-se 
uma considervel interaco entre a formao-reticular que se dirige para cima at ao 
crebro, para baixo at  medula espinal e at ao cerebelo, por exemplo, todas as 
trs estruturas esto envolvidas no controlo da actividade muscular.
       Alguns neurnios da formao-reticular desenvolvem centros com papel 
importante no controlo de actividades: cardiovascular, respiratria, deglutio e 
vmito. A formao-reticular desempenha ainda um papel nuclear no controlo do 
movimento ocular e de orientao reflexa do corpo no espao.        no tronco 
cerebral que se desenvolvem ncleos directamente relacionados com 10 dos 12 pares de 
nervos cranianos (SNP) que, em conexo com o crebro, enervam os msculos, glndulas, 
receptores sensoriais da cabea, assim como muitos rgos das cavidades torxica e 
abdominal.
       O tronco cerebral constitui uma das regies mais primitivas do encfalo, 
estando relacionado com funes bsicas - controlo primrio das funes fisiolgicas 
e comportamento automtico. Refira-se que o encfalo de alguns animais (p. ex. 
batrquios)  constitudo, na sua maioria, por um simples cerebelo e bulbo 
raquidiano./                   
*Todo o sistema nervoso central est envolvido por um sistema trimembranal - as 
meninges: externamente a duramater, medianamente a aracnoideia, ricamente 
vascularizada, e a piamater aderente  medula e encfalo. Entre as duas camadas 
internas est contido um fludo - o lquido encfalo-raquidiano.       Entre os dois 
hemisfrios cerebrais existem quatro cmaras que contm e produzem o lquido 
encfalo-raquidiano./ 

*Sistema Lmbico  -- Um conjunto de estruturas interconectadas e localizadas nos 
hemisfrios cerebrais que envolve parte do lobo frontal e temporal, o tlamo e com 
estreitas ligaes anatmicas com o hipotlamo, desempenha um papel importante na 
aprendizagem, na expresso de emoes e numa srie de funes endcrinas - o sistema 
lmbico.
       O sistema lmbico compreende vrias regies do crtex lmbico, situado na 
confluncia dos dois hemisfrios com o tronco cerebral. As estruturas mais 
importantes deste sistema so: a amgdala (forma de amndoa), situada no interior do 
lobo temporal, e o hipocampus (forma de cavalo marinho), situado imediatamente atrs 
da amgdala.
      Leses na amgdala afectam o comportamento emocional. Algumas das consequncias 
destas leses, verificados em animais de laboratrio revelaram sexualidade 
indiscriminada (cpula de qualquer objecto) e perda de capacidades tanto agressiva 
como defensiva. A amgdala pode tambm ser responsvel pelo controlo de parte do 
sistema imunolgico (refira-se que o stress fsico e mental pode causar diminuio da 
actividade imunolgica baixando a capacidade de defesa do organismo a agentes 
exteriores e, talvez, o desenvolvimento de clulas cancergenas).
        O hipocampus desempenha um papel importante no campo da memria. Pessoas com 
leses no hipocampus perdem a capacidade de aprenderem algo de novo; para elas, 
"ontem" refere-se sempre a acontecimentos ocorridos antes do traumatismo que provocou 
a leso, enquanto acontecimentos posteriores so sistematicamente varridos da 
memria, tal como acontece a muitos dos nossos sonhos./

          

3.4. SISTEMA NERVOSO PERIFRICO - SNP       


*O sistema nervoso perifrico  constitudo pelos nervos, que estabelecem a ligao 
entre o sistema nervoso central e todo o resto do organismo, rgos, msculos e 
glndulas. Pode definir- -se como sendo o sistema nervoso que no faz parte do 
sistema nervoso central.
       Alguns nervos ligam-se  medula espinal, os nervos raquidianos; outros 
ligam-se directamente  base do crebro, os nervos cranianos. Em ambos os casos 
existem pares de nelrvos (direito e esquerdo). No Homem existem 43 pares de nervos, 
12 dos quais so cranianos.  de salientar que nem todos os nervos irradiam 
directamente do SNC de forma independente para enervarem zonas especficas do corpo. 
Pelo contrrio, os nervos voltam a encruzilhar-se formando os denominados plexos 
nervosos.  ento, a partir dos plexos nervosos, que irradiam ramificaes para as 
diferentes zonas do corpo.       Os nervos transportam sinais em dois sentidos: os 
rgos dos sentidos detectam alteraes no ambiente exterior e enviam sinais atravs 
dos nervos at ao SNC - atravs dos nervos senso- riais; e o SNC reage enviando 
sinais de resposta para os outros pontos do organismo com que est conectado (p. ex. 
com os msculos) - atravs dos nervos motores -, o que provoca reaces que 
constituem o comportamento. Esta classificao  um pouco restrita (at porque no 
inclui o sistema nervoso autnomo) mas, no entanto, est muito vulgarizada. De facto, 
actualmente optou-se por classificar o SNP como sendo formado por duas divises: SNP 
aferente e SNP eferente, de acordo com os neurnios que os constituem (neurnios 
aderentes e neurnios eferentes).         Ento, o sistema nervoso perifrico, do 
ponto de vista funcional, estrutura-se do seguinte modo:/
                    Aferente Sistema Nervoso
              Sistema Nervoso Somtico   Perifrico     Eferente
 <  Sistema Nervoso Autnomo  Simptico
                                                         < Parassimptico            
            2                    2. ptico                                     3.   
Motor ocular                                         comum                           
                    ,4. Pattico                     factiv                    @6 
Motor                     extern                  l2,Grande                          
              5. Trigmio               ipogloss                      7. Fac         
          8. Auditivo                                    - - - - - - - -(Vestibular e 
ac!                                     9.   Glosso farngeo                        
     10. Pneumogstrico (Vagus)                             FiG. S                   
        

Os 12 pares de nervos cranianos relacionados com as regies que servem.              
SNP Aferente:  composto pelos neurnios aderentes, que, como j foi referido, 
transportam a informao da periferia, desde os receptores, at ao SNC. Podemos ento 
dizer que  o SNP aferente que informa o SNC, tanto do mundo exterior como do 
interior ao prprio organismo.

        SNP Eferente:  composto pelos neurnios eferentes, que transportam a 
informao vinda do SNC at aos msculos e glndulas. O SNP eferente  mais complexo 
que o aferente, subdividindo-se em SNP Somtico e SNP Autnomo ou, simplesmente, 
sistema nervoso somtico e sistema nervoso autnomo (SNA).

       Sistema Nervoso Somtico -- O sistema nervoso somtico, da diviso eferente do 
SNP,  constitudo por todos os nervos e fibras nervosas vindas do SNC que conduzem 
s clulas de msculo esqueltico (msculos que se articulam com o esqueleto) cuja 
contraco resulta de estmulos voluntrios. Estes nervos so os chamados nervos 
motores. A excitao dos nervos motores conduz apenas  contraco dos msculos 
esquelticos (note-se que o composto, neurotransmissor, libertado por estes neurnios 
 a acetilcolina). No existem nervos somticos que conduzem ao relaxamento e 
inibio dos msculos esquelticos.

          Sistema Nervoso Autnomo -- O sistema nervoso autnomo, da diviso eferente 
do SNP,  constitudo por todos os nervos e fibras nervosas vindas do SNC que enervam 
os outros tecidos do organismo menos o tecido muscular esqueltico, isto , enervam o 
msculo cardaco, msculo liso (que se localiza, p.e., nos vasos e intestinos), 
glndulas e trato gastrointestinal. A aco dos nervos autnomos resulta de estmulos 
involuntrios. Por outro lado, possuem outra caracterstica que tambm os distingue 
em absoluto dos nervos somticos ou motores: a activao do sistema autnomo pode 
conduzir tanto  activao como  inibio dos tecidos por ele enervados.
       Devido  grande importncia que o sistema nervoso autnomo representa no 
controlo de todo o organismo e tambm porque  o menos conhecido para a grande 
maioria dos leitores a que se destina este livro, merece desenvolvimento. De facto, a 
par com o sistema neuro-endcrino, o sistema nervoso autnomo, situado em volta da 
medula espinal e do bulbo raquidiano, constitui a segunda grande via de controlo do 
organismo.       Permanentemente, o sistema nervoso mantm o corpo e acciona os 
nossos rgos. Mas  sob o comando do sistema autnomo que o corao bate mais 
depressa, que os intestinos tm espasmos e que a pupila se contrai para proteger o 
olho duma maior intensidade de luz. Porqu autnomo? Porque segue as suas prprias 
regras, no obedecendo  vontade, salvo casos raros -  involuntrio. O seu papel  
vital: em interaco com os mensageiros qumicos, as hormonas, ele encarrega-se de 
manter em todas as circunstncias a estabilidade interna do corpo.
       Os msculos lisos consideram-se fibras autnomas, relacionam-se com os 
movimentos involuntrios e envolvem todos os rgos e vasos. O seu papel  essencial. 
Regulam e controlam a passagem dos alimentos, a entrada de ar, o escoamento da urina, 
a circulao do sangue... Os msculos lisos esto distribudos por todo o corpo: 
desde os msculos da pupila e do cristalino que asseguram uma viso ntida, at ao 
msculo cardaco e uma multido de glndulas. A secreo da saliva, as lgrimas, o 
suor, os sucos digestivos, esto tambm sob o seu controlo.
       Como  que accionando msculos e glndulas, o sistema nervoso pode controlar 
harmoniosamente as grandes funes do organismo?
       O sistema autnomo contm dois sistemas com funes distintas:

       Sistema Simptico Sistema Parassimptico -- So dois grandes actores com 
funes complementares que em geral tm efeitos opostos sobre os rgos em que 
actuam:
       Orgo ou sistema  Olhos (ris)  Glndulas nasais, salivares e lacrimais  
Glndulas sudorparas  Msculo cardaco Corao e vasos coronrios  Pulmes  Tubo 
digestivo   Vescula biliar  Bexiga - Uretra Pnis Vagina - Clitris  Vasos 
sanguneos                   Lj;a <:i ir                Aco do Sistema             
      Simptico dilatao das pupilas inibio da secreo activao da secreo do 
suor aumento do ritmo cardaco vasodilatao dilatao dos brnquios  diminuio da 
actividade das glndulas e dos msculos lisos; contraco dos esfincteres  
relaxamento da vescula relaxamento do esfncter                  ejaculao 
contraco da vagina  conscrio dos vasos, dos rgos abdominais e da pele; 
dilatao dos vasos dos msculos esquelticos durante a actividade fsica

       Aco do Sistema      Parassimptico  contraco das pupilas estmulo da 
secreo    diminuio do ritmo cardaco vasoconstrio  conscrio dos brnquios  
aumento da mobilidade e secreo; relaxamento dos esfncteres  contraco da vescula 
contraco do esfncter ereco ereco do clitris              Os nervos simpticos 
irradiam da parte mediana da coluna vertebral, ao nvel do trax e das vrtebras 
lombares.

       Os nervos simpticos emergem ao nvel da nuca e base da coluna, libertam a 
noradrenalina que  estimulada pela excitao forte, por exemplo, aumentando o ritmo 
cardaco e a tenso arterial. As fibras parassimpticas libertam a acetilcolina que, 
pelo contrrio, diminui o ritmo cardaco e favorece a digesto, aumentando os 
movimentos rtmicos do intestino. Tambm desencadeiam a libertao do contedo das 
glndulas, por exemplo, os sucos gstricos.
       O hipotlamo, pequeno conjunto de neurnios, situado aproximadamente no meio 
do crebro, assegura a conexo entre o conjunto do crebro e dos nervos autnomos. 
Accionando as fibras autnomas, pode desenvolver uma panplia de reaces corporais 
elaboradas, como a reaco do organismo ao medo ou ainda o acompanhamento do sistema 
digestivo (na libertao do contedo das glndulas salivares, na contraco dos 
intestinos, etc.).       Este importante conector, o hipotlamo, est estreitamente 
ligado s regies cerebrais mais directamente ligadas s emoes - o sistema lmbico 
- do qual faz parte. Ele  o intermedirio da repercusso das emoes sobre os nervos 
autnomos, e, em consequncia, no funcionamento dos rgos.
       Assim, um facto que nos impressione pode fazer aumentar a presso arterial, 
por activao do sistema simptico. Deste modo, compreende-se tambm como a ansiedade 
pode parar a digesto. Ao contrrio, certos estados emocionais como uma depresso 
grave podem activar o sistema parassimptico durante longos perodos.

          3.5. MECANISMOS DO SISTEMA NERVOSO

          Tal como acontece na medula espinal, a informao circula no crebro, dum 
neurnio para outro, sempre sob a forma de impulsos elctricos. Aqui, as mensagens 
atravessam uma multido de neurnios organizados numa rede inextrincvel. Por vezes, 
um s neurnio est em conexo directa com centenas de milhares de outros. Embora 
exista esta complexidade gigantesca, conhecem-se duas grandes leis no funcionamento 
do crebro. Em 1. lugar, os neurnios esto organizados em grupos especializados e 
em zonas diferentes. Em 2.2 lugar, as informaes que circulam no crebro, todas 
elas, so tratadas em paralelo, num grande nmero de regies do crebro ao mesmo 
tempo.           Tomemos o exemplo duma aco um pouco mais elaborada que um reflexo 
- uma aco voluntria. Em cima de uma mesa vemos um chocolate, temos fome e gostamos 
de chocolate.
      Estendemos o brao para tirarmos um bocado da tabiete e levamo-lo  boca. O que 
se passou?
           O actor principal foi o crebro. Toda a percepo consciente, toda a aco 
voluntria parte do crebro.
           Na retina, a imagem da tablete de chocolate converte-se em impulsos 
elctricos. Em algumas fraces de segundo, a imagem atinge os hemisfrios cerebrais 
atravs do nervo ptico numa zona especfica. As informaes relativas a cada sentido 
(viso, audio, tacto, olfacto ... ) atingem zonas diferentes dos hemisfrios. Todas 
as mensagens que dizem respeito s imagens so levadas a uma pequena regio situada 
atrs do crtex.           Aps a sua entrada, a mensagem visual  distribuda numa 
vasta zona do crtex para ser tratada (descodificada). A informao visual 
distribui-se por cerca de vinte regies distintas, em simultneo. Cada regio trata 
um aspecto particular da imagem. A textura, a cor, a forma da tablete de chocolate 
so analisadas em pontos diferentes. Tomar conscincia da tablete implica relacionar 
estes dados diversificados.
           Uma vez localizada e identificado a tablete de chocolate,  ainda o 
crebro que planifica, programa e comanda o movimento do brao. O comando provm do 
crtex motor. Esta zona contm na sua superfcie um mapa do corpo, na medida em que, 
em cada ponto, se encontram neurnios que comandam um pequeno territrio do corpo.

           Assim, antes de pegar na tablete de chocolate, no curtssimo espao de 
tempo que o precede, impulsos elctricos percorrem os neurnios na regio do crtex 
motor que corresponde ao brao.
      A mensagem , em seguida, transmitida  medula espinal. A, ela atinge as 
fibras motoras que accionam os msculos.           O mnimo movimento voluntrio 
exige um comando nervoso muito elaborado que o crtex no constri sozinho. Para 
programar o movimento, colabora com um conjunto de neurnios ancorados na 
profundidade dos hemisfrios cerebrais, cuja funo exacta ainda continua um 
mistrio. Um outro actor, o cerebelo, desempenha um papel de primeiro plano de 
coordenao e ajustamento dos movimentos.  graas  sua aco que, ao estendermos o 
brao para agarrar o chocolate, os msculos se contraem coordenadamente, para 
conseguir um gesto coerente.  tambm graas a ele que a mo no atinge um local mais 
distante, mas exactamente o chocolate.      No entanto, o essencial no se passa nas 
regies estritamente motoras, ou estritamente sensoriais, mas nas regies 
associativas que cobrem a maior parte da superfcie dos hemisfrios cerebrais. Estas 
zonas associativas tm uma funo crucial nas funes mentais superiores, como a 
memria ou a linguagem.  nestas zonas que se efectuam numerosas operaes de relao 
entre a percepo e o comando do movimento. A nossa aco foi motivada pela 
recordao da ltima vez que comemos chocolate. O estado de esprito do momento em 
que vimos a tablete foi importante: comemos a pensar que tnhamos fome. Assim, o 
estado interno do crebro condiciona o modo como tratamos as informaes dos sentidos 
e influencia as decises. Mais do que um computador que responde aos sinais 
exteriores de forma passiva, ocrebro  um instrumento relativamente autnomo, capaz 
de organizar a sua prpria actividade.
                       Laure Schalchi, Science & Vie (Hors Srie), Junho 1994        
Mecanismo Reflexo                   FIG. 9            A aco reflexa segundo 
Descartes.           Neste esquema de Descartes, o calor do fogo, A, d origem a uma 
cadeia de processos que se iniciam no           ponto da pele estimulado, B, e 
continuam a transmitir-se para cima, atravs do tubo neuronal, at que o poro de uma 
cavidade, F, se abra.
           Descartes supunha que esta abertura permitia ao esprito animal, contido 
na cavidade, entrar no tubo neuronal e eventualmente atingir o msculo que afasta o 
p d@) fogo. Apesar de a figura mostrar que Descartes antecipou a ideia bsica da 
aco reflexa, indica tambm que no teve em conta a distino anatmica entre nervos 
eferentes e nervos aferentes (Descartes, 1662).
       Tomemos um exemplo: colocamos a mo sobre uma superfcie muito quente. Em 
fraces de segundo, a nossa mo afasta-se dessa superfcie. E isto acontece antes de 
tomarmos conscincia da queimadura. Independentemente da nossa vontade, exerceu-se 
uma aco sobre os nervos e a medula espinal que comandaram a mo - no esperou que o 
sinal chegasse ao crebro - estamos perante o mecanismo reflexo ou simplesmente acto 
reflexo. Vejamos a figura 10.              Medula      espinal                       
              Axnio sensorial                                    (aferente) - dor   
                                          Neurnio moto      Conexo interneurnios  
               (eferente)      causadora de contraco muscular        FIG. 10       
Esquema do mecanismo reflexo: o crebro no intervm na resposta reflexa.         Ao 
longo da medula espinal entram e saem em intervalos regulares, atravs dos buracos de 
conjugao criados pelas vrtebras que constituem a coluna vertebral, pares de nervos 
raquidianos que no total so 31. Cada um liga a medula a um segmento preciso do 
corpo. As fibras nervosas sensitivas transportam at  medula sensaes provenientes 
dessa regio do corpo. As fibras nervosas motoras enviam ordens aos msculos 
esquelticos desse segmento.

       O reflexo que nos fez desviar a mo do calor apenas ps em aco alguns 
neurnios. A temperatura elevada da superfcie foi detectada pelas fibras nervosas 
sensitivas localizadas na epiderme. A extremidade de cada fibra desempenha o papel de 
um minsculo receptor muito sensvel captando os sinais do exterior. O receptor 
converte o sinal de calor em impulsos de natureza elctrica - a "linguagem universal 
do sistema nervoso" - que percorrem a fibra nervosa at  medula espinal. A, a 
mensagem elctrica  transmitida de um neurnio para outro, via sinapses, 
transmitindo-se em seguida aos nervos motores. O acto reflexo  muito rpido, os 
impulsos elctricos percorrem o tecido nervoso a grande velocidade, na ordem de l a 
100 metros por segundo. O sinal chega tambm ao crebro, tomamos conscincia dele, 
mas a resposta - desviar a mo do calor, foi efectuada pela medula espinal, 
minimizando o tempo de aco.

       49 O SISTEMA ENDCRINO

                 A fim de que tudo funcione em conjunto,  necessrio um sistema 
global de informao nos dois sentidos.  a vocao do sistema endcrino.
                                                        Christiane Sinding  

As hormonas - mediadores qumicos Mecanismo de retrocontrolo
       Nenhuma clula vive isolada. Num organismo pluricelular, uma rede complexa de 
comunicao coordena o crescimento, a diferenciao e o metabolismo da enorme 
variedade de clulas nos diversos tecidos e rgos.       Em pequenos grupos 
celulares a comunicao pode fazer-se directamente de clula para clula, mas em 
organismos mais desenvolvidos as clulas tm de comunicar a longas distncias. Nestes 
casos, produtos extracelulares actuam como sinais - as hormonas - so substncias 
especficas sintetizadas e libertas depois de ter havido um sinal, e que se dirigem 
para outras clulas onde induziro uma resposta especfica, s nas clulas "alvo", 
pois estas so as que possuem receptores especficos para aquele sinal.
       Podemos distinguir dois tipos distintos de hormonas: as neuro-hormonas que so 
especficas para o tecido neurolgico, e as hormonas sistmicas que comunicam com as 
clulas dos outros tecidos. Existem, porm, alguns peptdeos que so simultaneamente 
neuro-hormonas e hormonas sistmicas.
       Nos organismos complexos, existem tecidos celulares especializados que tm 
como funo a secreo de substncias (hormonas e outras) - as glndulas. Conforme 
essas substncias sejam segregadas, para o interior do organismo, no sangue, ou para 
o exterior, assim se distinguem as glndulas endcrinas e excrinas e os dois 
sistemas a elas associados: sistema endcrino e sistema excrino. No sistema excrino 
incluem-se, por exemplo, as glndulas sudorparas, as lacrimais e as que libertam os 
sucos para o tubo digestivo (uma vez que este  exterior), No entanto, no nos vamos 
debruar sobre este sistema, mas sim sobre o sistema endcrino e as hormonas, que so 
os seus mensageiros.
       O sistema endcrino, como todas as clulas de um organismo vivo, no  tambm 
um sistema isolado, dando respostas em funo de sinais vindos tanto do meio exterior 
como do meio interno do prprio organismo. Assim, o estado de esprito de um 
indivduo, a sua condio fsica, ou melhor ainda, a sua condio psicofisiolgica, 
so um todo, do qual o sistema endcrino tambm faz parte e, em funo do qual, 
responde.


       Para que um ser se mantenha vivo  necessrio que permanea em equilbrio, 
dentro de determinados parmetros. Para que no se criem situaes de ruptura 
irreversveis - desequilbrio - existem mecanismos de auto-regulao, nomeadamente, 
no que se refere ao sistema hormonal, o chamado retrocontrolo. Assim, a segregao de 
uma determinada hormona no sangue (por uma razo determinada) faz-se sempre de uma 
forma controlada, ou seja, no se verifica indefinidamente, pois assim atingir-se-ia 
a situao de ruptura que conduziria  morte. Ento, a libertao dessa substncia 
induzir directa ou indirectamente a libertao de outra substncia que, por sua vez, 
ir inibir a secreo da primeira, fechando-se o ciclo e garantindo- -se o 
equilbrio.       No seguinte quadro incluem-se algumas hormonas, fazendo-se 
referncia aos efeitos principais que provocam, bem como a sua origem (onde so 
produzidas):       Hormona       Origem  Esterides  Progesterona  Ovrio (maioria   
            no corpo lteo);               Placenta  Testosterona  Testculos    
Cortsol                                 Supra-renais      Tiroxina                  
               Tirde  Efeitos principais   Diferenciao do tero na preparao 
para a implantao do embrio e manuteno da gravidez.  Maturao e manuteno da 
funo dos orgos sexuais masculinos; desenvolvimento dos caracteres masculinos.  
Influncia no metabolismo dos hidratos de carbono, protenas e lpidos; reduo de 
inflamaes e de respostas imunolgicas; aumento da resposta fisiolgica ao stress.  
Aumento da temperatura; regularo do metabolismo da glucose e de outros 
,combustveis"; expresso em genes e induo de sntese de enzimas.      tras 
hormonas  Prostaglandinas                 maioria das clulas  Contraco dos tecidos 
lisos.  ACTH                            Pituitria anterior  Estmulo do crtex 
adrenal    renocorticot                                      na produo de cortisol 
                                                     e aldosterona; hidrlise de     
                                                 lpidos dos tecidos adiposos.  FSH  
                           Pituitria anterior  Estimula o crescimento 
(Follicle-stimulating hormone)                       do ocito e do folculo e a     
                                                 sntese de estrogneo pelo folculo. 
 LH (Leutenizing hormone)        Pituit              Maturao do ocito;           
                                           estmulo da secreo                      
                                de estrogneo e proges                               
                       pelo folculo.                                                
       Secreo de tiroxina TSH (Thyroid-stimulating hormone)                        
                     pela tiride.  Vasopressina                    posterior        
    Absoro de gua da urina;                                                      
conscrio dos pequenos                                                      vasos 
sanguneos e aumento                                                      da tenso 
arterial.  TRH                                                  o de TSH             
                                         or.                        60  FIG. 11      
         Hipfise Posterior               ou neurohipfise  Sela turca              A 
maior parte das glndulas endcrinas perifricas (tiride, supra-renais, testculos 
no homem e ovrios na mulher) so controladas pelo lobo anterior da hipfise que est 
alojada na sela turca. Este segrega hormonas estimulantes que so transportadas por 
via sangunea at s glndulas alvo. O lobo posterior da hipfise armazena duas 
hormonas sintetizadas no hipotlamo. Uma delas, a oocitocina,  sintetizada e 
segregado por conjuntos de clulas nervosas situados na proximidade do quiasma 
ptico: as cpsulas supra- -pticas. A outra, a vasopresslna,  produzida e libertada 
por outros grupos de neurnios: as cpsulas paraventriculares. Estas duas hor- monas 
so transportadas ao longo dos axnios das clulas neurossecretoras, at ao lobo 
posterior da hipfise. Aqui, elas so armazenadas ou libertadas no sangue, conforme 
as necessidades.                    cpsulas               paraventriculares         
                 ventrculo suprac         FIG. ]L2                   Hipotlamo   TR 
                       -RH                     Hipfise       O sistema 
hipotalmico-hipofisirio est localizado na base do crebro. A hipfise ou glndula 
pituitria, pequena estrutura do tamanho de um gro, est ligada ao crebro (ao 
hipotlamo) pelo canal pituitrio. Esta glndula desempenha um papel primordial no 
sistema endcrino, uma vez que 4@ controla" (influencia e  influenciada) todas as 
outras glndulas. O hipotlamo, no to bem delimitado,  localizvel pela sua 
salincia mediana. Ele contm vrios conjuntos de clulas neurossecretoras. Entre 
estes conjuntos, as cpsulas supra-pticas e paraventriculares so as melhor 
individualizadas. Ligado a outras zonas do crebro, o hipotlamo recebe informaes 
sobre as modificaes do meio interno e do ambiente exterior. O sistema 
hipotalmico-hipofisirio  o responsvel pela interaco entre os sistemas endcrino 
e nervoso.
       FIG. 13            A fim de que as hormonas estejam disponveis quando 
necessrio, o organismo dispe de vrios nveis de regularo. O hipotlamo estimula a 
antero-hipfise na segregao e na sintetizaro de hormonas que, por sua vez, levam  
produo de hormonas atravs das suas glndulas respectivas. Por exemplo, a hormona 
LH (Leutenizing Hormone) - RH (Releasing Hormone) estimula as secrees de FSH 
(Follicle-Stimulating Hormone) e de LH, duas homonas gonadotrpicas. Na mulher, a FSH 
favorece a maturao do folculo nos ovrios e a produo de estrogneos,. enquanto 
que a LH desencadeia a ovulao e a produo de estrogneos e progesterona. No homem 
a FSH estimula a espermatognese e a LH favorece a produo de testosterona. Excepo 
 regra, a hormona do crescimento hipofisria GH (Growth Hormone) no actua sobre uma 
glndula. A sua aco sobre os ossos carece de outro peptdeo o IGF-1 (Insulinlike 
Growth Factor) produzido nomeadamente pelo fgado.
        As glndulas perifricas influenciam o sistema hipotlamo-hipofisrio.  um 
exemplo do j referido, retrocontrolo (feedback). Assim, o stress provoca o aumento 
da secreo supra-renal de cortisol, por intermdio do hipotlamo e da hipfise. Pelo 
contrrio, o teor elevado de cortisol trava a secreo do CRF (GH-RH) hipotalmico.  
                     62                                               FIG. 14        
                                       A tiride, composta por dois lobos ligados um 
ao outro, est situada na base do pescoo. As hormonas por ela libertadas transitam 
no sangue e irrigam o organismo, onde exercem efeitos diversos: controlo do 
metabolismo do crescimento e da maturao, do ritmo cardaco, da tenso arterial e 
temperatura. A insuficincia do funcionamento da tiride, ou a sua ausncia, provocam 
graves perturbaes. Na criana o hipotiroidismo induz, em particular, graves 
perturbaes no crescimento e no desenvolvimento psicomotor. Da, a preparao do 
teste de rastreios sistemticos nos recm-nascidos.
         As hormonas influenciam o humor ?  'il                                     
  'r@x-r<:> 4       teoria dos humores vem do tempo de Hipcrates. Sangue, linfa, 
blis amarela e blis negra, quatro humores diferentes para explicar as doenas. No 
sculo xvlli o jogo dos Ahumores permitia explicar os diferentes temperamentos e 
perturbaes psquicas. Ainda hoje se fala em temperamento bilioso e sanguneo.
            Mutatis mutands, os humores de outrora modernizam-se com as hormonas. 
Estas so correntemente invocados para explicar perturbaes psquicas e de "humor".
            Quase todas as hormonas actuam na esfera psico-afectiva. Testemunham-no 
as diversas patologias endcrinas: a hipersecresso da tiride torna as pessoas 
nervosas e irritveis. Alm disso, pode provocar perturbaes psquicas graves.
           Fadiga e depresso podem ser sintomas de hipotiroidismo ou insuficincia 
supra-renal. Na mulher, as variaes de humor, ao longo do cicio menstrual, parecem 
dever-se aos nveis de progesterona e estrogneos. O crebro segrega uma grande 
quantidade de neuropeptdeos, entre eles as endorfinas ou "morfinas do crebro", que 
tm efeitos importantes no psiquismo.

      Reciprocamente, as emoes fortes podem provocar uma modificao das secrees 
hormonais do crebro ou das glndulas endcrinas, nomeadamente das supra-renais. 
Portanto, um bom equilbrio hormonal parece ser a condio de um bom equilbrio 
mental. Mas estamos longe de poder afirmar que o homem est inteiramente submetido s 
suas hormonas. O homem  um ser social que aprende a controlar os seus humores e 
paixes. O homem biolgico no  uma mquina passiva.  igualmente um ser com 
vontade.                                     Cliristiane Sinding, Seience & Vie, 
Junho, 1984                          63       

4. 1. AS HORMONAS E O COMPORTAMENTO SEXUAL

       O hipotlamo desempenha um papel importante no comportamento sexual. Os 
factores internos (hormonas) e os externos (estmulos sensoriais) combinam-se para 
activar os centros excitadores do hipotlamo.
       No comportamento sexual, o hipotlamo exerce a sua actividade de dois modos: 
controla a secreo das hormonas da glndula pituitria e regula o fluxo dos impulsos 
nervosos dos centros excitadores sexuais.
       As primeiras experimentaes em que se seccionou por completo o tronco do 
encfalo de animais inferiores ensinaram-nos que o hipotlamo  uma rea importante 
no regulamento do comportamento sexual. Ao separar-se o hipotlamo do resto do tronco 
do encfalo desaparece o comportamento de copularo. Em seguida, efectuaram-se leses 
restritas no hipotlamo com o fim de localizar a rea do hipotlamo para o 
comportamento sexual, tendo-se realizado em machos e fmeas de vrias espcies. A 
concluso geral foi que a rea de integraro, ainda que no fosse definida 
exactamente, d-se na poro mais anterior do hipotlamo (Larsson e Heiner, 1964).
       Administrando hormonas a um indivduo com leses no hipotlamo anterior, no 
se conseguiu restaurar o seu comportamento copulador. Isto prova que se eliminou uma 
rea crucial do sistema nervoso necessria para o comportamento sexual, de modo que a 
alterao interna por aco de hormonas no pode recuperar o comportamento integrado.
       Pode concluir-se que relativamente a este estudo recorrendo a leses, o 
estmulo do hipotlamo anterior induz o comportamento sexual (Vaughan e Fisher, 
1962).
       No entanto, parece haver ainda muito por descobrir nesta rea, uma vez que o 
estmulo do hipotlamo posterior tambm participa no comportamento integrado 
(Caggiula e Hoebl, 1966).
      

5 A EVOLUO   

5.   1. LAMARCK E DARWIN -- FUNDADORES DO EVOLUCIONISMO  Conceitos de: Variabilidade 
- Adaptao - Seleco

       Nos princpios do sculo xix, em Frana, existia j um trabalho cientfico 
bastante bem elaborado de classificao das plantas e animais.  na sequncia desta 
investigao que surge a preocupao em organizar, a partir dos primeiros dados 
arqueolgicos recolhidos, uma teoria acerca das origens.  aqui que aparece Lamarck 
como precursor da teoria evolucionista: "Os animais mais imperfeitos, com organizao 
simples, aqueles que apenas esto dotados de animalidade, foi por eles, talvez, que a 
natureza comeou, com ajuda de muito tempo e circunstncias favorveis", escreveu 
Lamarck em 1800. Atribui-se-lhe, assim, a ideia de que as espcies actuais so 
produto de uma evoluo paralela, derivando umas das outras, mudando com o tempo e 
com as variaes do meio.
                       64       Segundo Lamarck, os seres vivos mais primitivos 
nasceram por gerao espontnea e a natureza produziu, a partir deles, os organismos 
mais complicados at atingir os mamferos. Lamarck distinguiu, entre os seres vivos, 
um certo nmero de massas naturais" onde se pode denotar um progresso contnuo. Com 
efeito, ele assinalou a importante etapa representada pela aquisio, nos animais 
primitivos, de um sistema nervoso que permite a irritabilidade e a vontade nos mais 
evoludos, ou seja, aqueles que possuem hemisfrios cerebrais.

      Lamarck no explica nitidamente como se efectuou o aperfeioamento no organismo 
dos seres vivos; segundo a sua teoria, os "fluidos internos" do animal podiam, sob 
certas influncias, edificar rgos novos nestas partes "susceptveis. Distinguiu 
duas "causas gerais deste aperfeioamento e desta complexificao na organizao dos 
seres vivos: uma tendncia primitiva da matria viva para o aperfeioamento e a 
influncia de circunstncias novas. Estas ltimas, modificariam as necessidades do 
animal, provando a aquisio de novos hbitos que, por sua vez, modificariam a sua 
organizao.   Jean Thodorids, Histoire de la Biologie, PUF, 1984.

              Mas  a Charles Darwin, celebrizado pela autoria da obra The Origln of 
Species by Means of Natural Selection (1859), que so atribudos os louros da teoria 
evolucionista.
       Nesta poca Lamarck estava bastante desacreditado, quer devido s fortes 
oposies da Igreja sustentadas por Cuvier (1769, 1832), zoologista e paleontologista 
defensor da imutabilidade das espcies, quer pela falta de clareza das suas teses.
       Darwin foi, sem dvida, o heri do evolucionismo, convencido acerca da 
variabilidade das espcies a partir de diversas observaes feitas ao longo da sua 
viagem de circum-navegao (existncia de fsseis de tatus semelhantes aos que vivem 
ainda na mesma regio na Amrica do Sul, presena no arquiplago de Galpagos de 
tartarugas diferentes, mas semelhantes em cada uma das ilhas, etc.), comparou habil- 
 Charles Darwin  mente esta variabilidade  observada nos animais domsticos e nas 
plantas cultivadas onde o homem criou raas novas, escolhendo como progenitores, 
durante geraes sucessivas, espcies que possuem um carcter determinado.
       Restava-lhe confirmar como esta seleco se operava na natureza, quando em 
1838 descobriu a obra de Malthus: On The Principal of Populatllon 1798, na qual o 
economista ingls demonstrava que toda a populao de seres vivos cresce mais 
depressa do que a quantidade de alimentao disponvel, concluindo acerca da 
existncia de uma concorrncia vital entre os indivduos e as espcies existentes, o 
que leva  sobrevivncia dos mais aptos.       Darwin relacionou estas ideias com as 
suas observaes sobre a variabilidade das espcies, deduzindo que a existncia de 
certos caracteres morfolgicos ou fisiolgicos nos indivduos  vantajosa na luta 
pela existncia.
       Estes caracteres transmitem-se hereditariamente aos seus descendentes, obra 
esta que a seleco natural faz espontaneamente e o criador de espcies domsticas 
faz, praticando a seleco artificial.
       ( ... ) Quando The Origin of Species... foi publicado em 1859, o sucesso da 
obra foi considervel (a primeira tiragem foi vendida numa semana) pois as ideias de 
Darwin estavam apoiadas em exemplos concretos, frutos da observao directa. Os 
conceitos de variabilidade, adaptao, domesticaro, luta pela vida e seleco 
baseavam-se em argumentos vindos da paleontologia e da embriologia (semelhana entre 
embries do mesmo grupo zoolgico, persistncia entre certas espcies de rgos 
rudimentares que so vestgios ancestrais). Jean Thodorids, op.cit.               
            r@x-rc> 5       prpria escolha da expresso "seleco natural mostra 
que Darwin quis insistir num facto que lhe parecia fundamental: a evoluo utiliza o 
mesmo material que os criadores      Ae esse material  constitudo pelas diferenas 
entre os indivduos.  na medida em que um carcter apresenta variabilidade que se 
pode esperar modific-lo por meio de cruzamentos orientados e  tambm nessa medida 
que ele evoluir espontaneamente no decurso das geraes.
           No processo natural, a aco deliberada do criador que escolhe os 
reprodutores  substituda pela competio entre os indivduos para terem acesso aos 
recursos necessrios  sua sobrevivncia e poderem procriar.           Assim 
apresentada, a teoria darwiniana parece ter a fora da evidncia. Suscita, no 
entanto, muitos problemas:

           - A variabilidade dos indivduos, sem a qual nenhuma evoluo se poderia 
instaurar,  sistematicamente reduzida pela prpria aco natural, pois esta favorece 
os indivduos que se encontram mais perto de certo tipo ideal correspondente s 
condies impostas pelo meio ambiente. Pouco a pouco, os seus descendentes 
aproximam-se desse tipo e a populao torna-se gradualmente homognea, o que retira 
todo o ponto de apoio  seleco. Por outro lado, a teoria das gmulas, admitida por 
Darwin para explicar a transmisso dos caracteres de pais para filhos, acarreta a 
reduo da variabilidade em cada gerao, uma vez que o filho representa a mdia dos 
pais. Ora a observao mostra-nos que, muito pelo contrrio, a disperso da maioria 
dos caracteres  extremamente ampla. Como se mantm essa disperso? E, sobretudo, 
como se instaurou?
           - Quando se fala da seleco do mais <apto,,, deve-se dar a essa 
<aptido,, um significado bem preciso e, na realidade, bastante estrito: trata-se da 
aptido para sobreviver e procriar. Um carcter s  seleccionado na medida em que 
intervm directamente nessa aptido. A expresso ,@valor selectivo,, que adoptmos 
no deve enganar-nos; em especial a palavra <valor>@, com todas as conotaes que 
comporta e que, por isso mesmo,  susceptvel de nos desorientar. Podemos afirmar que 
os melhores ganham a batalha da seleco desde que definamos como melhores aqueles 
que esto melhor preparados para ganhar. A teoria darwiniana j no  ento uma 
evidncia, mas sim uma tautologia.
A competio, a luta pela vida, no se instauram apenas entre indivduos, mas 
tambm entre populaes da mesma espcie ou de espcies diferentes, vivendo no mesmo 
meio.
      Determinado carcter, que desfavorece um indivduo na sua luta contra os seus 
semelhantes,      .pode favorecer uma populao em concorrncia com outras 
populaes.  o caso, por exemplo, dos @,genes do altrusmo,,, que parecem frequentes 
em certas sociedades animais. Esses genes so desfavorveis aos seus possuidores, 
porque os incitam a sacrificar a vida em proveito do bem comum, mas so favorveis  
comunidade, porque contribuem para lhe fornecer defensores desinteressados. Consoante 
as intensidades das competies que se instaurem a estes dois nveis, assim tais 
genes se espalharo ou desaparecero sem que o seu destino possa ser explicado 
simplesmente pelos seus valores selectivos.                                Albert 
Jacquard, Elogio da Diferena, Europa-Amrica, 1989

        5.2. um PRoLoNGAmENTo ABusivo:       O DARWINISMO SOCIAL

       A teoria de Darwin foi bem acolhida, no somente pelos seus contributos para 
uma nova verdade", mas tambm pela sua adequao s ideologias selectivas e 
concorrenciais de alguns economistas e socilogos da segunda metade do sc. xix. Os 
empresrios industriais sentiam a necessidade de uma teoria natural do progresso que 
fundamentasse o individualismo e o "triunfo dos melhores".
       Algumas filosofias economicistas do sc. xviii, a embriologia de von-Baer, a 
termodinmica, o evolucionismo biolgico-sociolgico de Spencer, fornecero ao 
liberalismo ocidental a matriz ideolgica que lhes servir de base. O darwinismo e, 
em particular, a teoria da seleco natural vai, assim, sujeitar-se a um oportunismo 
deformante - o chamado "darwinismo social", que representou o fundamento biolgico  
lei competitiva do mercado.

           6. A ETOLOGIA

       Contributos para a Compreenso dos Processos      Adaptativos Fsicos e 
Comportamentais        (;,l, O INSTINTO       As tartarugas martimas da costa 
oriental da Florida cavam pequenas covas na praia onde depositam os ovos. Estes abrem 
passado um perodo de incubao de cerca de 50 dias. As tartarugas bebs passam 3 a 5 
dias no ninho, encaminhando-se depois na direco do mar, e afastam- -se nadando. Por 
consequncia, diz-se que a tartaruga martima tem o instinto de se dirigir para  o 
mar.                                     67       Logo depois de os ovos de ganso 
abrirem, os gansinhos comeam a seguir a me para onde quer que v. Daqui, o dizer-se 
que os gansos bebs a seguem por instinto.
       A partir destes dois exemplos podemos enunciar as caractersticas atribudas 
ao comporta- mento instintivo:
            complexo.  No  como o simples reflexo rotular, em que um estmulo 
evoca uma resposta nica. O comportamento da tartaruga martima inclui actos como 
sair do ninho, orientar-se para o mar, mover-se pela praia, entrar na gua e nadar 
pelo mar dentro.
            estereotipado, ou seja, rigidamente modulado.  No existe variabilidade 
significativa entre os gansos bebs na maneira como seguem a me.
           No  aprendido.  As tartarugas no necessitam de prtica repetitiva para 
aprenderem a nadar.
            Encontra-se em todos os membros da mesma espcie. Todos os gansinhos 
seguem a me.
        Durante muito tempo, considerou-se que todos os comportamentos animais se 
reduziam ao instinto, consistindo este numa espcie de caracterstica imutvel e 
perfeita de todos os comportamentos animais (motores, sociais, alimentares e 
sexuais).
       No entanto, como j referimos anteriormente, as teorias evolucionistas de 
Lamarck e de Darwin contriburam para a constataro da existncia de evoluo nas 
caractersticas fsicas dos animais, que se traduz atravs da seleco das espcies, 
por adaptao dos organismos s modificaes ambientais.
       A Etologia, que surgiu como reaco contra as experimentaes da psicologia 
animal, desliga- das do real e exclusivamente centradas no laboratrio, como a dos 
Reflexologistas e dos Behavioristas, veio a revelar a existncia de uma 
complementaridade entre instinto e aprendizagem.       Konrad Lorenz e Tinbergen so 
os nomes mais destacados do "grupo Seewisen" lanando as bases tericas desta cincia 
que, ao investigarem em "laboratrio natural", onde se reproduziam o mais fielmente 
possvel as condies da natureza, permitiram uma anlise pormenorizada das 
motivaes e funes comportamentais: desse modo, se precisou o conceito de 
"Impregnao" (Prgung), dado por K. Lorenz a partir (Ias suas observaes em 
Anatdeos e Corvdeos e por ele definido como "a fixao de um instinto no seu 
objecto, ocorrendo num perodo sensvel do desenvolvimento"; bem como a noo de 
"estmulos-sinais especficos" decorrente, em parte, dos trabalhos de Tlnbergen com 
um pequeno peixe, o esgana-gata de trs espinhos.
       Para tentar entender o comportamento instintivo temos de identificar primeiro 
os estmulos que provocaram a reaco. Na linguagem dos etlogos, qual  o 
"estmulo-sinal especfico" (estmulo que desencadeia o comportamento instintivo) 
para a tartaruga se encaminhar para o mar? As tartarugas emigram para o oceano em 
noites de luar. Como o mar reflecte mais luar que a areia, ele  nessas noites a 
parte mais clara do ambiente da tartaruga. A hiptese de que as tartarugas pudessem 
estar a responder  luz foi confirmada por uma quantidade de experincias diferentes. 
Um capuz opaco colocado ni cabea de uma tartaruga que se dirigia para a gua 
impediu-a de atingir o destino. As tartarugas bebs tiradas dos ninhos em noites sem 
luar moviam-se  deriva, mas seguiam um ralo de luz colocado diante delas mesmo 
quando este as levava na direco oposta ao mar.
        evidente que o comportamento instintivo no opera independentemente da 
estimularo ambiental: resulta da reaco do organismo a estmulos externos 
apropriados.

       Os gansos acabados de nascer seguem qualquer objecto em movimento. Konrad 
Lorenz criou- -os numa incubadora e verificou que ao sarem da casca o seguiam como  
me ganso. Seguiram- -no e continuaram a proceder assim. Este tipo de fenmeno, em 
que a resposta do organismo muito jovem  desencadeado pelo estmulo natural ou por 
um substituto experimental, denomina-se impregnao. O primeiro objecto em movimento 
a que o ganso recm-nascido  exposto "imprime- -se" nele de um modo to decisivo 
que, a partir de ento, se torna o estmulo desencadeador da reaco instintiva. O 
objecto em movimento  o estmulo-sinal para a resposta dos gansos bebs.            
       Konrad Lorenz - Premio Nobel da Fisiologia (1973) realizando a famosa 
experincia com os gansos.
         Na medida em que os gansos so capazes de seguir o primeiro objecto que 
percepcionam em movimento, est demonstrado que a alterao dos estmulos externos 
acarreta a modificao do comportamento instintivo. Assim, a etologia, ao constatar 
que  possvel modificar consideravelmente os comportamentos instintivos animais 
desde que se conhea e controle os estmulos originadores, contribui para a 
clarificao de que o instinto no  imutvel nem perfeito.
       O estudo da psicologia humana pode, tambm, enriquecer-se com os contributos 
da etologia, pois, independentemente de todas as aquisies (Ia nossa espcie, das 
suas potencialidades psquicas, as leis fundamentais que regem os nossos 
comportamentos so idnticas s dos outros vertebrados. O estudo dos mecanismos 
comportamentais nos peixes ou nas aves e as experincias sobre o papel da adaptao e 
socializao entre os niacicos demonstram o interesse da colabora- o entre 
ecologistas e psiclogos.
       Tambm a anlise do comportamento instintivo nos leva, necessariamente, a 
colocar a seguinte questo: ser que o homem possui actividade instintiva?  Em 
resposta a esta questo leia-se o seguinte texto do psiclogo norte-americano Howard 
Kendler:
                      r @ x -r<:>               HA INSTINTOS HUMANOS?
       evidente a importncia de uma definio operacional de instinto, ou seja, 
daquilo a que certos autores preferem chamar comportamento caracterstico da espcie. 
Sabendo Eexactamente o que se quer significar por instinto, pode ento examinar-se o 
repertrio de comportamentos humanos com vista a encontrar algum exemplo do mesmo.
           O comportamento instintivo  complexo, estereotipado, no aprendido e 
universal para todos os membros da espcie. Que tipo de comportamento humano  
susceptvel de satisfazer tais requisitos?
           Durante a gravidez, a rata de laboratrio constri o ninho com aparas de 
madeira ou outro material disponvel. Depois do nascimento dos filhos, tem 
habitualmente o devido cuidado com eles, dando-lhes mama e, se saltam fora do ninho, 
indo-os buscar e transportando-os suavemente na boca. Existe um instinto materno na 
mulher comparvel em complexidade e estereotipia, no por virem, em breve, a ser 
mes. Desde a legalizao do aborto, uma percentagem considervel de mulheres 
grvidas preferem pr termo  gravidez.
           O comportamento sexual humano, como a conduta maternal, no pode ser 
classificado de comportamento instintivo. No  independente da prtica especfica 
como, por exemplo, o do rato, nem  estereotipado. O modelo minucioso de 
comportamento sexualmente satisfatrio tpico de uma sociedade pode ocorrer raramente 
ou nunca noutra sociedade.

           Enquanto admitirmos as caractersticas de comportamento instintivo sobre 
as quais insistimos,  impossvel descobrir qualquer tipo de comportamento complexo 
humano e adulto que possa classificar-se como instinto. No  de admirar, se 
considerarmos que o nosso crebro  muito mais complexo que o dos organismos em que 
se encontra o comportamento instintivo nas suas formas mais complexas e rgidas. O 
comportamento humano  mais varivel, e mais fcil e profundamente afectado pela 
aprendizagem do que o comportamento dos organismos inferiores. Enquanto a 
sobrevivncia dos organismos inferiores depende de modelos instintivos rgidos de 
comportamento que os habilita a adaptar-se ao ambiente, a sobrevivncia da raa 
humana repousa mais sobre a capacidade de modificar e controlar o ambiente do que em 
adaptar-se-lhe.
                           Howard Kendler, Introduo  Psicologia, Gulbenkian, 1980

           6.2. CARACTERISTICAS COMPORTAMENTAIS LIGADAS            A ADAPTA@@'@l O 
DOS ORGANISMOS

       A etologia, ao apoiar-se na taxonomia, na filognese e na gentica, estabelece 
o estudo dos aspectos evolutivos do comportamento.  Assim como a anatomia comparada 
demonstrou a evoluo da estrutura dos organismos, a etologia comparada revelou a 
diversidade e a evoluo dos comportamentos. Tanto as evolues morfolgicas, como as 
comportamentais, so ajustamentos resultantes da presso de foras selectivas do 
meio. Sabe-se que, geneticamente, os diferentes indivduos da mesma espcie diferem 
ligeiramente uns dos outros. A seleco natural favorece os indivduos melhor 
ajustados ao meio. A variabilidade gentica sobre a qual, e pela qual, se exerce a 
seleco natural, d-se num processo contnuo de manuteno e recriao. O meio, por 
seu lado, ao mudar, obriga a um acompanhamento das espcies sujeitas a uma nova 
adaptao. Assim, a adaptao implica mudana e evoluo.       Na medida em que a 
seleco natural actua ao nvel dos comportamentos para os adaptar ao meio, pode 
concluir-se que um determinado comportamento observado num dado momento  vantajoso 
para o animal e contribui para a sua sobrevivncia. Deste modo, s questes clssicas 
da fisiologia: "como funciona o organismo?" e "quais os mecanismos que desencadeiam, 
orientam, mantm e travam tal comportamento?", os ecologistas acrescentam:
           De que modo um comportamento observado num animal influi na sua 
sobrevivncia e xito adaptativo?
           O que  que faz com que este comportamento ocorra neste dado momento e 
qual o seu mecanismo?
       Como se desenvolve este mecanismo quando o indivduo cresce?
            Qual o percurso evolutivo dos sistemas de comportamento de cada espcie 
at se atingir o estado actual?
        A etologia, ao procurar o efeito vantajoso dum comportamento observado no 
momento presente, investiga a sua causa. O facto presente tem uma causa que ter 
efeito no futuro.
       Segundo a definio do etlogo Hinde em 1970, "a etologia intenta proceder ao 
estudo da funo adaptativa, da causalidade imediata (externa e interna), da 
filognese e ontognese dos comportamentos, numa perspectiva integrada.
         6.3. ACTIVIDADES DE DESVIO            E ACTIVIDADES DIRIGIDAS       
Tinbergen descreveu a seguinte experincia: uma gaivota prateada, motivada para 
chocar os ovos, encontra o lugar do choco j ocupado, o que lhe desperta uma 
actividade substitutiva que consiste em transportar e oferecer ao animal ocupante 
materiais de nidificao. Esta actividade de desvio substituta da actividade dirigida 
surge como um "esquema motor" brusco e acentuado em relao ao seu processamento 
normal, susceptvel de revestir diversos graus de intensidade, determinados pelo 
prprio grau de tenso conflitiva que lhe est na origem (Tinbergen).
       No Homem so frequentes actividades de desvio em situaes de tenso, 
perplexidade e ansiedade, como, por exemplo, um coar de substituio (coar a 
cabea, esfregar os olhos) ou comportamentos alimentares deslocados (sugar objectos, 
roer as unhas).

        de salientar o facto de, tanto nos animais como no Homem, estas actividades 
de desvio estarem na origem de esquemas motores mais complexos, traduzidos atravs de 
ritualizaes sociais prprias da espcie, ou de um determinado grupo social humano. 
                      71                  'lr@x-lrc> 7'       notvel verificar de 
que maneira, numa ritualizao cultural, os dois passos que levam, em primeiro lugar 
da comunicao ao domnio da agresso e, depois,  formao dum Elao, so 
perfeitamente anlogos s duas fases da evoluo dos ritos instintivos.
      Exemplifiquei essa analogia (...       ) pelo cerimonial de triunfo dos gansos. 
A tripla funo de suprimir as lutas no interior do grupo, consolidar a unidade do 
grupo e opor o grupo enquanto entidade independente a outros grupos semelhantes, essa 
tripla funo  garantida pelos ritos culturais de modo to perfeitamente anlogo que 
vaie a pena interessarmo-nos pelo caso de mais perto.
           Todo o grupo humano demasiado grande para ser cimentado pelo amor e pela 
amizade pessoais depende, para existir, dessas trs funes dos modos de 
comportamento, ritualizados graas  cultura. O comportamento social do homem est de 
tal modo penetrado da ritualizao cultural que esta, devido  sua omnipresena, j 
no nos  perceptvel. Isto leva to longe que, para darmos exemplos de 
comportamentos de cuja ritualizao no estamos certos, nos devemos limitar queles 
que no  suposto fazer em pblico, tais como bocejar ou espreguiar-se sem 
cerimnia, meter o dedo no nariz ou coar-se em stios inconfessveis. Tudo aquilo a 
que se chamam boas maneiras , claro est, estritamente determinado pela ritualizao 
cultural. As ,<boas,> maneiras so, por definio, as do nosso prprio grupo e 
conformamo-nos constantemente s suas exigncias; tornam-se para ns numa segunda 
natureza. Normalmente, j no nos damos conta de que a sua funo  inibir a agresso 
ou criar um lao.  no entanto a este efeito que os socilogos chamam a <,coeso do 
grupo,.
                  Konrad Lorenz, A Agresso - uma Histria Natural, Moraes Ed., 
Lisboa, 1973

              6.4. A HABITUAO

       Para alm de tudo que j foi considerado anteriormente, as investigaes 
ecolgicas contribuem tambm para uma clarificao acerca do conceito de hbito.
       Se a aprendizagem consiste num "processo de modificao e de adaptao do 
indivduo resultante da experincia" (K. Lorenz), ento, considera-se que o processo 
de habituaro face a novas circunstncias consiste na aquisio de novas respostas e 
a perda das anteriores.
       No entanto, este conceito vai ser melhor elucidado no captulo referente  
Aprendizagem, uma vez que a aquisio de hbitos ou a eliminao de certos 
comportamentos podem ter causas mais complexas que convm analisar.

7. A GENTICA

       O conceito de hereditariedade desempenha, entre as cincias biolgicas, uma 
posio central e unificadora. A base fsica da hereditariedade parece ser a mesma em 
quase todas as formas de vida, dos vrus e microrganismos at ao homem. Este conceito 
desempenha igualmente um papel preponderante nos controversos problemas sociais e 
culturais que envolvem diferenas sexuais, raciais e de classe.
       Desde 1960 que muitas experincias tm confirmado amplamente a hiptese de que 
o cido desoxirribonucleico - DNA - existente nos cromossomas  o material que 
transmite a informao hereditria de uma gerao para outra. Com excepo de alguns 
vrus onde o veculo de informao hereditria parece ser o cido ribonucleico - RNA 
- (os retro-vrus), em todos os organismos biolgicos se encontra o mecanismo do DNA. 
 O estudo da hereditariedade constitui, assim, um tema fundamental de toda a 
biologia.

       Grande nmero das interrogaes histricas bsicas da biologia encontram 
resposta nos mecanismos da hereditariedade, particularmente o processo de alterao 
evolutiva em populaes de organismos. Sem um slido conhecimento da hereditariedade 
e da produo de variaes hereditrias, o mecanismo mais importante da evoluo, a 
seleco natural, teria pouco significado.

     7.   1. HEREDITARIEDADE MENDELIANA:      SUA DESCOBERTA E IMPORTNCIA

        Uma das muitas teorias da hereditariedade que no suscitaram grande ateno 
entre os bilogos do sc. xix foi a do monge austraco Gregor Mendel (1822-1884). 
Mendel tinha um conhecimento limitado dos fenmenos da hereditariedade e dispunha de 
uma certa preparao em fsica matemtica elementar. Supunha que todos os fenmenos 
hereditrios, de cuja complexidade s tinha uma vaga conscincia, podiam ser 
considerados como resultado de um simples esquema quantitativo repetido, do tipo 
encontrado nas leis da fsica elementar. Assim, todos os que sabiam mais do que 
Mendel sobre os fenmenos da hereditariedade no deram importncia ao seus 
resultados.                
       No entanto, Mendel, ao seleccionar para as suas experincias a ervilha vul ar 
(1865), obteve resultados que s no princpio do sc. xx revolucionaram as ideias 
sobre a hereditariedade. Entretanto, os mecanismos da fecundao (1877), da diviso 
celular - mitose (1879) e da meiose (1882) - comearam a delinear-se. Pouco tempo 
depois, o interesse pelas mutaes (1905) refora a curiosidade pelos resultados de 
Mendel e permite a Thomas Hunt Morgan (1866-1945) a publicao em 1915 da obra O 
Mecanismo da Hereditariedade Mendeliana, onde estabelece o que so regies de 
cromossomas e genes que transmitem a informao necessria  realizao, pelo menos 
parcial, dos caracteres. Assim, nasceu uma nova cincia, a Gentica.

          7.2. HEREDITARIEDADE DA ESPCIE E HEREDITARIEDADE INDIVIDUAL

       Podemos considerar dois tipos de hereditariedade: uma  a hereditariedade 
especfica da espcie que caracteriza todos os membros de uma mesma espcie. A 
hereditariedade especfica  o que faz com que cada espcie - cavalo, mosca, co, 
homem - parea diferente de qualquer outra e actue tambm de forma diferente.  ainda 
o que faz com que uma espcie no se possa cruzar com outra e garanta a sua 
continuidade nas geraes. O outro tipo de hereditariedade refere-se  existncia de 
variaes que fazem com que os indivduos sejam diferentes, dentro da mesma espcie - 
hereditariedade individual.

          7.3. CROMOSSOMAS E GENES

       Durante a diviso das clulas que possuem ncleo individualizado (clulas 
eucariotas), podem observar-se ao microscpio ptico os seus cromossomas. Foi em 1888 
que Waldeyer usou pela primeira vez o termo cromossoma (que significa corpo 
colorido), embora tal estrutura j fosse conhecida desde 1840. Note-se que, quando 
uma clula no est em diviso, os cromossomas no esto condensados e, por isso, no 
so observveis como estruturas individualizadas, passando a denominar-se cromatina 
ao emaranhado de fibras coradas.
       O conjunto de cromossomas de cada clula, caracterizado pelo seu nmero, forma 
e tamanho, chama-se caritipo. O caritipo  especfico de cada espcie, ou seja, 
espcies diferentes possuem caritipos diferentes (de notar que existem ciritipos 
diferentes dentro de uma mesma espcie,  o caso dos sexos ou de determinadas 
mutaes). A diviso celular ou a reproduo de uma espcie, sexuada ou no, tem de 
garantir que todas as clulas matenham o mesmo material cromossmico, assegurando-se, 
assim, a continuidade de geraes.

       Assim, so os cromossomas as entidades responsveis pela continuidade das 
caractersticas existentes nos organismos, ao longo das sucessivas geraes.  tambm 
nos cromossomas que est contida a informao que garante o funcionamento de todas as 
clulas. A constituio dos cromossomas assenta estruturalmente numa molcula - o DNA 
(cido desoxirribonucleico - macromolcula que forma um filamento com estrutura de 
dupla-hlice) envolta em protenas (bsicas).  esta entidade qumica - cromossomas - 
que consegue viabilizar os organismos vivos.
       A informao contida nos cromossomas resulta da ordenao de uma enorme 
quantidade de subunidades de informao, denominadas genes. Pelo que se pode afirmar: 
 nos cromossomas que est contida a informao gentica.         Mas o que so, de 
facto, genes?
       A definio de gene tem vrias facetas, conforme o ramo da cincia que o 
estuda. Assim, podem encontrar-se definies de gene tais como: poro cromossomtica 
que pode ser separada da tyizinha por recombinao (engenharia gentica); toda a 
sequncia de DNA que promove a sntese dum peptdeo simples (biologia molecular); ou 
ainda, como uma entidade biolgica que se pode detectar observando o efeito numa 
mutao.
       Fiquemos, pois, com a ideia de que os genes so subunidades de informao que 
no seu conjunto formam um cromossoma.
         Como determinam os genes a hereditariedade?
       A resposta a esta questo continua a ser objecto de investigao da comunidade 
cientfica. Podemos, no entanto, fazer referncia a algumas das suas caractersticas.
       Consideremos os seres dipldes, que significa que em todas as clulas 
somticas (i.e., no sexuais), cada cromossoma tem o seu homlogo, ou equivalente: um 
proveniente do pai e outro da me, que na fecundao se juntaram para formar o zigoto 
que, por sua vez, se desenvolveu por mitoses sucessivas at produzir o organismo (ao 
contrrio, os seres haplides no possuem pares de cromossomas homlogos).
       Convm salientar que as clulas sexuais resultam da meiose, processo de 
diviso celular que, partindo de clulas diplides, obtm clulas haplides. S 
assim, quando da fecundao (fuso da clulas sexuais ou gmetas), se garante que o 
nmero de cromossomas se mantenha igual de gerao para gerao. Baseando-se neste 
facto, a teoria Mendeliana tornou-se coerente e clara.
       Quais as implicaes resultantes da existncia de cromossomas homlogos na 
mesma clula? - A primeira concluso a tirar : existem sempre dois genes diferentes 
(um do pai e outro da me) que tm a mesma funo, o que representa uma vantagem do 
ponto de vista de sobrevivncia: em determinadas circunstncias, se um gene estiver 
lesado, o outro pode garantir a viabilidade do organismo.
        Consideremos agora o exemplo clssico da cor dos olhos. Existem dois genes 
que governam a cor dos olhos, mas pode dar-se o caso de um originar olhos azuis e 
outro castanhos. No entanto, verifica-se que, se o gentipo (ver gentipo e fentipo 
no ponto seguinte) de um dos progenitores er for azul e o do outro castanho, o 
fentipo (aparncia) resultante  sempre de olhos castanhos, ou seja, o gene olhos 
castanhos  o que se manifesta, domina. Para que o fentipo - seja olhos azuis -  
ento necessrio que o gentipo seja - azul do pai e azul da me. Este facto 
explica-se facilmente, recorrendo ao conceito de gene dominante (o que se manifesta 
sempre fenotpica- mente desde que esteja presente) e de gene recessivo (que se 
manifesta quando s este est presente).
       Consideremos o esquema que explica o observado por Mendel e em que 'A' 
representa o gene dominante e 'a' o gene recessivo:

                                                      FIG.15                         
                      Os progenitores possuem genes iguais e, por isso, os seus 
gmetas so todos 'A' ou todos 'a'. Na primeira gerao de filhos (FI), todos 
apresentam o mesmo fentipo que o progenitor 'AA'. No entanto, na segunda gerao, 
como existem gmetas 'A' e 'a', de quatro indivduos, um pode ter fentipo diferente 
dos pais e igual ao de um av, isto , tem gentipo'aa'.
           Retomemos a complexidade celular, lembrando que cada clula humana possui 
milhares de genes, dos quais s alguns se manifestam, dependendo do estado 
desenvolvimento do indivduo e das condies ambientais. No momento actual da 
cincia, conhecem-se em pormenor alguns dos genes existentes, mas permanece a grande 
questo: quando, porqu e como se manifestam os genes?

         7.4. GENTIPO E FENTIPO

      Foi em 1909 que o botnico dinamarqus Wihelm Johannsen separou nitidamente 
gentipo de fentipo. O gentipo  o material gentico herdado por um organismo, 
estando presente uma cpia completa em cada clula do seu corpo, (com excepo das 
clulas sexuais resultantes da meiose, os gmetas). Mas, obviamente, um complexo 
processo de desenvolvimento e crescimento ocorre, entre a primeira clula e o 
organismo ou animal desenvolvido, que manifesta as suas prprias caractersticas 
morfolgicas. A estas caractersticas W. Johannsen designou por fentipo.
                Entre um dos progenitores, suponhamos a me, E? a criana, o lao 
biolgico resulta do seguinte:
                -    o patrimnio gentico da me influencia uma determinada 
caracterstica observvel nela;
                -    uma cpia de metade desse patrimnio  remetida para a criana;
                - o patrimnio gentico da criana, completado por uma segunda parte 
equivalente proveniente do pai, influencia a mesma caracterstica da criana.
                Todos os raciocnios que tentem explicar o lao existente entre a me 
e a criana tornam-se necessariamente complexos, devido  existncia irredutvel 
destas trs etapas, cada uma das quais exige uma anlise delicada: em que consiste a 
@influncia,> do patrimnio gentico na caracterstica manifestada pelo indivduo? 
Como  determinada metade desse patrimnio efectivamente transmitido?
                A esta ltima questo, podemos dar uma resposta simples, desde que 
no tentemos penetrar no emaranhado dos mecanismos bioqumicos que conduzem  
@,escolha,> de um dos dois genes que existem em cada locus. O nmero dos possveis  
t;cto elevado que nem d para referi-lo. (...              )           Esse nmero  
igual a 2n para um conjunto de n locus, ou seja, o equivalente ao <@infinito>, (no 
sentido fsico e no matemtico da palavra) logo que n ultrapassa algumas centenas. 
Para utilizarmos uma comparao, assinalemos que o tempo que passou desde o Big Bang 
comporta <,apenas,> 500 milhes de milhares de milhes de segundos; ora, bastam 60 
locus heterozigticos para que possam ser produzidos muito mais gmetas todos 
diferentes.
                No h portanto outra via a no ser a do raciocnio probabilista. 
Renunciando a prever o que ser efectivamente transmitido, limitamo-nos a admitir que 
cada gene, quer venha de um ou de outro dos genitores, tem uma probabilidade de ser 
transmitido igual a 12.  essa, alis, a essncia das ,leis>, de Mendel. Observemos 
que poderamos adoptar outras probabilidades, privilegiando o
          gene que teve esta ou aquela origem; mas tambm nesse caso precisaramos de 
um argumento a favor de uma outra distribuio das possibilidades. A escolha de 
probabilidades iguais resultou, de
          incio, de uma ausncia de argumentos; depois, a sua justeza foi confirmada 
pela convergncia existente entre as observaes e as consequncias dessa escolha.

               Em contrapartida, a questo relacionada com a <influncia,, do 
patrimnio gentico no pode receber respostas globais, to diversos so os casos 
possveis e, sobretudo, to difcil  a formulao do problema. Com efeito, vemo-nos 
confrontados com duas realidades de naturezas bem distintas:
               o patrimnio gentico, que  um conjunto unidimensional de estruturas 
qumicas elementares, situadas segundo uma certa ordem na fita de ADN; e a 
caracterstica realizada, por exemplo um metabolismo ou um rgo. Ora, este ltimo 
tem no s de ganhar uma certa forma no nosso espao a trs dimenses, mas tem tambm 
de se modificar em funo do relgio interno do indivduo, o qual ritma o seu 
desenvolvimento, a maturidade, a senescncia.
               A partir de um dado fornecido num espao a uma dimenso, obtm-se um 
resultado que s pode ser descrito num espao a quatro dimenses!
               Como  evidente, acontece por vezes que a correspondncia entre a 
presena de um determinado gene e a manifestao de uma determinada caracterstica  
unvoca; s que esta equivalncia raramente se verifica, pela simples razo de que o 
indivduo possui, para cada carcter elementar, no um gene, mas dois. Mesmo no caso 
da cor das ervilhas estudadas por
Mendel, particularmente simples e que se tornou histrico, a correspondncia no  
unvoca. Com efeito, os genes presentes no locus que rege essa cor so de duas 
categorias (cada uma  trs gentipos:jj, jv, vv, ao passo que fentipos, h dois: 
amarelo, J, e verde, V A correspondncia jj
                                             jv    J
                                             vv- V

          mostra que v no se manifesta quando j est presente: diz-se que v  
<,recessivo@@ perante j, que  dominante,>; o heterozigtico jv corresponde ao mesmo 
fentipo que o homozigtico jj. Em tal caso, o conhecimento do gentipo implica o 
conhecimento do fentipo, mas a recproca no  verdadeira. O lao entre procriado e 
genitores pode por isso parecer paradoxal: dois pais J podem procriar um V (basta que 
tenham sido ambos jv e que tenham transmitido o seu gene v).
          Exemplos cuja explicao  simples, mas que, para os interessados, so 
dramticos, so-nos fornecidos por inmeras doenas ditas <genticas; esto 
presentes dois aielos, um n, que desencadeia o metabolismo normal, o outro, m, que 
sofreu uma mutao que impede a realizao desse metabolismo; a correspondncia 
gentipo-fentipo  ento:

                                   t7n  so
                                   llm   so
                                   tnm - doente.

          Quando a doena  de tal tipo que as crianas afectadas no conseguem 
chegar  idade adulta, todos os doentes nascem de casais sos. O trao em causa 
resulta de um processo rigorosamente gentico, e no entanto parece no ser 
transmissvel.

                    Albert Jacquard, A Herana da Liberdade, D. Quixote, 1988


     7.5. INTERACO ENTRE HEREDITARIEDADE E MEIO

     Em que medida so hereditrias certas doenas ou as predisposies para elas? A 
inteligncia  hereditria? E a capacidade musical? O temperamento  hereditrio? As 
classes sociais, os sexos e as raas diferenciam-se pela capacidade mental 
hereditria? A dificuldade das respostas  intrnseca aos problemas levantados pelas 
investigaes e resultados da gentica. O estudo da hereditariedade no homem 
relaciona-se, de muito perto, com ideias relativas ao seu aperfeioamento biolgico e 
social.


     Entre 1880 e 1890, Francls Galton revelara o conceito de eugentica como ramo da 
gentica que pretendia o aperfeioamento da espcie humana, seleccionando os melhores 
e excluindo os piores. Galton, como a maior parte dos socilogos com conhecimentos de 
biologia, acreditava que
caracteres humanos importantes, como t inteligncia ou a tendncia para a 
criminalidade, eram fundamentalmente hereditrios.

     Introduzidos por Galton e Binet, os testes de inteligncia revelaram-se para 
muitos psiclogos um instrumento vlido para medir a inteligncia inata. Esta 
convico reflectia a opinio corrente na poca. Os geneticistas partidrios da 
eugentica puseram, como  bvio, a hiptese de a
inteligncia ser herdada, exactamente como a cor dos olhos, da pele ou dos cabelos, 
admitindo, no entanto, que o mecanismo em jogo era mais complexo. Estes geneticistas 
argumentavam que se devia impedir a reproduo de indivduos com baixo nvel de 
inteligncia, porque "nenhuma estimulao ambiental poderia melhorar uma deficincia 
mental herdada".

     Em 1927, os geneticistas alemes Eugen Fisher, Erwln Baur e Fritz Lenz, 
publicaram um livro sobre a hereditariedade que viria a ser considerado o mais 
completo tratado sobre o assunto at ao fim da Segunda Guerra Mundial. Ilara alm de 
conter uma exaustiva apresentao dos princpios gerais da hereditariedade, continha 
igualmente, numerosos exemplos de um
radicalismo eugentico que em breve havia de encontrai- terreno frtil na Alemanha 
nazi.

     A Segunda Guerra Mundial teve um impacto decisivo sobre a gentica humana. De 
facto, as atrocidades nazis tiveram o efeito de separar a gentica humana da 
eugentica e a teoria social do determinismo biolgico. Os geneticistas no queriam 
ser associados ao racismo e  eugentica.
Assim, a gentica humana aproximou-se muito mais da medicina.

     Hoje, um grande nmero de investigaes sobre o problema da interaco da 
hereditariedade com o meio revelou que nenhuma certeza cientfica pode afirmar se a 
diferena de capacidades intelectuais observadas entre os sexos e as raas tem uma 
origem genotpica ou ambiental. Pode
dizer-se o mesmo acerca de outras caractersticas comportamentais como a 
criatividade, apetncia para determinadas profisses ou predisposio para a 
criminalidade, etc. As provas indispensveis para dividir com preciso a influncia 
dos diferentes componentes no so possveis nas sociedades actuais, dado que, nestas 
existe uma grande complexidade rcica e tnica, estando em jogo inmeros factores 
determinantes.

     Devemos ainda salientar que a Sociobiologia, criada por Edward Wilson, forneceu 
explicaes eficazes em relao ao fundamento biolgico do comportamento social nas 
hymenoptera (formigas, abelhas e vespas). No entanto, quando em 1975 ao publicar 
Socioblology, the New Synthesis, que pretende o estudo sistemtico do fundamento 
biolgico de todo e qualquer
comportamento social, evidenciou as consequncias da sua aplicabilidade crescente 
para as sociedades humanas, gerando-se novamente uma ideologia sujeita a discusses e 
controvrsias, uma vez que esta nova cincia pretende determinar a hereditariedade de 
comportamentos particulares como, por exemplo, a agresso ou averso ao incesto.
     esta questo levou a um longo debate que repercute a controvrsia 
natura-cultura. H quem considere que aquilo em que nos tornamos depois do nascimento 
 fruto, E principalmente, do meio e da aprendizagem. De modo alternativo, h quem 
pense que o principal rumo do desenvolvimento humano , em grande medida, 
predeterminado pela nossa prpria natureza biolgica hereditria, um desabrochar de 
potencialidades que sempre existiram.

          (...      ) Tomemos, por exemplo, o desenvolvimento motor. Sero o andar e 
o agarrar aprendidos, pelo menos em parte, ou a sua emergncia reflectir a 
consequncia de um programa de maturao que obedece meramente a um conjunto de 
instrues genticas includas na clula fertilizada? Podem pr-se questes 
semelhantes acerca do desenvolvimento cognitivo e social. A medida que a criana se 
desenvolve, ela cresce dum modo que a levar a percepcionar, lembrar, pensar, falar e 
interagir com os outros. Sero mudanas fundamentalmente causadas pelo modo como a 
criana  moldada pelo meio (cultura) ou pela sua constituio biolgica (natura)?

          No surpreende que quase toda a gente admita que @i resposta no pode ser 
de tudo ou nada, pois e certo que nem natura nem cultura podem actuar sozinhas. Seja 
qual for a importncia do papel do ambiente e da aprendizagem, estes no tero efeito 
sem o potencial gentico: no h maneira nenhuma de ensinar um gato a compor sonatas. 
Do mesmo modo o potencial gentico no pode exprimir-se sem um meio apropriado. Isaac 
Newton no poderia ter reescrito as leis do universo fsico se tivesse sido mantido 
numa caixa escura e  prova de som, desde o nascimento

at  idade adulta. Tais exemplos hipotticos podem demonstrar que tanto a 
hereditariedade como
o meio so necessrios e que ambos tm de actuar concertadamente. Mas os exemplos 
dizem
pouco sobre o papel de cada um e do modo como exercem os seus efeitos.
     A aco conjunta do potencial gentico e do meio em que esse potencial se 
expressa  muitas
vezes descrita pela afirmao de que "hereditariedade e meio interagem".
                                   H.   Gleitmann, Psicologia, Gulbenkian, 1993


Dos aspectos que mais ateno tm despertado a psiclogos e educadores,
poucos haver que tenham provocado mais polmica do que a questo de saber
em que grau a inteligncia dos indivduos  determinada pela hereditariedade ou
pelas influncias do meio.
     (... ) Dos estudos efectuados neste domnio, com base em inmeros dados 
recolhidos, verificou-
-se que o ndice de semelhana calculado a partir dos coeficientes de correlao dos 
QI era, para
os gmeos verdadeiros (monozigticos) educados em conjunto, de 77%, passando para 56% 
para
os gmeos verdadeiros educados em separado e para 28% para os gmeos fraternos 
(dizigticos)
educados em conjunto, sendo apenas de 3% para crianas sem relao de parentesco 
educados
em conjunto. Com base nestes e noutros dados, Vernon concluiu que podemos atribuir 
70% de
determinao do QI  hereditariedade, 30% ao ambiente e l O% aos efeitos combinados 
de ambos.
Esta concluso aplicar-se-ia em condies gerais, sendo de presumir que quanto mais 
enriquecido
for o meio maior ser a percentagem da sua influncia. Mas h que ler estes 
resultados com
prudncia e evitar falar da inteligncia com sendo tantos por cento herdada. Na 
verdade, o que os
mtodos estatsticos permitem afirmar  que aquilo que  adquirido  um potencial, 
ignorando-

-se qual seja a sua reaco aos factores ambientais que produzem um comportamento que
designamos convencionalmente como inteligente.
     (... ) As condies fisiolgicas e orgnicas, que no devem confundir-se com os 
factores
hereditrios, podem igualmente ter efeitos no desenvolvimento da inteligncia. 
Algumas delas
ocorrem, por vezes, antes, outras durante ou aps o nascimento. O sangue da me  
tambm o do
feto e da os seus hbitos alimentares ou drogas que ingere poderem afectar a 
inteligncia da
criana. Da mesma forma, um parto traumtico ter possivelmente consequncias, tal 
como
deficincias hormonais podem resultar num desenvolvimento insuficiente do crebro.
                         Correia Jesuno, Psicologia, Difuso Cultural, Lisboa, 1994

CAPITULO

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO

1.   O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO
2.   MTODOS DE INVESTIGAO DO DESENVOLVIMENTO
3.   CONCEPES SOBRE O DESENVOLVIMENTO
4.   AS LIGAES INFANTIS
5.   A ADOLESCENCIA

          O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO

     Como foi referido no Captulo I, a Psicologia do Desenvolvimento  o estudo do 
ciclo da vida, desde a infncia at  velhice. Assim entendido, o desenvolvimento 
abrange realmente todo o decurso da nossa vida.

     No deve confundir-se Psicologia do Desenvolvimento com Psicologia Infantil, 
erro infelizmente comum, devido ao facto de alguns acreditarem que o desenvolvimento 
s se processaria durante a infncia (e a adolescncia). De facto, a Psicologia do 
Desenvolvimento divide-se em Psicologia Infantil, Psicologia do Adolescente e 
Gerontologia, passando pelo estudo
do indivduo adulto. Como tambm j foi referido, podem estudar-se aspectos 
especficos do desenvolvimento, tais como o desenvolvimento da linguagem, da moral, 
da sociabilidade ou dos processos cognitivos. Para haver uma compreenso global do 
ciclo da vida,  necessrio estudar o desenvolvimento da actividade sensorial e 
motora, dos processos cognitivos e operatrios, da linguagem, da moral e da 
sociabilidade, numa perspectiva, por
conseguinte, psico-bio-sociolgica. O desenvolvimento  pois resultado de uma 
dialctica entre a maturao biolgica e a aprendizagem, processo em que o meio, 
juntamente com o prprio organismo, joga um papel fundamental. Por outras palavras, o 
organismo funciona activa e reactivamente; a maturao  resultante da aprendizagem e 
esta s  possvel quando o organismo est preparado para efectu-la.


     As teorias clssicas do conhecimento comearam por pr a questo "como  
possvel o conhecimento?", a qual rapidamente se diferenciou numa pluralidade de 
problemas relativos  natureza e s condies prvias do conhecimento 
lgico-matemtico, do conhecimento experimental de tipo fsico, etc. Mas o postulado 
comum das diversas epistemologias tradicionais  o de que o conhecimento  um facto e 
no um processo e que, se as nossas diversas formas de conhecimentos so sempre 
incompletas e as nossas diversas cincias ainda imperfeitas, aquilo que est sabido, 
est sabido e pode portanto ser estudado estaticamente.( ... )
          Ora, sob a influncia convergente de uma srie de factores, considera-se 
hoje, cada vez mais, o conhecimento mais como um processo do que como um estado. (... 
)
          Esta transformao fundamental do conhecimento-estado em 
conhecimento-processo leva, pois, a pr em termos bastante novos a questo das 
relaes entre a epistemologia e o desenvolvimento ou mesmo a formao psicolgica 
das noes e das operaes. Na histria das epistemologias clssicas, s as correntes 
empiristas recorrem  Psicologia (... ). Quanto s epistemologias platnicas, 
nacionalistas ou aprioristas, cada qual julgou encontrar algum instrumento 
fundamental do conhecimento, estranho, superior ou anterior  experincia. (... ) No 
caso da reminiscncia platnica ou da Razo universal (... )  evidente que antes de 
conferir faculdades a todos os seres humanos normais conviria examinmos. (... )
          No caso das formas a priori, a anlise dos factos  mais delicada porque 
no basta analisar a conscincia dos sujeitos mas as suas condies prvias e, por 
hiptese, o psiclogo que as quisesse estudar utiliz-ias-ia ele mesmo, enquanto 
condies prvias da sua investigao. Mas resta a histria nas suas mltiplas 
dimenses (a histria das cincias, sociognese e psicognese) e, se a hiptese  
verdadeira, deve verificar-se no pela introspeco dos sujeitos mas pelo exame dos 
resultados do seu trabalho intelectual: ora, esse exame mostra com clareza que  
indispensvel dissociar o prvio e o necessrio porque, se todo o conhecimento e, 
sobretudo, toda a experincia supem condies prvias, de modo algum elas apresentam 
imediatamente necessidade lgica ou intrnseca e, se vrias formas do conhecimento 
conduzem  necessidade, esta situa-se no termo e no  partida.
          Em suma, todas as epistemologias, mesmo anti-empiristas, levantam questes 
de facto e adoptam assim posies psicolgicas implcitas mas sem verificao 
efectiva, enquanto esta se impe como bom mtodo. Ora, se o que assim afirmamos j  
verdadeiro no que respeita s epistemologias estticas, s-io- a fortiori no caso 
das teorias do conhecimento-processo. Com efeito, se todo o conhecimento est sempre 
em devir e consiste em passar de um conhecimento menor para um estado mais completo e 
mais eficaz,  claro que se deve conhecer esse devir e analis-lo o mais exactamente 
possvel. Esse devir no se processa ao acaso, constitui um desenvolvimento e, como 
no existe em qualquer domnio cognitivo comeo absoluto para um desenvolvimento, 
este mesmo devir deve ser examinado desde os estdios ditos de formao;  verdade 
que consistindo ainda esta ltima num desenvolvimento a partir de condies 
anteriores (conhecidas ou desconhecidas), h a um risco de regresso sem fim, ou 
seja, de um recurso  biologia. Simplesmente como o problema em causa  o da lei do 
processo e como os estdios finais (quer dizer, actualmente finais) so, a esse 
respeito, to importantes como os primeiros que se conhecem, o sector de 
desenvolvimento considerado pode permitir solues, pelo menos parciais, mas na 
condio de assegurar uma colaborao da anlise histrico-crtica com a anlise 
psicogentica.
                                        Jean Piaget, Psicologia e Epistemologia
                                                  Lisboa, D. Quixote, 1976

     20 MTODOS DE INVESTIGAO DO DESENVOLVIMENTO

     Mtodos longitudinais

     Os mtodos longitudinais acompanham o desenvolvimento do indivduo atravs de 
etapas ou
estdios, so, por assim dizer, mtodos diacrnicos: estudam modificaes 
comportamentais ao

longo do tempo. Piaget usou este tipo de mtodo quando acompanhou o desenvolvimento 
das estruturas cognitivas do recm-nascido at  adolescncia. Estes mtodos 
baseiam-se na observao.


     Mtodos transversais

     Os mtodos transversais so usados sempre que se pretende estudar vrios 
indivduos da
mesma idade para encontrar semelhanas no seu desenvolvimento. So mtodos 
sincrnicos: estuda-se o nvel de desenvolvimento de vrios indivduos de um mesmo 
escalo etrio. Piaget tambm usou este tipo de mtodo quando quis verificar a 
existncia de semelhanas no desenvolvi-
mento cognitivo de vrias crianas ou de adolescentes di mesma idade. Estes mtodos 
tambm se
baseiam na observao, podendo ainda o investigador elaborar r-.equenas experincias.

                     33

Mtodos normativos

     Os mtodos normativos estabelecem normas para o desenvolvimento. Estes mtodos 
recorrem a testes e analisam estatisticamente os seus resultados, por exemplo quando 
se comparam
nveis de desenvolvimento em crianas de vrios pases. Estes mtodos, apesar de 
estabelecerem
normas, admitem pequenas diferenas individuais relativas ao beb "mdio" e 
"estatstico".

     Graas ao uso dos mtodos de investigao do desenvolvimento,  possvel 
efectuar estudos
sobre a sequncia dos comportamentos a fim de se estabelecer quando, em termos 
etrios, um
determinado comportamento deve aparecer - a idade "mdia' desse comportamento.



3.   cONCEP"@@@SSOBRE
     O DESEIWOLVIMENTO

3. 1. PIAGET

     Jean Piaget  o autor da descrio mais completa, actualmente existente, do 
processo de desenvolvimento cognitivo. Piaget
comeou por observar o comportamento dos seus filhos em casa e,
mais tarde, o comportamento de outras crianas no Centro de
Epistemologia Gentica que ele prprio fundou em Genebra. Foi o
criador da Psicologia e da Epistemologia Genticas.

     Piaget notou que crianas da mesma idade tendem a comportar-se de um modo 
semelhante e, ao tentarem resolver problemas,
fazem os mesmos erros. Concluiu que estas semelhanas
resultam de um desenvolvimento semelhante em todas as
crianas normais.


Jean Piaget

Psicologia gentica e epistemologia gentica

     Ao querer estudar o desenvolvimento das estruturas cognitivas, Piaget criou a 
Psicologia
Gentica bem como a Epistemologia Gentica. Segundo Piaget, o desenvolvimento 
cognitivo
resulta de um equilbrio entre o organismo e o meio. O estudo deste desenvolvimento 
objecto de uma Psicologia Gentica (estudo da origem e do desenvolvimento de 
aptides.
Piaget considera que a cincia tambm  sujeita a uma gentica, j que o processo do 
conheci-
mento cientfico  um processo evolutivo e que o estudo cientfico da realidade 
resulta tambm de um processo de equilibraro - Epistemologia Gentica e no de uma 
descoberta progressiva de uma verdade esttica - Epistemologias Clssicas. O estudo 
do desenvolvimento
de um indivduo, comeando com o recm-nascido, passando pela infncia at chegar  
adolescncia,  tambm objecto de uma Epistemologia Gentica, uma vez que a aquisio 
de conceitos  resultado de um processo evolutivo de construo - h uma gnese dos 
conceitos
tal como h a gnese do nmero.

     Piaget escreveu no seu prefcio  segunda edio de Introduction  
l'Epistmologie Gntique:

     "A epistemologia gentica no coloca a questo como o faz a epistemologia
filosfica no absoluto: "como  possvel o conhecimento?" Limita-se a pr a ques-

com outros objectos e o que advm da sua manipulao. Por conseguinte, a estrutura 
cognitiva de
uma criana inclui conceitos tais como os do barulho da roca, o conceito de bolas, 
das grades da
cama, de mos e de outras pessoas. A aquisio das normas que formam os esquemas e os
conceitos faz-se atravs de uma interaco com o meio. A adaptao ao ambiente faz-se 
por
meio do processo de assimilao e de acomodao.

     A ASSIMILAO consiste em acrescentar novos elementos a um conceito ou a um
esquema; a ACOMODAO  a transformao desses elementos e acontece devido 
introduo de novas informaes, ou seja,  o ajustamento desses elementos a uma 
situao
nova. Por exemplo, imagine-se que o conceito de animal de uma determinada criana 
divide-se em
trs categorias: os ces, os gatos e os ursos de peluche. Se esta criana vir a 
fotografia de um
veado e lhe chamar "um gato"  porque assimilou a nova informao a um conceito j 
existente.
Contudo, se decidir que o veado  uma espcie diferente de animal  porque acomodou o 
seu
conceito de animal de modo a incluir uma categoria nova. A partir daqui o seu 
conceito de animal
inclui os ces, os gatos, os ursos de peluche e os veados.



  - Os Estdios do Desenvolvimento Co"itivo

     Apesar de o desenvolvimento ser um processo contnuo, as estruturas cognitivas 
das crianas
variam bastante consoante a idade, o que permite tirar concluses sobre as prticas 
que as
crianas de uma determinada idade desenvolvem a fim de compreenderem o meio em que 
esto
inseridos e de controlarem o seu comportamento. Piaget dividiu o desenvolvimento 
cognitivo em quatro perodos ou estdios.  a aprendizagem que uma criana efectua 
durante um
estdio que lhe permitir a passagem ao estdio seguinte.


     - Estdio sensrio-motor

     Este estdio prolonga-se aproximadamente pelos dois primeiros anos da vida. A 
actividade
cognitiva est, nesta altura, intimamente ligada a estmulos externos.  durante este 
perodo que

a criana desenvolve o conceito de objecto. Nos primeiros tempos, no entanto, sempre 
que
desaparece um objecto do seu campo visual, a criana perde todo o interesse por ele, 
"longe da
vista, longe do corao...": a criana parece ainda no possuir ainda o conceito de 
objecto. Acrescente-se que nesta altura a actividade cognitiva  exclusivamente 
comportamental: Pensar  agir.


     O desenvolvimento do conceito de objecto

     Segundo Piaget, a melhor maneira de se compreender o conceito de objecto na 
criana desta
idade  observar o seu comportamento quando o objecto desaparece ou  escondido. Nos
primeiros tempos, as crianas reparam em estmulos visuais e auditivos, seguindo-os 
com a
cabea e com os olhos, mas se se esconder um objecto no h resposta.

     Por volta dos trs meses, seguem com o olhar o movimento de objectos. Se um 
objecto
desaparecer, a criana continuar a olhar para o lugar em que o objecto desapareceu 
mas no far
esforo algum para procur-lo. Se o objecto no tornar a aparecer rapidamente, a 
criana perder
todo o interesse por ele. A criana espera que o objecto torne a aparecer mas no faz 
nada para
que isso acontea.

     Aos cinco meses, a criana j agarra os objectos, manipula-os e observa-os com 
ateno.
Nesta altura, tambm j consegue prever o lugar que um objecto em movimento ir 
ocupar a

seguir. Se, por exemplo, um objecto passar por trs de um obstculo visual, a criana 
dirige o
olhar para a extremidade desse obstculo por onde espera que ele saia.

     A partir dos seis meses de idade, a criana ao agarrar os objectos vira-os e 
investiga as
suas caractersticas.  tambm nesta altura que a criana comea a procurar 
activamente um
objecto escondido. Agora, o objecto escondido continua a existir.

     A partir de um ano de idade, as crianas vo procurar um objecto no ltimo lugar 
em que o
l'i-am escondido. Contudo, so apenas capazes de detectar alteraes que vejam no 
lugar em que o
objecto est escondido. Por exemplo, se um adulto agarrar num objecto e o esconder 
debaixo de um
tapete mas fingir que ainda est na sua mo fechada, a criana procur-lo- na mo do 
adulto.
Quando reparar que o objecto no est l, ficar triste mas no ir  sua procura 
debaixo do tapete.

     O pensamento e a linguagem

     Por volta do ano e meio, a criana comea a pensar. Para Piaget, o pensamento 
est

intimamente ligado a esquemas motores e a conceitos de objectos e das suas 
caractersticas. Imita
tambm acontecimentos que v desenrolarem-se  sua volta -  j um indcio da funo 
simblica
que ir desenvolver-se no estdio seguinte; a criana poder abrir a boca para imitar 
a abertura
de uma gaveta. No final do estdio sensrio-motor desenvolvem-se outras estruturas 
cognitivas: a criana comea a distinguir o eu de tudo o resto que a rodeia e adquire 
as noes de espao
e de tempo. Comea a fazer experincias com objectos e a descobrir as consequncias 
dessas
experincias.
     Aprende a saber o que se vai passar quando, por exemplo, se carrega no boto de 
acender a
televiso.  tambm nesta altura que a criana comea a falar - j conhece o 
significado de
algumas dzias de palavras e j pronuncia bastantes sem imitar.


     Estdio pr-operatrio

     Funo simblica e linguagem

     Este estdio prolonga-se aproximadamente dos dois aos sete anos e caracteriza-se 
pelo
rpido desenvolvimento da linguagem e da funo simblica. Quando brinca, a criana 
pode,
por exemplo, usar duas peas de "lego" para representar duas pessoas.  nesta altura 
que comea
a classificar e a ordenar os objectos bem como a contar.
     Quando a criana representa um avio fazendo uni gesto circular com a mo, caso 
em que o
acto motor representa o conceito, a representao simblica usa um significante. Os 
conceitos
podem tambm ser representados por palavras. As palavras so smbolos que no tm 
qualquer
semelhana fsica com o conceito. Estes smbolos abstractos so os sinais. Enquanto 
que os
significantes so pessoais e derivam da experincia que a criana tem dos objectos, 
os sinais so
convenes sociais. Os primeiros so, normalmente, s percebidos pela criana ou, 
quando muito,
tambm pelos mais prximos dela; os segundos so percebidos por toda a gente. A 
criana d um
passo importantssimo no processo do desenvolvimento cognitivo no momento em que se 
serve das
palavras para pensar a realidade.

     A noo de conservao

     Os trabalhos de Jean Piaget revelaram com bastante clareza que a representao 
do mundo
feita por uma criana difere da do adulto. Nos primeiros anos do estdio 
pr-operatrio a
criana no entender a noo conservao: dois recipientes iguais contendo o mesmo
volume de gua so reconhecidos pela criana como tendo o mesmo volume de gua; se, 
no

entanto se deitar o lquido de um dos recipientes para uma proveta alta e estreita, a 
criana,

                      7

nesta fase etria, dir que a proveta contm mais gua porque o nvel da gua  mais 
alto -
ainda no entendeu que um objecto conserva a massa, o volume e o comprimento quando 
sujeito a determinadas transformaes, no entendeu que o objecto conserva as suas 
propriedades
originais - noo de conservao (ver figura I).








     FIG. I
     A conservao. No incio do perodo pr-operatrio a criana
     no reconhece a conservao da quantidade de lquido.

     Porm, a capacidade de perceber a conservao em todos os seus aspectos no 
acontece
simultaneamente. Por exemplo, a conservao de nmero ou de volume no ocorre na 
mesma
idade: a noo da conservao de nmero  excepo e acontece j neste estdio - 
d-se aos
seis anos (convm no esquecer que a criana desta idade j comeou a aprender a 
contar)
enquanto que a segunda s aos onze, no estdio seguinte (ver figura 2).





   OOOO(D                      00000

   OOOO(D                      o o o o o

O experimentador mostra duas   O experimentador aumenta o intervalo entre as
   filas de fichas de pquer.  fichas numa das filas e pergunta  criana se cada
                               fila ainda contm o mesmo nmero de fichas.

                                                            FIG. 2

         egocentrismo

     O egocentrismo (no confundir com egosmo)  outra caracterstica importante 
deste estdio
de desenvolvimento - a criana acredita que os outros vem o mundo exactamente da 
mesma
maneira que ela. Por exemplo, ao relatar um acontecimento, omitir pormenores 
importantes

porque provavelmente pensa que os outros tm exactamente a mesma viso do 
acontecimento
(apesar de no o terem presenciado).

     Repare-se tambm que as crianas usam facilmente pronomes sem tomar em 
considerao que
os outros podem no saber a quem elas se referem: "ela fez aquilo e depois disse que 
sim mas ele
no gostou......

                     88

     Estdio das operaes concretas

     Este estdio prolonga-se aproximadamente dos sete aos doze anos. No incio do 
mesmo, por
volta dos sete ou oito anos, a equilibraro entre a assimilao e a acomodao 
torna-se mais
estvel. O fim deste estdio marca a transio da infncia para a adolescncia -  a 
puberdade.

     Anlises lgicas, empatia e relaes de causalidade

     Durante este estdio surge a capacidade de se efectuarem anlises lgicas, d-se 
um
aumento de empatia com os sentimentos e atitudes dos outros (ultrapassagem do 
egocentrismo) e
comea a haver compreenso de relaes causa-efeito mais complexas. E tambm durante 
este
estdio que se d um salto no desenvolvimento da capacidade de uso do pensamento 
simblico.

     Classificao de objectos e a noo de transitividade

     Mesmo antes do estdio das operaes concretas, a criana  j capaz de ordenar 
uma
srie de objectos por tamanhos e de comparar dois objectos, indicando qual o maior. 
No entanto,
no ser ainda capaz de compreender a propriedade transitiva: se o objecto A  maior 
que objecto
B e se B  maior que o objecto C ainda no est apta a concluir que A  maior que C, 
Se se colocar
A e C ao p um do outro perceber imediatamente que A  maior que C mas no se trata 
de uma
ingerncia.
     No incio do estdio das operaes concretas, a criana j  capaz de 
compreender a
propriedade transitiva desde que aplicada a objectos concretos que tenha visto, o 
objecto
A (um cavalo, por exemplo), o objecto B (um co), etc.

     No entanto, no  ainda capaz de compreender a propriedade transitiva quando 
aplicada a
objectos hipotticos. Por exemplo, se se puser o problema da seguinte forma: "A  
maior que B e B
 maior que C, qual  maior, A ou C ?", a criana no ser capaz de responder. Mesmo 
que se d
nomes a A, B e C, o resultado  o mesmo: "0 Carlos  mais alto que a Joana e a Joana 
 mais alta

que o Jaime, qual  mais alto, o Carlos ou o Jaime?" - a criana no saber ainda 
responder; a
soluo de problemas como este s ser possvel no estdio de desenvolvimento 
seguinte.

     Ao longo do estdio das operaes concretas, a criana ir perceber a 
conservao de volume,
de massa e de comprimento (ver figura 3).






          O experimentador mostra duas
          bolinhas feitas de plasticina.




          O experimentador transforma uma bola
     numa salsicha e pergunta  criana se a
     quantidade de plasticina  a mesma.




                     89

                                       experimentador mostra dois tubos.






                                        O experimentador desvia um tubo para a
                                   direita e pergunta  criana se os dois tm o
                                   mesmo comprimento.


                                                            FIG. 3

     O desenvolvimento moral

     Um outro aspecto do desenvolvimento focado por Piaget foi o do desenvolvimento 
moral.
Para ele, este desenvolvimento d-se em dois estdios principais: o do realismo moral 
caracterizado pelo egocentrismo e pela obedincia cega s regras e o da moralidade de 
cooperao
caracterizado pela empatia e pela compreenso do facto que uma aco vale pelos 
efeitos que
possa ter nos outros. A abordagem feita por Piaget parte do princpio que as crianas 
entendem e
seguem princpios morais - h tambm uma gnese da moral. No entanto, a prtica 
revela que,

muitas vezes, agimos contra os nossos princpios morais.

     Os estudos mais recentes realizados sobre o desenvolvimento moral tm-se 
preocupado menos
com a sua diviso em estdios do que com a descoberta dos factores que influenciam as 
aces
morais. Praticamente todos os investigadores acreditam que as regras morais comeam 
por
impor--se do exterior  criana e depois so interiorizadas. Um dos aspectos mais 
importantes do
comportamento moral  o medo do castigo (reforo negativo)' quer este se traduza em 
"perdas"
materiais ou num sentimento de culpa. Alguns pais preferem usar mtodos de coero, 
dizendo,
por exemplo, "no lhe faas mal" ou "se no paras j apanhas (ou vais de castigo para 
o teu
quarto)"; outros preferem o uso de mtodos de induo a fim de corrigirem os maus 
comporta-
mritos das crianas, "se lhe fazes mal e ela se magoa a culpa  tua". Estes ltimos 
mtodos so
mais eficazes com crianas de idade j escolar. Para alm da ameaa de castigo ou da 
induo do
sentimento de culpa, mtodo mais eficaz que o primeiro, tambm se pode dar o exemplo 
ou
apontar os bons exemplos. Se  verdade que estas tcnicas condicionam de facto o 
comportamento
moral das crianas, podem, sempre que em exagero, levar a distrbios do 
comportamento.



     Algumas observaes sobre o contributo de Piaget para a psicologia
do desenvolvimento

      inegvel a importantssima contribuio de Piaget no campo da Psicologia 
infantil; todo o
sculo xx foi dominado por ela. No entanto foram feitas algumas crticas aos estudos 
de Piaget
neste campo. Jean Piaget nem sempre definiu a sua terminologia em termos 
operacionais, o que
dificulta a interpretao do significado das suas generalizaes; para mais, muito do 
seu trabalho
no foi experimental.

     Gelman em 1972 fez experincias usando duas tbuas onde estavam colocados ratos 
de
brinquedo. Uma tbua continha mais ratos que a outra mas em vez de usar a palavra 
mais
chamou ao grupo maior de ratos, os vencedores, e ao outro os vencidos. Convidou 
crianas para
jogarem um jogo. A experimentadora escondeu as tbuas debaixo de duas latas que fez 
circular
em cima de uma mesa e pediu para que as crianas apontassem para a que continha os
vencedores. Destapava ento a lata e se a tbua tinha o mesmo nmero de ratos (mesmo 
que a fi a
dos ratos fosse mais comprida ou mais curta por terem sido, s escondidas, 
introduzidos

diferenas nos intervalos entre eles) as crianas, apesar de notarem que tinha havido 
mudanas
na tbua, identificavam-na como sendo a dos vencedores. S se os ratos tivessem 
desaparecido da







No captulo referente  Aprendizagem desenvolver-se- melhor o conceito de reforo 
(negativo e positivo).

tbua  que as crianas se mostravam confusas e perguntavam o que lhes tinha 
sucedido.
Demonstrou assim que as crianas de trs anos podem ter a noo de conservao de 
nmero,
desde que no se usem conceitos como o conceito de mais ou maior. Quer isto dizer que 
as crianas
aprendem a conservao de nmero antes de compreenderem o significado da palavra mais 
usada
pelos adultos.

Outras crticas foram feitas ao trabalho de Piaget no que concerne  incapacidade das 
crianas em
perceber o ponto de vista dos outros. Em 1981, Flavell, Everett e Croft provaram que 
mesmo uma
criana de trs anos percebe que uma pessoa que esteja a olhar para o outro lado de 
um carto
que a criana observa no v a mesma coisa que ela, ou seja, a criana reconhece o 
ponto de vista
do outro. Gelman e Shatz, j em 1978, descobriram que as crianas de quatro anos 
usaro uma
linguagem mais simples se estiverem a falar com uma de dois anos do que se estiverem 
a falar
com adultos e, por isso, concluram que a criana de quatro anos toma em considerao 
as
capacidades lingusticas dos outros.

     Pode ainda acrescentar-se que quando Piaget encontra nos desequilbrios a 
motivao para a
passagem ao estdio seguinte no explica como  que essa passagem s se d mais ao 
menos em
determinadas idades quando, na realidade, a criana sofre esse desequilbrios no seu 
dia-a-dia e
no passa, obviamente, de estdio todos os dias, sendo lcito perguntar-se como  que 
esses
desequilbrios quotidianos se resolvem."









     funcionamento intelectual, no seu aspecto dinmico,  tambm caracterizado pelos
     processos invariantes de assimilao e acomodao. Um acto de inteligncia no 
qual
     assimilao e acomodao esto em paralelo ou em equilbrio constitui uma
     adaptao intelectual. A adaptao e organizao so os dois lados da mesma 
moeda, na medida
     em que a adaptao pressupe uma coerncia subjacente, por um lado, e as 
organizaes so
     criadas atravs de adaptaes, por outro lado. Nas palavras de Piaget: a 
organizao 
     inseparvel da adaptao: eles so dois processos complementares de um simples 
mecanismo,
     sendo o primeiro o aspecto interno do ciclo de que a adaptao constitui o 
aspecto externo...
          O <,acordo do pensamento com as coisas,, e o acordo do pensamento consigo 
mesmo so esta
     dupla invariante funcional da adaptao e da organizao. Estes dois aspectos do 
pensamento
     so indissociveis:  pela adaptao s coisas que o pensamento se organiza a si 
mesmo, que ele
     estrutura coisas.
          Qual  a natureza da assimilao e acomodao cognitivas em oposio s 
psicolgicas? Aqui
     assimilao refere-se ao facto de que todo o encontro cognitivo com um objecto 
do ambiente
     envolve necessariamente algum tipo de estruturao cognitiva (ou reestruturao) 
daquele objecto,
     de acordo com a natureza da organizao intelectual existente do organismo. Como 
diz Piaget, ,a
     assimilao  ento o prprio funcionamento do sistema do qual a organizao  
um aspecto
     estrutural,,.
          Todo o acto de inteligncia, mesmo rudimentar e concreto, pressupe uma 
interpretao de
     algo com alguma espcie de significado no sistema cognitivo do sujeito (...     
   ). E  um argumento



Actualmente, alguns psiclogos do desenvolvimento preferem falar de conflito em vez 
de desequilbrio.

                     92

de Piaget que a assimilao intelectual no  diferente em princpio de uma 
assimilao biolgica
primria: em ambos os casos o processo essencial  de subordinar o acontecimento real 
ao
modelo da estrutura que absorve.
     Se a adaptao intelectual  sempre e essencialmente um acto de assimilao, no 
 menos
um acto de acomodao. Mesmo no mais elementar conhecimento deve haver uma adequao
com as propriedades especiais da coisa apreendida. A realidade no pode ser 
infinitamente
malevel, mesmo para o mais autista dos sujeitos cognoscentes e certamente que nenhum

desenvolvimento intelectual pode existir a no ser que o organismo ajuste em certo 
sentido os
seus receptores intelectuais s formas que a realidade lhe apresenta. A essncia da 
acomodao
 precisamente este processo de auto-adaptao s vrias exigncias ou necessidades 
que o
mundo dos objectos impe ao sujeito.
     Mesmo que seja necessrio descrever a assimilao e a acomodao separada e
sequencialmente, elas devem ser pensadas como simultneas e indissociveis, tal como 
operam
num conhecimento vivo. A adaptao  um acontecimento unitrio e a assimilao e 
acomodao
so meramente abstraces desta realidade unitria. Tal como no caso da ingesto de 
alimentos,
a incorporao cognitiva da realidade implica ao mesmo tempo uma assimilao  
estrutura e uma
acomodao da estrutura. Para assimilar um acontecimento  necessrio ao mesmo tempo
acomodar-se a ele e vice-versa
     Os conceitos de Piaget tendem a tornar-se mais significativos quando examinados 
num
contexto de comportamento. Consideremos um exemplo de actividade cognitiva e vejamos 
como
pode ser descrito nos termos que temos vindo a analisar. Uma criana contacta pela 
primeira vez
com uma roda suspensa de uma corda. Far uma srie de acomodaes exploratrias: olha 
para
ela, toca-lhe, faz com que ela balance para trs e para a frente, agarra-a, etc...
     Estes actos de acomodao no tm evidentemente lugar no vcuo; atravs de 
interaces
passadas com vrios outros objectos a criana j possui estruturas de assimilao 
(esquemas)
que pem em aco e dirigem estas acomodaes. Piaget diria aqui que a roda  
assimilada a
conceitos, tocar, mover, ver, etc.
     Mas a criana faz mais do que simplesmente repetir os comportamentos adquiridos 
mais cedo.
As estruturas que so definidas por aprender, ver, tocar, etc., so elas prprias 
modificadas num
nmero de formas em que elas prprias se acomodam  roda e a assimilam.


          John Flavell, The Developnzent Psychology of Jean Piaget, New York, 1963








                  ,r@x-rc>

stas observaes puramente descritivas levantam o problema inicial de qualquer teoria

da equilibraro: se a pregnncia das boas formas cognitivas e o carcter obrigatrio
E do equilbrio no so dados de incio, nem com fora igual a todos os nveis, por 
que 
que surgem desequilbrios? E desempenham estes um papel prvio inevitvel? De facto, 

evidente que numa perspectiva de equilibraro, deve procurar-se nos desequilbrios 
uma das
fontes de progresso no desenvolvimento dos conhecimentos, pois s os desequilbrios 
obrigam um
sujeito a ultrapassar o seu estado actual e procurar seja o que for em direces 
novas. Mas no 
menos evidente que, embora os desequilbrios constituam um facto essencial, mas 
primeiro que
tudo motivacional, no poderiam desempenhar todos o mesmo papel formador e s o 
poderiam
fazer na condio de provocar ultrapassagens, quer dizer: na condio de serem 
superados e
conduzirem, desta maneira, a reequilibraes especficas. Mas, ento, o desequilbrio 
 inerente
s prprias aces do sujeito ou s depende de situaes histricas contigentes e, no 
caso

afirmativo, quais so as diversas formas que estas situaes podem assumir? Temos, 
portanto,
de decidir se os desequilbrios, por outras palavras as contradies, por uma espcie 
de
necessidade intrnseca, so inerentes  constituio dos objectos, por um lado, das 
aces do
sujeito, por outro, ou resultam apenas de conflitos momentneos, conforme pressupe 
qualquer
desenvolvimento histrico: neste caso, os desequilbrios seriam devidos unicamente  
diversidade
dos sistemas de observveis e de coordenaes, ao facto de nenhum deles ficar 
completo duma
assentada (e os sistemas causais at nunca so) e de se desenvolverem com velocidades
diferentes; numa palavra, seriam devidos ao facto de nenhuma forma de pensamento, 
seja qual for
o nvel em que seja considerada, poder abranger simultaneamente num todo coerente nem 
a
totalidade do real nem a do universo do discurso.
     Alis, convm pr em destaque o facto de, nas duas interpretaes, o papel dos 
desequilbrios
e dos conflitos se manter o mesmo quanto ao mecanismo do desenvolvimento. Nos dois 
casos,
so de facto estes desequilbrios o que constitui o motor da investigao, porque, 
sem eles, o
conhecimento manter-se-ia esttico. Mas, tambm nos dois casos, os desequilbrios
desempenham apenas um papel de arranque porque a sua fecundidade se mede pela
possibilidade de os ultrapassar, por outras palavras, pela possibilidade de se livrar 
deles. 
evidente, nestas condies, que a fonte real do progresso tem de ser procurada na 
reequilibrao,
no no sentido, naturalmente, de um regresso  forma de equilbrio anterior, forma 
cuja

insuficincia  responsvel pelo conflito ao qual esta equilibraro provisria levou, 
mas sim no
sentido de um aperfeioamento desta forma precedente. No entanto, no teria havido, 
sem o
desequilbrio, @reequilibrao majorante>, (designando desta maneira a reequilibrao 
com o
aperfeioamento obtido).
     Mas, embora o papel do desequilbrio seja o mesmo nas duas solues,  
interessante, no
entanto, apurar se este estado conflitual resulta necessariamente das leis do real e 
das aces do
sujeito, ou se constitui um resultado inevitvel de facto, mas no de direito, das 
insuficincias
iniciais ou duradouras destas aces, nas suas coordenaes internas e nas suas 
relaes com os
objectos. Conforme o sentido em que este problema  resolvido, ou se avalia por baixo 
a prpria
noo de equilibraro progressiva, favorecendo a noo do desequilbrio, ou, pelo 
contrrio, se
reconstitui o seu significado pleno como formadora do desenvolvimento.

          ,J. Piaget, O Desenvolvimento do Pensamento, D. Quixote, Lisboa, 1977.








estudo das regulaes mostrou-nos a maneira como se efectua a equilibraro nas suas
trs formas de equilbrio entre o sujeito e os objectos, entre os esquemas ou os
U subsistemas com o mesmo patamar hierrquico e entre a sua diferenciao e a sua
integraro em totalidades superiores. Mas o que fica por esclarecer  que a 
equilibraro cognitiva
nunca tem um ponto de paragem, a no ser provisoriamente; e que isto no  uma 
situao
lamentvel, nem, sobretudo, uma espcie de pecado original, como seria a construo 
que certas
dialcticas pretenderiam instalar no prprio mago da inteligncia. O facto de os 
estados de
equilbrio serem sempre ultrapassados, resulta, pelo contrrio, de uma razo muito 
positiva.
Qualquer conhecimento consiste em levantar problemas novos  medida que resolve os
precedentes. Isto  evidente nas cincias experimentais, em que a descoberta da 
causalidade de
um fenmeno faz surgir o problema do porqu dos factores invocados, e assim 
sucessivamente.
Mas isto continua ainda a ser verdadeiro nos domnios lgico-matemticos, nos quais, 
no entanto,
se mantm indefinidamente: no entanto, o equilbrio no  de modo nenhum um ponto de 
paragem

                     94

          porque uma estrutura concluda pode sempre dar origem @t exigncias de 
diferenciaes em novas
          subestruturas ou a integraro em estruturas mais amplas. A razo desta 
melhoria necessria de
          qualquer equilbrio cognitivo  ento que o processo da equilibrao como 
tal provoca de maneira
          intrnseca uma necessidade de construo, e, portanto, de ultrapassagem, em 
virtude do prprio
          facto de s assegurar uma certa conservao estabilizadora no interior de 
transformaes das
          quais esta conservao constitui apenas a resultante: por outras palavras, 
compensao e
          construo so sempre indissociveis.
     Por conseguinte, um sistema nunca constitui, de facto, uma consecuo absoluta 
dos
processos de equilibraro, e, de um equilbrio atingido, instvel e at estvel, 
derivam sempre
objectivos novos, sendo cada concluso, mesmo mais ou menos duradoura, origem de 
novos
encaminhamentos. Seria muito insuficiente, portanto, conceber a equilibraro como uma 
simples
E         marcha para o equilbrio, porque a equilibraro  constantemente, alm 
disso, uma estruturao
orientada para um equilbrio melhor, pois nenhuma estrutura equilibrada se mantm num 
estado
definitivo, ainda que mantenha depois os seus caracteres especiais sem modificaes. 
 por isso
que convm falar, alm das equilibraes simples, sempre limitadas e incompletas, das
equilibraes majorantes no sentido destas melhorias, c@ falaramos at de uma lei de 
optimizao
se este termo no tivesse significados tcnicos que@ ainda no estamos em condies 
de
concretizar quantitativamente.
               Esta majorao traduz-se de duas maneiras conforme as melhorias 
resultam apenas do xito
          das regulaes compensadoras, e, portanto, do equilbrio momentneo 
atingido, ou as novidades
          ressaltam (por abstraces reflectidas) do prprio mecanismo destas 
regulaes. De facto,
          qualquer regularo acrescenta novas transformaes ao sistema a regular e 
estas transformaes
          tm as suas prprias estruturas, designadamente quanto s negociaes, o 
que permite
          enriquecer na forma o sistema que se queria equilibrar.

J. Piaget, O Desenvolvimento do Pensamento, D. Quixote, Lisboa, 1977.








          o  por isso que, se a inteligncia, nas suas origens,  adaptadora e 
assimiladora no

          mesmo sentido em que o so as estruturas orgnicas e sensorio-motoras, esta
          adaptao cognitiva de nvel superior deixa de chegar a resultados bem mais 
completos
          e a estruturas mais estveis. A adaptao orgnica tem de reajustar-se 
constantemente, sujeita s
          presses do meio favorvel e a novas acomodaes. A adaptao individual 
acaba por fracassar e
          dar lugar  morte, ao passo que a adaptao filogentica prossegue, mas sob 
formas to
          insuficientes que se foram sucedendo com abundncia novas modificaes 
evolutivas.  certo que
          algo de anlogo se encontra nas mltiplas formas do pensamento humano, mas 
h que recorrer a
          um certo optimismo para nelas ver mais do que adaptaes cognitivas 
estveis. No entanto, difcil
           negar um relativo progresso no campo das tcnicas e das cincias, j que, 
se as cincias esto
          em perptua reorganizao adaptativa, poder-se- dizer com Oppenheimer que 
a cincia no
          engana duas vezes da mesma maneira, o que de forma a]( uma se aplica a 
evoluo biolgica.
               A diferena essencial entre a adaptao intelectual e a adaptao 
orgnica est em que as
          formas do pensamento, que se aplicam a distncias maiores no espao e no 
tempo (com
          diferenciao progressiva das escalas), conduzem  formao de um @meio,> 
infinitamente mais
          alargado e por conseguinte mais estvel, enquanto os instrumentos 
operatrios propriamente
          ditos, apoiados, alis, por auxiliares semiticos (linguagem e escrita) 
conservam o seu passado e
          adquirem uma continuidade e uma mobilidade reversvel (pelo pensamento), 
adquirem uma
          estabilidade dinmica inacessvel  organizao biolgica.

     Da resulta ento que

do que no campo das formas orgnicas. Dos Elementos de Euclides s teorias 
contemporneas
das estruturas e das categorias, a matemtica conheceu inmeras revolues: nem por 
isso elas
levaram a uma rejeio dos contedos da geometria e da aritmtica euclidianas, antes 
vm
integrando continuamente o passado no presente. E se o mesmo se no pode dizer das 
cincias
experimentais, as aproximaes sucessivas, caractersticas destas ltimas, no so 
menor
testemunho de um esforo constante de integraro e continuidade graas, em 
particular, s
possibilidades de distino e coordenao correlativas das escalas de fenmenos.

               J. Piaget, Biologie et Connaissance, Gallimard, Paris.

a assimilao conceptual ou operatria  muito mais <conservante,,








     3.2.      coNcEpEs P,@icANALTicAs

     3.2.1. Freud

     A Psicanlise

     o Uma terapia

     O mdico austraco Sigmund Freud (1859-1939) foi o fun-
dador da Psicanlise, mtodo de terapia de comportamentos neurticos (ou simplesmente 
neuroses) que pretende a
cura do paciente atravs de uma penetrao no seu inconsciente: o paciente dever 
relembrar (e reviver) aqueles perodos do seu passado que esto na origem da sua 
neurose - f~
-lo- ao longo de vrios anos com a ajuda do psicanalista - a
psicanlise  um processo moroso. Os processos utilizados na
psicanlise foram, primeiro a hipnose, usada com Bertha
Pappenheim, a quem Freud se referiu nos seus escritos como
sendo Anna O., que revelava sintomas de histeria. A lembrana de acontecimentos 
esquecidos (cuja memria tinha

Sigmund Freud

sido recalcada por um mecanismo de defesa) aliviou, embora apenas temporariamente, a 
paciente.
Freud cedo abandonou a hipnose e usou, em sua substituio, o mtodo das associaes 
livres
segundo o qual, o paciente dever falar livremente sobre tudo o que lhe ocorre - o 
psicanalista
interpretar as associaes feitas, bem como o contedo do que foi afirmado pelo 
paciente.

     Um outro aspecto fundamental  o da interpretao dos sonhos, por causa do seu 
sentido simblico. Os sonhos esto carregados de sentido. Numa perspectiva 
determinista, como  a freudiana, as imagens sonhadas so a consequncia, a 
realizao simblica, a imagem substituto de
um desejo sexual recalcado (desejo que no se pode apresentar  conscincia por 
interdio
moral).


                o Uma teoria

Freud divide a vida psquica em dois nveis, o inconsciente e o consciente, sendo o 
primeiro o mais importante,  a camada profunda responsvel por grande parte dos 
nossos comportamentos. Freud considera que a vida psquica se centra na libido 
(pulses sexuais), respons-

                     964

vel, segundo ele, pela agressividade que  sempre de origem sexual. Em 1921, no 
entanto, e por-
que se tornou difcil explicar toda a agressividade em termos sexuais, Freud alterou 
a sua teoria,

introduzindo os princpios da vida (Eros) e da morte (Thanatos). Em 1923, a fim de 
consolidar a sua concepo da libido, dividiu a estrutura da personalidade em trs 
instncias: id, ego e
super-ego.

          O Id  a base de toda a vida psquica, sede das tendncias instintivas que 
se orientam
     pela libido, que  regulada pelo princpio do prazer.
          O Ego  a instncia reguladora das tendncias instintivas quando em 
confronto com a
     realidade cultural em que a pessoa se insere, j que esta condena e probe a 
manifestao
     de muitas dessas tendncias, levando a pessoa a autoculpabilizar-se. O ego 
rege-se pelo
     princpio da realidade que procura "conciliar" tendncias e presso 
sociocultural (por
     exemplo pela sublimao), tentando assim evitar a um tempo a punio externa e 
interna (a
     autoculpabilizao)."'
          O Super-ego consiste na interiorizao das normas e proibies culturais da 
sociedade
     em que a pessoa vive - a moral dessa sociedade. A criana tem o primeiro 
contacto com
     essa moral atravs da famlia.

     Como j se viu no Captulo I, Freud considera que no h ningum normal, pelo 
que se impe a
prtica generalizada de uma terapia. Para este mdico, a normalidade no  possvel 
porque a
nossa infncia foi duramente marcada pelas relaes familiares. A sociedade, que 
tantas vezes
condena explcita ou implicitamente as nossas pulses sexuais,  tambm "responsvel" 
pela
neurose. O homem, enquanto animal,  orientado pelo princpio do prazer e da 
sobrevivncia;
enquanto ser social  vtima de proibies e de tabus - da luta entre pulses e 
desejos, por um
lado, e as proibies, por outro, surge o conflito; se no se satisfazem as pulses, 
a pessoa
fica frustrada porque recalcou essas pulses bem como a sua respectiva lembrana, ou 
seja,
recalcou a conscincia desses seus desejos -  o recalcamento.

     As frustraes infantis vo marcar todo o nosso futuro embora sejam esquecidas 
(ou melhor,
recalca-se a sua lembrana) devido  censura feita pelo super-ego. O super-ego , 
como j se teve
ocasio de referir, a interiorizao, que acontece logo desde a mais tenra idade, das 
proibies, dos
costumes, dos ideais, dos mitos e dos tabus da cultura da sociedade em que a criana 
nasceu. Um
outro aspecto, por vezes esquecido,  o do papel dos arqutipos conscientes ou 
inconscientes, estes
ltimos responsveis pelos nossos fantasmas. A importncia dos arqutipos no nosso
comportamento foi aprofundada por seguidores de Freud, como Carl Jung. Este discpulo 
de

Freud no centra o comportamento neurtico essencialmente no problema das pulses 
sexuais (a
libido) insatisfeitas como tinha feito o seu mestre mas chama a ateno para o papel 
das
representaes simblicas dos principais temas da existncia do homem (de que Freud 
j tinha
encontrado modelos nos mitos clssicos) que so transmitidas culturalmente embora o 
homem no
tenha, forosamente, conscincia dessa transmisso.


     Concluso

     Apesar de ter comeado por ser um mtodo de tratamento, a Psicanlise 
rapidamente se
tornou tambm numa teoria psicolgica. O tratamento individual de pacientes levou a 
uma
melhor compreenso da dimenso psicolgica da religio, da arte, da mitologia, da 
organizao
social, do desenvolvimento infantil e da pedagogia.  precisamente este aspecto do 
desenvolvi-
mento infantil que ir, de seguida, ser estudado.



Em psicologia, sublimar significa transferir uma actividade para outra socialmente 
aceite.


                     974

vel, segundo ele, pela agressividade que  sempre de origem sexual. Em 1921, no 
entanto, e por-
que se tornou difcil explicar toda a agressividade em termos sexuais, Freud alterou 
a sua teoria,
introduzindo os princpios da vida (Eros) e da morte (Thanatos). Em 1923, a fim de 
consolidar a sua concepo da libido, dividiu a estrutura da personalidade em trs 
instncias: id, ego e
super-ego.

          O Id  a base de toda a vida psquica, sede das tendncias instintivas que 
se orientam
     pela libido, que  regulada pelo princpio do prazer.
          O Ego  a instncia reguladora das tendncias instintivas quando em 
confronto com a
     realidade cultural em que a pessoa se insere, j que esta condena e probe a 
manifestao
     de muitas dessas tendncias, levando a pessoa a autoculpabilizar-se. O ego 
rege-se pelo
     princpio da realidade que procura "conciliar" tendncias e presso 
sociocultural (por
     exemplo pela sublimao), tentando assim evitar a um tempo a punio externa e 
interna (a
     autoculpabilizao).'1)
          O Super-ego consiste na interiorizao das normas e proibies culturais da 
sociedade
     em que a pessoa vive - a moral dessa sociedade. A criana tem o primeiro 
contacto com
     essa moral atravs da famlia.

     Como j se viu no Captulo I, Freud considera que no h ningum normal, pelo 
que se impe a
prtica generalizada de uma terapia. Para este mdico, a normalidade no  possvel 
porque a
nossa infncia foi duramente marcada pelas relaes familiares. A sociedade, que 
tantas vezes
condena explcita ou implicitamente as nossas pulses sexuais,  tambm "responsvel" 
pela
neurose. O homem, enquanto animal,  orientado pelo princpio do prazer e da 
sobrevivncia;
enquanto ser social  vtima de proibies e de tabus - da luta entre pulses e 
desejos, por um
lado, e as proibies, por outro, surge o conflito; se no se satisfazem as pulses, 
a pessoa
fica frustrada porque recalcou essas pulses bem como a sua respectiva lembrana, ou 
seja,
recalcou a conscincia desses seus desejos -  o recalcamento.

     As frustraes infantis vo marcar todo o nosso futuro embora sejam esquecidas 
(ou melhor,
recalca-se a sua lembrana) devido  censura feita pelo super-ego. O super-ego , 
como j se teve
ocasio de referir, a interiorizao, que acontece logo desde a mais tenra idade, das 
proibies, dos
costumes, dos ideais, dos mitos e dos tabus da cultura da sociedade em que a criana 
nasceu. Um
outro aspecto, por vezes esquecido,  o do papel dos arqutipos conscientes ou 
inconscientes, estes
ltimos responsveis pelos nossos fantasmas. A importncia dos arqutipos no nosso
comportamento foi aprofundada por seguidores de Freud, como Carl Jung. Este discpulo 
de
Freud no centra o comportamento neurtico essencialmente no problema das pulses 
sexuais (a
libido) insatisfeitas como tinha feito o seu mestre mas chama a ateno para o papel 
das
representaes simblicas dos principais temas da existncia do homem (de que Freud 
j tinha
encontrado modelos nos mitos clssicos) que so transmitidas culturalmente embora o 
homem no
tenha, forosamente, conscincia dessa transmisso.


     Concluso

     Apesar de ter comeado por ser um mtodo de tratamento, a Psicanlise 
rapidamente se
tornou tambm numa teoria psicolgica. O tratamento individual de pacientes levou a 
uma
melhor compreenso da dimenso psicolgica da religio, da arte, da mitologia, da 
organizao
social, do desenvolvimento infantil e da pedagogia.  precisamente este aspecto do 
desenvolvi-
mento infantil que ir, de seguida, ser estudado.




Em psicologia, sublimar significa transferir uma actividade para outro socialmente 
aceite.

     Para Freud, que foi quem primeiro chamou a ateno para a importncia dos 
primeiros anos
da nossa existncia na estruturao da futura personalidade, o desenvolvimento 
infantil est
directamente ligado a manifestaes sexuais, isto ,  procura de prazer. O estudo da 
infncia
foi feito por Freud atravs da anlise de adultos. As fases do desenvolvimento 
infantil so as
seguintes:

Fase oral - prolonga-se pelos primeiros dois anos de existncia. A boca  a zona 
ergena, sendo
a suco o modo de obteno do prazer.

Fase anal - situa-se dos dois aos trs anos de idade. O nus  a principal zona 
ergena, pelo que
a criana sente prazer nas suas defeces anais e em mexer nas mesmas.

Fase flica - situa-se entre os trs e cinco anos. Agora a pulso sexual dirige-se 
directamente
para os orgos sexuais.  nesta fase que se d o aparecimento do complexo de dipo 
nos
rapazes e do complexo de Electra nas raparigas. Freud, com o seu interesse 
psicolgico pelos
arqutipos, foi buscar  mitologia grega a explicao destes complexos. O rapaz desta 
idade
sente-se atrado pela me e odeia o pai, enquanto que a rapariga sente o inverso. Se, 
no fim
desta fase, se der a superao do complexo, o desenvolvimento ser mais equilibrado 
do que
se se mantiver, no futuro, uma fixao na mesma, a qual dar origem a neuroses.

Fase de latncia - prolonga-se dos seis anos at  puberdade. Nesta altura, comeam a 
formar-
-se os sentimentos morais embora o super-ego j anteriormente se tenha feito sentir 
fortemente
no comportamento da criana. Concomitantemente, d-se um aparente desinteresse pela 
libido.

Fase genital - acontece a partir da puberdade. Agora, d-se uma orientao da libido 
para a
consumao do acto sexual.







     3.2.2. Erik Erikson

     Psicanalista de origem alem, nasceu em 1902 em
Frankfurt, tendo estudado em Viena com Anna Freud, filha
de Sigmund. Discordou da noo que a personalidade dos
adultos no muda. Freud acreditava que as fases mais

importantes do desenvolvimento se baseavam em mudanas
sexuais e, por consequncia, o desenvolvimento estaria praticamente completo logo que 
se atingissem os primeiros anos da
idade adulta. Erikson, pelo contrrio, acreditava que as
pessoas ao lidarem umas com as outras passavam por uma
srie de crises ao longo da sua vida e que a sua personalidade
dependia do modo de como essas crises eram ultrapassadas.
Erikson, em Childhood and Society (1963,) prope que se
acrescente  teoria freudiana do desenvolvimento psico-sexual
urna teoria do desenvolvimento psico-socal. Uma vez que

Erikson

a natureza das relaes humanas muda atravs dos anos, o desenvolvimento das pessoas 
no
acaba quando atingem a idade adulta. Assim, e com base nas suas observaes, Erikson 
dividiu
o desenvolvimento humano em oito estdios ou idades segundo as crises por que a 
pessoa
passa. As crises podem ter consequncias positivas ou negativas.

                     98

12 Ano de existncia - confiana  desconfiana. O primeiro ano caracteriza-se por uma
atitude positiva de esperana: confiana no meio em que a criana vive e no futuro. 
Poder,
no entanto, tornar-se desconfiada e, por isso, temer o futuro.

22 Ano - Autonomia  dvida, vergonha. Este segundo ano da nossa vida caracteriza-se 
pela
afirmao da vontade: capacidade de exercer uma escolha assim como possibilidade de 
auto-
domnio; sentimentos de autonomia e de amor-prprio que levam ao desenvolvimento da 
boa
vontade e do brio. Por outro lado, pode acontecer que se desenvolvam sentimentos de 
perda de
autodomnio ou de se ser objecto de um excessivo domnio exterior (por parte dos 
pais, por
exemplo). Vergonha e dvidas acerca do livre exerccio da vontade podem ser os 
sentimentos
resultantes.

3!-' ao 52 Anos - iniciativa  sentimento de culpa. Nesta fase d-se a consolidao da 
tenacidade: capacidade de iniciar actividades, de continu-las e de apreciar a sua 
realizao. Pode,
no entanto, acontecer que haja medo de castigos e sentimentos inibitrios ou ainda um 
show-
-off resultante daqueles.

6'-' Ano at  Puberdade - diligncia  complexo de inferioridade. Desenvolve-se a 
peril-
cia: capacidade em relacionar habilidade e instrumentos; exerccio da inteligncia e 
da
destreza com o objectivo de realizar obras e de realiz-las bem. Porm pode acontecer 
que se
gere um sentimento de incapacidade e um complexo de inferioridade.


Adolescncia - Noo da identidade  confuso acerca do papel a desempenhar.  na
adolescncia que comeamos a perceber bem o significado da lealade: capacidade de se 
ser
fiel.  tambm nesta altura que o adolescente se v a si prprio como um ser nico 
integrado
na sociedade"'. Pelo contrrio, a crise poder levar a que o jovem no entenda bem 
que papel
dever desempenhar, isto , no saiba como agir porque "no sabe exactamente quem ".

Primeiros anos da vida adulta - Intimidade ou amor  isolamento. D-se a capacidade de
nos dar-mos aos outros - amor e amizade. Por outro lado, o jovem adulto poder 
isolar-se,
distanciando-se dos outros, evitando compromissos de amizade ou de amor.

Meia-idade - Criatividade ou interesses  estagnao ou auto-absoro. Nesta fase da
vida, d-se um aumento dos cuidados para com aquilo que foi criado atravs do amor, 
por
necessidade ou acidentalmente: aumento de interesse pela actividade profissional, por 
ideais
ou aumento da ateno para com os filhos. Se isto no acontecer, a pessoa em causa 
viver
sem interesses, "num deixar-se andar", cair na depresso e haver um empobrecimento 
nas
relaes com os outros.

Velhice - Sentimento de integraro e calma  desespero. A pessoa desta idade avanada
pode tornar-se sbia: deixa de preocupar-se ansiosamente com a vida porque descobriu 
o seu
sentido e o da dignidade da sua vida; haver a aceitao da morte. Se no se atingir 
esta
sabedoria (isto acontece se ao olhar para trs se verifica que no se fez nada que 
valesse a
pena), haver um sentimento de desgosto perante a vida e de desespero perante a 
morte.








Com frequncia a diversidade e inconstncia de atitudes e de comportamentos exprimem 
precisamente a procura de
fidelidade para com os outros e para consigo mesmo, numa luta pela identidade.

Balano da "teoria das oito idades" de Erikson

     A teoria de Erikson do desenvolvimento ao longo da vida teve bastantes 
repercurses n,,1
psicologia actual. A expresso crise de identidade deve-se a este psicanalista. No 
entanto,

torna-se difcil efectuar previses especficas que possam ser testadas 
experimentalmente com
base nesta teoria, j que a mesma foi exposta em termos muito gerais e , por vezes, 
um pouco
literria.

     3.2.3. Bowlby

     O estudo do desenvolvimento foi continuado por outros psicanalistas, tais como 
Bowlby. Em
1956, Bowlby afirmou que as frustraes e os traumatismos dos primeiros anos de vida 
podem
afectar o comportamento futuro, por exemplo, no que toca a sintomas e s suas 
configuraes.
John Bowlby, ao observar a relao me-bb, verificou que o beb aos quatro meses de 
idade
sorri para a me e segue-a com o olhar -  o comeo dos sorrisos sociais selectivos. 
O comportamento de ligao est definido aos seis meses; sendo a me a principal 
figura de ligao,
o beb agarra-se a ela mais do que a qualquer outra pessoa (convm, no entanto, no 
esquecer que
 da me que vem, na maior parte dos casos, a alimentao). Para Bowlby, a ligao ,
evidentemente, uma ligao socioemocional recproca, sendo o beb um parceiro social 
que
interage activamente com o adulto por meio de comportamentos especficos e 
organizados.


3.3. coNcEpEs compoRTAmENTAis

     As concepes behavioristas do desenvolvimento do, naturalmente, especial 
relevo ao papel do
meio ambiente no desenvolvimento. Os comportamentos so modelados quer pelo meio, 
quer por
aprendizagens por meio da observao, da imitao e do condicionamento operante (este 
aspecto
ser abordado no captulo referente  Aprendizagem).

     As concepes behavioristas do desenvolvimento esto na base de prticas de 
puericultura e de
educao, uma vez que  mais fcil educar se for possvel condicionar.






4.   AS LIGAES INFANTIS
     @ ligao me-beb

     A socializao da criana (o fenmeno que faz dela um ser
social, uma pessoa) comea com a famlia e em primeiro lugar com a
me. Ao ser socializada, a criana age activamente sendo ela prpria
social quando, por exemplo, sorri para a me. Segundo Bowlby, se a
criana for privada da companhia da me por um longo perodo, essa
privao ter efeitos prejudiciais, tais como retardamento e regresso no seu 
desenvolvimento. Bowlby afirma que "o beb tem

uma propenso intrnseca para estar em contacto e em ligar-
-se (ou vincular-se) a um ser humano".

     Os tericos da socializao fizeram estudos experimentais de muitos dos 
pressupostos da
Psicanlise, j que, muitas vezes, de pressupostos apenas se trata. Este facto no 
invalida, no
entanto, de modo algum o seu valor.

      a me quem geralmente d comida e conforto ao beb; em termos behavioristas a 
me
funciona como um reforo primrio, fisiolgico. Para os psicanalistas a me funciona 
como um
arqutipo moral e social que a criana rapidamente assimila graas ao super-ego. Os 
psicanalistas
do tanto relevo a este aspecto como ao da prestao do alimento em si.








          A IMPORTNCIA DO ALEITAMENTO NA FORMAO DO INDlVDUO

     braham considera que os hbitos relativos ao aleitamento do beb levam a dois 
tipos de
     personalidade distintas: o optimista oral e o pessimista oral. Quando a 
amamentaro da
     Acriana  agradvel e calma, da resulta um optimismo imperturbvel que pode 
levar 
     indiferena sem quaisquer preocupaes e  inaco. Tais indivduos esperam que 
se
     preocuparo com eles, que o leite materno <,correr incessantemente,,. Aqueles 
que tiveram um
     perodo de aleitamento pouco satisfatrio so pessimistas visto que lhes foi 
recusada qualquer
     satisfao desde os primeiros tempos da sua existncia. Isto pode levar a uma 
atitude que exija
     constantemente qualquer coisa dos outros, a uma tendncia para ser dependente.
          (...      ) Uma observao de Mead permite a aplicao deste conceito a 
diferentes colectividades.
     No seu estudo das diferenas de temperamento entre trs comunidades melansias 
constatou que
     o temperamento dos Arapesh lembrava o tipo do optimista oral enquanto os 
Mundugunor se assemelhava ao pessimista oral. Nos primeiros, as crianas eram 
alimentadas frequente e abundan-
     temente e as suas mes acariciavam-nas enquanto os amamentavam: os Arapesh 
adultos eram
     indivduos amigveis e cooperativos. As mes mundugunor, pelo contrrio, 
alimentam os seus
     filhos de m vontade, dando-lhes o peito pouco tempo: em adultos os Mundugunor 
so pessoas
     to hostis e pouco amigveis quanto possvel.


          C>tto Klineberg, Psychologie Sociale, Paris, PUF, 1957, vol. II, p. 408







     A disposio intrnseca ou impulso da criana, tal como descrita por Bowlby, 
para estar em
contacto e para se ligar a um adulto, em especial  me, foi confirmada pelo 
relatrio de
Ainsworth e Bell em 1970 sobre o comportamento de cinquenta e seis crianas de um ano 
de
idade, numa situao artificial - num laboratrio equipado com objectos at ento 
desconhecidos
das crianas. A presena das mes encorajava o comportamento exploratrio enquanto 
que a sua
ausncia aumentava a busca da ligao pelo choro e fazia diminuir a explorao das 
novidades. A
presena das mes fornecia a confiana que permitia s crianas a explorao dos
novos estmulos. Na maioria dos casos a ausncia das mes era intolervel. Este 
estudo
revela a dependncia psquica do beb em relao  me.

                     i o

     Para se compreender melhor a interaco criana-me convm fazer apelo  
etologia naturalista
ou laboratorial. Harry Harlow efectuou uma srie de experincias em laboratrio com 
macacos
bebs. Harlow e a sua equipa separaram macacos recm-nascidos das suas mes e 
colocaram-nos
numa jaula onde tinham sido postas duas mes substitutas, uma de arame com um bibero 
com
leite, a outra, acolchoada e felpuda mas sem leite. Os macacos preferiam abraar-se  
me felpuda
e a permanecer dirigindo-se apenas  me de arame para obter alimento. Igualmente, 
perante
uma situao de medo corriam para a me felpuda na busca de conforto. Esta 
experincia
demonstrou que a necessidade de contacto fsico, nos bebs, com um objecto 
confortvel,  to
importante, do ponto de vista biolgico, quanto o  a alimentao. Demonstrou tambm 
que a
dependncia do beb para com a me no diz respeito apenas  alimentao. Se o beb 
for privado
desse conforto, prestado pela me, esse facto poder acarretar mais tarde 
consequncias
patolgicas.

     Muitas crianas tambm gostam do contacto com brinquedos de "peluche". Gostam, 
por exemplo, de dormir com ursos felpudos, os famosos "Teddy Bears", especialmente em 
caso de doena ou
se se sentirem, por algum motivo, mais inseguras.


     Enquanto que psicanalistas podem interpretar a experincia de Harlow como uma 
prova da
necessidade de afecto por parte dos bebs, alguns behavioristas mais ortodoxos 
"reduzem" o
afecto e o amor a uma simples necessidade biolgica em nada diferente da alimentao.

     O estudo do comportamento de ligao de uma criana a um adulto, em especial  
me
(attachment), realizado por Bowlby sintetiza, por assim dizer, as concepes da 
etologia, da
psicanlise e dos tericos da socializao. Essa ligao ou vnculo solidifica-se 
atravs de
vrios comportamentos como sugar (mamar e chuchar), agarrar (e agarrar-se  me),
seguir com o olhar, chorar e sorrir. Bowlby afirmou em 1969 que os bebs so capazes 
de se
comportarem de tal modo que podem, atravs dos comportamentos referidos, influenciar 
e
controlar o comportamento de quem deles cuida. Alguns destes comportamentos, como por
exemplo sorrir, so obviamente recprocos entre a me e o beb, so eles que 
aproximam me e
filho.


     Papis do beb e da me na interaco social

     O comportamento da me para com o beb e o deste para com a me obedece a 
impulsos
motivacionais. Estes impulsos so subjacentes a todos os processos de adaptao do 
organismo
ao meio e consistem em actividades especficas dirigidos para um objectivo preciso. 
Os neo-
natos dependem totalmente dos pais na alimentao, no agasalho, na limpeza e na 
proteco dos
perigos. Para a esmagadora maioria dos pais, esta competncia ou este papel de 
primeiros
protectores  muito mais do que um dever -  uma fonte de prazer e de satisfao. A 
medida que
o tempo passa e que a interaco pais-filhos  maior, aumenta a ligao entre ambos. 
O que  que
provoca esta ligao? O maior responsvel por ela  o prprio beb, atravs dos seus
comportamentos, como o j referido sorriso, por exemplo. Posto isto, compreende-se 
que a criana
no  um ser passivo perante o meio.

     O beb e a me interagem, respondendo cada um com ajustamentos recprocos. 
Assim, por
exemplo, a me cria e cuida do beb, protegendo-o de perigos desde o nascimento, 
dando-lhe
ateno atravs do carinho prestado, o que incute confiana no filho e estimula e 
orienta os seus
comportamentos. O beb percebe os gestos da me e responde comunicando com gestos - 
deu-se a
aquisio da intencionalidade de comunicao. Esta aquisio enquadra-se no 
estabelecimento

progressivo de sincronias interpessoais, primeiro entre a me e o filho, que devem 
constituir a
preocupao primordial do desenvolvimento precoce. A passagem da interaco  
interlocuo, sendo esta ltima a verdadeira relao, estabelece-se num quadro de 
intenes e de

                     102

significaes que permitir  criana esperar respostas e  me antecipar os 
comportamentos que
a criana espera dela. Este papel da me  muito importante, pois como j se 
salientou, a
substituio da me  suportada apenas por curtos espaos de tempo; uma ausncia 
prolongada
provoca agitao e choro (o medo a estranhos), podendo comprometer o ajustamento da 
criana.
Recorde-se a este propsito os estudos de Bowlby e o relatrio de Ainsworth e Bell.

     O amor dos pais para com os filhos constri-se numa relao real que comea 
antes da
prpria concepo do beb, com o desejo de procriar, de reproduzir-se e, no caso 
particular da
me, da maternidade. Existem ainda outras representaes tais como as fantasias do 
beb
imaginrio que vo marcar toda a relao pais-filho. Esta poder dar-se de um modo 
equilibrado
ou no, consoante se d ou no um ajustamento das expectativas  realidade.






5. A ADOLESCENCIA

     A adolescncia (do latim adolescere que significa 'crescer') sucede-se  
infncia e ante-
cede a idade adulta. Torna-se difcil defini-Ia devido ao seu carcter de 
transitoriedade entre
duas idades bem definidas e porque os seus limites cronolgicos variam: a puberdade e 
a
idade adulta. A puberdade (do latim puber que significa 'j desenvolvido", 'adulto' - 
em certas
sociedades (> jovem nesta altura j pode, por exemplo, casar) caracteriza-se por 
mudanas
biolgicas e psicolgicas. A emancipao (do latim emancipara que significa 
'libertar, pr fora de
tutela") consiste na obteno do estatuto de pessoa responsvel (aquele que  capaz 
de responder
pelos seus actos). Se no limite inferior, o da puberdade, a variao cronolgica  
mnima, quanto
ao outro j no se pode dizer o mesmo pois a atribuio do estatuto de adulto, com os 
seus direitos
e deveres, varia de cultura para cultura. A adolescncia  um estdio de transio a 
um tempo
biolgico e social.


     Se, como j se referiu, nalgumas sociedades o jovem logo que atinge a maturidade 
sexual pode
casar, nas mais industrializadas o jovem torna-se "adulto" mais tarde pois os estudos 
prolongam-
-se no mnimo at aos catorze anos, podendo ir at aos vinte e tal. Em ambos os 
casos, nas
sociedades ditas desenvolvidas, a dependncia dos jovens em relao aos pais 
mantm-se por
bastantes anos quer pela sequncia dos estudos quer pela impossibilidade de se 
tornarem, na
maioria dos casos, economicamente independentes.








FIG. 4

Maturao sexual. A puberdade inicia-se quando o hipo-
tlamo estimula a pituitria anterior na segregao de
hormonas que conduzem  produo das horinonas sexuais por parte das gnodas 
(testculo, ovrio y )
Macho                       Fmea
                 Hipotlamo




          Hipotlamo d
          instrues 
          hipfise para
          segregar hormonas



     Testosterona                 Estradiol


Testculo                 Ovrio

     5. 1. coNcEiTo DE ADoLEscENciA

     A adolescncia  um fenmeno tipicamente humano, ou melhor, tpico de certas 
sociedades. A durao da adolescncia varia consoante os contextos socioculturais. 
Nas
tribos da Guin e da Austrlia, por exemplo, os ritos de iniciao ou de passagem  
idade adulta
realzam-se logo que oa jovem atinja a puberdade e esteja aptoa a procriar. Em meios 
sociais
diversos tambm h variaes na durao da adolescncia. Nos meios rurais mais pobres 
os
jovens comeam a trabalhar mais cedo e, por isso, tornam-se adultos mais cedo que nos 
meios
urbanos. Nestes, contudo, tambm h variaes que dependem do meio econmico e 
social. Deve

pois concluir-se que no pode haver rigidez no estabelecimento da durao da 
adolescncia.

     Segundo Justn Pikunas, a adolescncia  normalmente considerada colmo uma idade 
de
frustraes e de sofrimento durante a qual se intensificam conflitos e crises de 
ajusta-
mento, sendo tambm uma idade de grandes sonhos, de romances amorosos.

     O jovem procura o seu eu, procura a sua identidade, na busca de identificaes 
que lhe permitam antever o seu futuro status de adulto (sonhar com ele, com as 
tarefas que quer desempenhar na sua vida futura de adulto - procura um sentido para a 
sua vida). Procura tambm,
muitas vezes ansiosamente, o sentido da vida. Consoante as suas relaes familiares, 
as suas
angstias, os seus problemas no resolvidos, assim esta procura pode processar-se de 
um modo
mais ou menos optimista, podendo em casos extremos levar a neuroses de ansiedade e a
reaces obsessivo-compulsvas, muito mais comuns nesta idade do que  primeira vista
possa pensar-se, j que a maioria dos jovens aparenta descontraco, autoconfiana e 
alegria. H
ainda casos mais extremos de desajustamento que podem resultar em psicoses como a
esquizofrenia nas suas formas de hebefrenia ou de catatonia (caracterizada por 
perodos de transe
- imobilidade absoluta ou de grande excitao), podendo o doente, nos intervalos da 
crise,
apresentar um comportamento normal.

     A identificao com pares, a procura de amizades ntimas, de amor e, tambm, de
grandes ideais so sinais desta fase da vida humana.

     Existem muitos mitos sobre a adolescncia que, por vezes, levam a atitudes 
hostis por
parte dos adultos. Estes, precisamente por nem sempre compreenderem ou por terem 
esquecido a
sua juventude, afirmam que so os jovens que so hostis. Assim, diz-se que os jovens 
so rebeldes,
que causam conflitos familiares e mesmo sociais. Na realidade, existe um certo grau 
de inconformismo da parte dos adolescentes mas que tem explicao e , em certos 
casos, justificado. Este
inconformismo manifesta-se sempre, obviamente de vrias formas, consoante a 
personalidade do
jovem, o tipo de relaes familiares e o contexto histrico e sociocultural em que 
vive.

     Assim, por exemplo, os hippies do final da dcada de '60, que com a sua maneira 
de viver e de
vestir pretendiam, de um modo "passivo", manifestar o seu desacordo por um tipo de 
sociedade
que tinha envolvido os jovens na guerra do Vietname: da o clebre refro "make love 
not war"
(no esquecer que o fenmeno hippie teve a sua origem nos EUA). Este "fenmeno" 
passou, no
entanto, para a Europa onde adquiriu outras caractersticas - revolta para com o 
status quo; no

dizer dos hippies, revolta contra a sociedade burguesa e conservadora; foi tambm uma 
moda.

O fenmeno moda  igualmente muito importante para os adolescentes - ao seguirem-na,
sentem que pertencem a um grupo bem identificado porque precisam de se sentir 
integrados. A
necessidade de integraro  uma das mais prementes nos jovens, porque atravessam uma
crise de identidade (reveja-se a Teoria das oito idades de Erikson).


                     104

     No final da dcada de '60 houve outras manifestaes tumultuosas, essencialmente 
de adolescentes e de jovens adultos, na Europa. Relembre-se em 1968 A Primavera de 
Praga e o seu termo
e o Maio de '68 em Frana, especialmente em Paris.

     Foram movimentos, sobretudo de jovens estudantes, que tiveram um carcter 
essencialmente
poltico embora em Frana tenha acabado por ser limitado ao campo de "uma revoluo 
sexual". A
presso das instituies acaba normalmente por pr termo s pretenses dos jovens mas 
sempre
h algo que fica. Em Portugal, neste turbulenta dcada de '60, duas vezes, nas 
Universidades de
Coimbra e de Lisboa houve greves estudantis a favor do reconhecimento oficial da 
Associao de
estudantes. Mais recentemente, na China, tambm jovens estudantes se manifestaram a 
favor de
uma liberalizaro do ensino e da vida estudantil mas as manifestaes foram 
violentamente
reprimidas. Seja de que modo for, h sempre duas constantes: a maior parte dos 
adultos
condena as aces e os movimentos dos jovens que saiam fora do estabelecido, mas as
aces e movimentos, mais ou menos tempestuosos, deixam sempre algumas marcas - so
uma das foras motoras do progresso.




     Teorias sobre a adolescncia e sobre o conflito nesta idade

     J.     Pikunas considera que "conflitos com os pais e com os pares, o stress 
sexual e moral, a mu-
dana de residncia ou de escola, a reviso de padres e de valores, tudo isso causa 
tenso no
adolescemte".

     Stanley Hall, com a sua Teoria da Recapitulao Comportamental, transformou a 
Teoria da
Evoluo Biolgica de Darwin expandindo-a no que iria tornar-se uma Gentica do 
Comporta-
mento. Segundo Hall, o indivduo humano passa por estdios de desenvolvimento que 
corres-

pondero a uma escala filogentica de ascendncia da amiba ao ser humano civilizado.

     As mudanas no comportamento do indivduo acontecem devido a uma maturao 
rpida
atravs de estdios que obedece a um padro predeterminado e universal, enquanto que 
o
primeiro desenvolvimento individual (ontogentico) repete o longo e e lento processo 
de desenvolvimento da espcie. (filogentico). Para Hall, a Ontognese recapitula a 
Filognese, isto , o
crescimento individual segue as linhas do desenvolvimento do animal em ascendncia, 
sendo a
adolescncia que eleva a classe humana ao status de superantropide, mas  tambm um
perodo de grande instabilidade (de crise) e de conflitos que pode ser responsvel 
por casos de
retrocesso e de atraso.

     Perspectiva psicanaltica: Freud, como j se teve ocasio de verificar, 
considera a puberdade (incio da adolescncia) como a fase genital do desenvolvimento 
da pessoa, altura em que se
d uma orientao da libido para a consumao do acto sexual, a pessoa atinge, por 
assim dizer, a
maturidade sexual. Segundo Freud, o adolescente oscila entre as exigncias da libido 
(princpio
do prazer) e as da realidade (princpio da realidade), cedendo frequentemente s 
primeiras -
 aqui que se situa o conflito na adolescncia. O uso da sublimao  um sinal de que 
a pessoa
teve um crescimento normal e atingiu a maturidade.

     Alfred Bandura d muita importncia aos meios de comunicao, televiso 
especialmente, no
que toca ao comportamento dos adolescentes. Em 1968 participou na elaborao de 
experincias
com dois grupos de crianas, um dos quais foi sujeito  observao de filmes e de 
desenhos
animados com cenas violentas - este grupo apresentou-se duas vezes mais agressivo do 
que o
outro. Em 1968 Walters e Willows confirmaram as concluses daquela experincia. A
agressividade fez-se sentir nas crianas, na altura em que viram os filmes, mas 
tambm ainda

se fazia sentir dez anos mais tarde, em plena adolescncia. Note-se que estas 
experincias
foram efectuadas na dcada de '60: imagine-se o que no se passar agora em meados 
dos anos '90
quando a violncia  muito maior na televiso! Pode pois concluir-se que os programas 
violentos
aumentam a probabilidade de reaces agressivas e das subsequentes frustraes.





     5.2. ADOLESCENCIA E TAREFAS DO DESENVOLVIMENTO

     A adolescncia depende muitssimo das tarefas necessrias ao desenvolvimento, 
desempenha-
das na fase de latncia (a imediatamente anterior  puberdade). So as seguintes:

     -    Reconhecimento do papel social
     -    Controlo emocional
     -    Aprendizagem das matrias escolares
     -    Aptido fsica

     Havighhurst em 1972 descreveu como necessrias, para as idades dos seis aos doze 
anos, as
seguintes tarefas:

          Treino fsico indispensvel a jogos desportivos

         Formao de atitudes saudveis perante o mundo

         Boa insero no grupo etrio a que o jovem pertence

         Distino dos papis dos sexos feminino e masculino

         Aprendizagem no domnio da leitura, da escrita e do clculo

         Aquisio dos conceitos necessrios  vida do dia-a-dia

         Desenvolvimento da conscincia moral e de uma escala de valores
          Desenvolvimento de uma atitude independente
          Compreenso da funo das instituies sociais


         conceito de identidade

     A formao da identidade, atravs da conquista de uma relativa independncia, 
completa-se
no adolescente pelo desempenho de um papel sexual, pela escolha de uma profisso 
futura e por
uma atitude perante o casamento. Seja qual for a profisso escolhida ou a atitude 
tomada perante
o casamento, estas escolhas revelam a procura de uma estabilidade emocional - a 
vontade de
uma realizao pessoal.

     Erikson, como j se referiu, concebe a identidade como algo que se consolida na 
adolescncia.
Um dos aspectos da crise da adolescncia  precisamente o da consolidao da 
conscincia de se
ser um ser nico e ao mesmo tempo integrado na sociedade. A expresso crise de 
identidade 
da sua autoria.

                     106

         adolescente e os conflitos

     O adolescente tem de formar a sua identidade dentro da estrutura da famlia mas, 
ao mesmo

tempo, separando-se dela, o que implica discordncias e conflitos com os pais, 
sobretudo quando
estes so hiperprotectores. Pelo conformismo ou pela rebeldia ou pela alternncia das 
duas
atitudes, o jovem procura a sua identidade, quer afirmando a sua prpria 
individualidade quer
pela identificao com outros. O adolescente procura com frequncia identificar-se 
com cantores
populares (poplrock), com atletas e com actores julgando assim afirmar a sua 
diferena e a sua
identidade perante os pais e a sociedade em geral. Este aspecto conflituoso entre a 
procura
de identidade e o querer ser "outro", por exemplo o cantor "pop" (difuso da 
identidade),
ou pertencer e simultaneamente querer separar-se da famlia  o mais caracterstico 
da
adolescncia.

     O problema da difuso da identidade  muitas vezes resolvido pela soluo da 
intimidade
interpessoal com outros jovens do mesmo sexo - a identificao com o semelhante como 
que
refora a identidade, atenuando o seu aspecto difuso. Este vivncia identidadedifuso 
do "eu",
como alis j se referiu,  vivida agudamente pelo adolescente.

     Neste perodo da vida  frequente a ocorrncia de problemas entre geraes, os 
conflitos de
gerao (the generation gap) que, todavia, no so, regra geral, to profundos como 
se poderia 
primeira vista crer. Na realidade, no que toca a relaes familiares, estes conflitos 
so,
frequentemente, mais de ordem formal do que de contedo: aspectos essenciais como o 
dos valores
e atitudes perante os assuntos mais importantes mantm-se frequentemente 
inalterveis, no
havendo, muitas vezes, diferena entre a atitude dos pais e a dos filhos.

     No raramente, os conflitos familiares so provocados por aspectos aparentemente
secundrios, como a desarrumao de um quarto ou msica a tocar muito alto. O jovem 
procura
afirmar a sua identidade desta forma e os pais procuram afirmar a sua autoridade, 
pois
custa-lhes encarar o facto que o seu filho ou filha estejam a tornar-se 
progressivamente
independentes deles. No entanto, s vezes, estes mesmos conflitos podem revestir-se 
de aspectos
mais srios pois servem de vazo a outros problemas mais profundos, "escondidos". No 
que toca a
outros conflitos de gerao de mbito mais alargado, como os que periodicamente 
acontecem e que
assumem propores de ordem social e poltica, podem igualmente ser graves e 
profundos mesmo
quando no resultem em mudanas substanciais no seio da sociedade.

     De um modo geral, pode dizer-se que, apesar de a adolescncia ser considerada 
como um

perodo de agitao caracterizado por conflitos, "stress" e infelicidade, a verdade  
que, apesar de
alguns adolescentes se sentirem frequentemente infelizes e de muitos se sentirem s 
s vezes
infelizes, estudos realizados neste campo por Offer e Sabshim em 1984 e por Peterson 
e Ebata em
1987 revelaram que a maioria dos adolescentes sente-se normalmente feliz e 
autoconfiante. No
entanto no se pode negar a ocorrncia, mais frequente nestas idades, de variaes 
mais ou
menos sbitas de estados de esprito.

      no final da adolescncia que se d a principal fase de desenvolvimento da 
identidade com
a previso da idade adulta, altura em que o jovem pesa os seus pontos fracos e fortes 
com os olhos
postos no futuro.  o momento de traar metas duradouras que lhe permitiro "definir" 
a
espcie de pessoa que quer ser. No momento em que o adolescente se apoia nos 
principais
aspectos da sua identidade, est apto a integrar-se na sociedade adulta sem sofrer de 
neuroses de
ansiedade (no raras nesta altura, facto a que alis j se aludiu) nem de um aumento 
de
frustraes.  tambm durante a adolescncia que o jovem comea a desenvolver a sua 
filosofia
de vida, tomando posies perante a religio, a moral e a poltica.

     O conceito de moratria

     Um dos aspectos decisivos para a futura vida de adulto  a passagem do 
adolescente por um
perodo de abulia ou mesmo alheamento aparentes mas que , na realidade, um perodo 
de
procura e de especulao -  a fase de moratria no dizer de Erikson. Durante este 
perodo, o
jovem, aparentemente aptico, est a ser profundamente criativo. Neste perodo de
espera, ele "pesa" a sua vida tendo em vista o futuro: rev e re-experimenta 
mentalmente os vrios
papis sociais que at a desempenhou, tentando ajustar-se queles que melhor se 
coadunam com
os seus sonhos e os seus projectos.

     Pode falar-se de moratria profissional durante os anos de estudo, quando o 
adolescente antev
a sua futura vida profissional, de moratria sexual-afectiva nos anos de namoro ou de
"paixonetas" breves, quando antev o seu futuro de pessoa casada ou possveis 
relaes amorosas
que possa vir a ter.

     Sem a moratria o jovem nunca se tornaria adulto; a fase de preparao da idade 
adulta
exige toda essa anteviso do futuro, sem a qual o adolescente no poderia saber que 
espcie de
pessoa queria vir a ser.








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